Leonardo, o maior porquê de uma geração de torcedores do Sport

Leonardo recebeu homenagem em 2014; faltou o jogo de despedida (Foto: Divulgação)

Leonardo recebeu homenagem em 2014; faltou o jogo de despedida (Foto: Divulgação)

Certa vez, quando ainda não tinha noção exata do que eram o futebol e suas rivalidades, fui ao Arruda assistir a um Santa Cruz e Sport com meu pai e alguns tios. Devia ser algum ano entre 94 e 95, difícil dizer com exatidão. Já no fim do jogo, o Leão estava perdendo quando eu chamo meu pai e disparo, inocente. “Vamos torcer pelo Santa?”. Para ele, a situação não podia ser mais chata: ninguém quer levar o filho ao estádio pra ver seu time ser derrotado, certo?

Mas meu pai desconversou. Fez pouco caso, brincou e conseguiu, enfim, me demover da ideia. Tudo o que ele podia fazer ali era aquilo mesmo: roubar minha atenção, me distrair. Fazer-me esquecer o resultado. Conseguiu. Hoje, eu sei que não foi por seus argumentos – pífios, diante do vareio que o Sport tomava -, mas por sua segurança. Inspirando confiança, seu semblante me convenceu. Ele, e tantos outros pais, sabiam que podiam ficar tranquilos. Eu – e toda uma geração de rubro-negros – viríamos a descobrir esse porquê nos anos seguintes.

Cresci frequentando a Ilha do Retiro. E era impossível não se encantar com um camisa 7 franzino, baixinho. Por trás dessa figura frágil, estava um jogador mais habilidoso e imprevisível do que todos os seus colegas de time – frequentemente, do que os do adversário também. Era ele quem resolvia a maioria das partidas. Ficou difícil? Toca nele, que ele parte para cima, entorta um zagueiro e decide.

(Ah, esse roteiro; foram tantas tardes de domingo…)

Ligeiro e habilidoso, Leonardo era difícil de ser marcado em um dia inspirado (Foto: Arquivo)

Ligeiro e habilidoso, Leonardo era muito difícil de ser marcado em um dia inspirado (Foto: Arquivo)

Todo esse destaque não era porque seus companheiros eram ruins, ou porque a equipe era fraca. Muito pelo contrário. Na época em que esse baixinho liderou o Sport, o clube viveu uma das épocas mais gloriosas de sua história. Empilhou títulos estaduais – foram 7 – e conquistou duas Copas do Nordeste. Fez campanhas históricas no Brasileiro, que alimentaram entre os torcedores a fantasia de que um segundo título nacional era, sim, possível. Transformou a Ilha do Retiro em um caldeirão temido, onde caíram gigantes como São Paulo, Inter, Cruzeiro e tantos outros, e tantas vezes. Tudo sob a batuta imponderável do atacante, o dono do time.

Sua história no Sport não foi contínua, nem só de alegrias. Algumas vezes, ele trocou o clube onde fincou raízes pela oportunidade de defender camisas mais pesadas – com as quais nunca teve o mesmo brilho. Entre idas e vindas, ele se vestiu pela última vez de rubro-negro em 2004, quando já não mostrava mais o mesmo ímpeto e logo foi embora. Mas não importava mais. A história já estava escrita.

>>> Veja também: A torcida do Sport manda seu carinho para Leonardo <<<

A decepção da torcida com essa última passagem logo foi esquecida. O que ficou foram os 136 gols marcados que fazem dele o terceiro maior artilheiro da história rubro-negra. Os incontáveis dribles desconcertantes (dizem que Mancuso ainda estava à sua procura). E a memória do jovem magrinho, de 18 anos, que chegou do Piauí desconhecido para, rapidamente, se tornar um dos maiores de todos os tempos para um clube centenário – que, lamentavelmente, não chegou a organizar um jogo de despedida para o seu ídolo. Um pecado que não tem mais volta: ele faleceu na tarde desta terça-feira, aos 41 anos.

Se não foi atleta para ter uma carreira à altura de seu talento, azar do futebol, dos times que não o tiveram e dos que até chegaram a contratá-lo, mas não conseguiram extrair dele todo o seu potencial. Sorte do Sport que, graças a ele, cresceu, em todos os sentidos. E de sua torcida, que teve a divina chance de testemunhar – e, acima de tudo, comemorar – quase todos os momentos de genialidade de Leonardo.

Foto: Divulgação

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.