O inferno vivido em St. James Park

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Foto: NUFC.co.uk | O Newcastle faz um campeonato inglês ridículo

Quem observa os elencos recentes do Newcastle mas não acompanha os jogos dos Magpies pode rapidamente concluir que o time é bom e não tem razão para se preocupar com o descenso, longe disso. A realidade, no entanto, prova o engano desta impressão, uma vez que o clube, nas últimas quatro temporadas, só terminou a Premier League entre os 10 primeiros uma vez e, justamente, em décimo. No que toca aos problemas atuais, algumas razões os justificam.

Zaga desprotegida

Quem analisa as opções de que dispõe Rafa Benítez, técnico recém-chegado ao Newcastle, para o meio-campo e o ataque percebe facilmente que o espanhol não tem do que se queixar. Jogadores de qualidade como Jonjo Shelvey, Moussa Sissoko, Siem de Jong, Henri Saivet, Ayoze Pérez, Andros Townsend e, sobretudo, Georginio Wijnaldum estão à disposição.

Foto: NUFC.co.uk | Coloccini tem tido um trabalho muito duro e constante

Foto: NUFC.co.uk | Coloccini tem tido um trabalho muito duro e constante

No entanto, o mesmo resultado não é encontrado quando passamos à análise do setor defensivo como um todo. O capitão Fabricio Coloccini (que nunca primou pela boa técnica, mas destacava-se pela valentia, a qualidade no jogo aéreo e a imposição física) hoje tem 34 anos e traz as deficiências de seu início de carreira acentuadas pelo avançar de sua idade. Se protegido, ainda tem capacidade para desempenhar bem seu papel, mas, se colocado a todo momento em situações de mano a mano com atacantes rivais, fatalmente falhará, o que tem acontecido.

A situação de Chancel Mbemba, defensor que mais vezes foi parceiro de Coloccini na temporada, não é tão diferente. Embora seja jovem (há controvérsias: sua real data de nascimento é uma questão polêmica) e rápido, o jogador recém-chegou à Premier League e vem tendo algumas dificuldades para se adaptar. Atuando exposto em uma liga que prima pela intensidade, não tem desempenhado seu papel com a qualidade esperada, embora tenha margem para evoluir.

Diante disso, resta o questionamento: o que torna a defesa desprotegida? A ausência de bons meio-campistas à frente da retaguarda.

Foto: NUFC.co.uk | Mbemba ainda não se adaptou à Premier League

Foto: NUFC.co.uk | Mbemba ainda não se adaptou à Premier League

Possivelmente o melhor marcador dentre todos os volantes de que os Magpies dispõem, Cheick Tioté vem sofrendo com lesões, que não só prejudicam o time pela ausência do atleta, como também o impedem de chegar à sua melhor forma, o que, sobretudo em seu caso, é fundamental. Ainda que seja muitas vezes violento, Tioté tem forte marcação e, quando está bem preparado, protege com qualidade a defesa.

As outras peças, Jack Colback e Vurnon Anita, não têm o poder de marcação do marfinense. Colback é útil quando usado para ajudar na saída de bola, mas não prima pela forte marcação; já Anita, bem, este jogador não alcançou o potencial projetado no início de sua carreira e hoje se destaca apenas por conta de sua polivalência. Os outros meio-campistas do elenco do Newcastle têm vocação muito mais ofensiva e características de organização do que de marcação.

Foto: NUFC.co.uk | Tioté não tem mostrado o nível de outras temporadas e sofre com lesões

Foto: NUFC.co.uk | Tioté não tem mostrado o nível de outras temporadas e sofre com lesões

Embora muito se reforce, o Newcastle peca na escolha das posições contempladas nos negócios. É muito injusto colocar a culpa na primeira linha de defesa, que joga exposta demais e sofre para frear os ataques adversários. Não à toa, o Newcastle tem a segunda pior defesa da Premier League, tendo sofrido 54 gols.

É necessário maior combate no meio-campo, e, para isso, faltam peças. Conquanto seja recomendável a contratação de zagueiros de maior qualidade, a necessidade prioritária é um reforço de bom nível para a contenção. O time é o 17º colocado no ranking de “vitórias em duelos”, que considera desarmes, recuperações de bola e jogo aéreo. Isso diz muito sobre como o Newcastle tem sofrido.

Dificuldade na saída de bola

Outra implicação da formação defensiva deficitária do Newcastle se reflete na dificuldade que o time tem de sair jogando. Constantemente pressionada, a defesa dos Magpies rifa muitas bolas e, em grande parte das vezes, o insucesso dos jogadores de talento do meio e do ataque passa pela má qualidade destes passes, facilitando o trabalho das retaguardas rivais. O time muitas vezes tem a posse de bola, mas é uma posse morta, improdutiva, dos zagueiros para os laterais e vice-versa.

Foto: NUFC.co.uk | Desde a saída de Cabaye, o Newcastle sofre na saída e distribuição de bola

Foto: NUFC.co.uk | Desde a saída de Cabaye, o Newcastle sofre na saída e distribuição de bola

Assim, embora tenha bons jogadores para criar jogadas, o Newcastle é apenas o 14º colocado no ranking de chances criadas. O grande espaço existente entre a defesa e o meio-campo dos Magpies facilita muito o trabalho dos adversários, que pressionam a primeira linha de defesa, forçam seu erro ou um passe longo, rapidamente recuperam a pelota e, com rapidez, chegam à meta dos alvinegros de St. James Park. O confronto do clube contra o Chelsea, que terminou em derrota por 5×1, ressaltou com crueldade esse fato. Quando o Newcastle ainda contava com Yohan Cabaye, esse problema praticamente não existia, mas, desde sua ida para o PSG, ninguém conseguiu melhorar a saída de bola do time.

Os laterais também não têm ajudado muito nesse trabalho (e essa foi uma alternativa tentada por Steve McClaren, ex-comandante do time). O uso de três zagueiros, com o objetivo de dar liberdade para os laterais, chegou a ser tentado, mas suas deficiências técnicas impediram o êxito da estratégia. Pela esquerda, não há opção confiável; pela direita, Daryl Janmaat até se apresenta para o jogo com regularidade, mas falha muito nos passes e cruzamentos. Não à toa, é quem mais passa a bola no time, mas com eficiência de apenas 73%, sendo muitos dos toques acertados entre os defensores.

Foto: NUFC.co.uk | Janmaat é opção para saída pelo lado, mas tem cometido muitos erros na hora de passar a bola

Foto: NUFC.co.uk | Janmaat é opção para saída pelo lado, mas tem cometido muitos erros na hora de passar a bola

Assim, a bola não chega com frequência no setor de frente e muitas vezes chega “viva”, ou seja, em disputa, sem as melhores condições para o domínio e a consequente construção de jogadas. É fácil apontar o dedo para os jogadores e chamá-los de adjetivos pouco elogiosos, mas a qualidade na saída é um atributo que diferencia positivamente as equipes, assim como a falta dela, negativamente, neste turno.

Muitas lesões

De mais a mais, o Newcastle tem sofrido muito com lesões. Primeiramente, o clube não tem podido contar com seu bom goleiro titular, Tim Krul, que sofreu lesão nos ligamentos do joelho. Além disso, está, simultaneamente, sem seus dois laterais esquerdos de ofício à disposição, obrigando a tentativa de improvisação do winger e garoto Rolando Aarons, que não foi bem pelo setor, e de Colback, mais habituado, mas também um improviso.

Foto: NUFC.co.uk | Krul tem sido desfalque

Foto: NUFC.co.uk | Krul tem sido desfalque

Outros jogadores que perderam um número considerável de rodadas foram os citados Mbemba e Tioté. Ou seja, além de sofrer com lesões, o Newcastle as vê concentradas no já nada brilhante setor defensivo. Assim, e pelas razões já expostas, torna-se extremamente ingrata a missão de montar a retaguarda dos Magpies.

Muito se diz, em tom jocoso, que o mau momento do Newcastle se deve a uma “maldição” advinda da ingratidão do clube com Jonás Gutiérrez, jogador que sofreu um câncer, recuperou-se, salvou o clube do descenso na última rodada da Premier League de 2014-2015 com um gol e, na sequência, acabou dispensado. No entanto, brincadeiras à parte, está muito clara a falta de planejamento do clube.

Foto: NUFC.co.uk | Mau momento é fruto de "maldição" de Jonás? Parece que não...

Foto: NUFC.co.uk | Mau momento é fruto de “maldição” de Jonás? Parece que não…

Recentemente, o Newcastle chegou a ser rebaixado e, nas últimas temporadas, não vem bem. Mesmo assim, segue fazendo escolhas discutíveis na hora de contratar. O futebol, e, mais que isso, a Premier League, com sua grande competitividade, cobra um preço por isso. A 19ª colocação dos Magpies no Inglês não é obra do acaso.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 25 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no O Futebólogo e na Revista Relvado.