O sonho do Leicester e também de Gary Lineker

  • por Lucas Sartorelli
  • 4 Anos atrás
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Foto: Reprodução

Gary Lineker é um dos maiores jogadores ingleses de todos os tempos. Terceiro maior artilheiro da história da seleção inglesa, carrega no currículo outras diversas conquistas. Lineker começou a carreira no Leicester City, clube de sua cidade natal, realizando sua estreia profissional em 1979. O clube encontrava-se na segunda divisão e, aos poucos, Lineker foi assumindo a condição de líder do time, que conseguiu o acesso. Algum tempo depois, devido ao estrelato, se transferiu para o Everton, mas nunca se esqueceu do clube que o revelou.

Fascinado com a campanha atual do Leicester na Premier League, o ex-astro inglês conta a história sobre sua paixão pelos “Foxes” em uma emocionante carta publicada no jornal no qual trabalha como jornalista esportivo. O texto foi escrito pouco tempo após a vitória dos azuis sobre o Newcastle por 1×0, resultado que fez o clube abrir 5 pontos de vantagem para o Tottenham, segundo colocado na competição e que deu ainda mais motivação a todos os torcedores na busca pelo inédito título.

Confira o relato completo aqui:

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Eu sou Gary Lineker. Disputei duas copas do mundo. Sou o maior artilheiro inglês em mundiais. Joguei e levantei troféu no Barcelona, mas eu nunca quis nada no esporte em toda a minha vida como quero que este time de Claudio Ranieri ganhe a Premier League.

Uma coisa extraordinária está acontecendo no mundo do futebol. Algo que desafia a lógica. Algo verdadeiramente mágico. Quase me sufoca de emoção, porque está acontecendo com meu time. O time para qual torço desde sempre.

Chorei todo o caminho de volta para casa quando tinha 8 anos e vi ao lado de meu pai e de meu avô o Leicester perder a final da Copa da Inglaterra de 1969. Fui campeão da segundona nos 8 anos que joguei no Leicester. Depois, com amigos e torcedores, eu até ajudei a salvar o clube da falência. Mas nada, nada se compara a isso. Essas coisas não acontecem com clubes como o meu.

Após a vitória contra o Newcastle com direito a gol de bicicleta, o Leicester está no topo da Premier League, com 5 pontos de vantagem. Não estamos em setembro, estamos em março e faltam só 8 jogos para o fim.

E este, com uma ou outra contratação, é o mesmo time que há um ano estava em último lugar, condenado ao rebaixamento. Milagrosamente nos salvamos da degola e ficamos tristes com saída do técnico Nigel Pearson. Na época achei Claudio Ranieri uma escolha sem inspiração. O ex-técnico da Grécia perdeu até para as Ilhas Faroe. Admito que critiquei a escolha publicamente. Ah, como eu estava errado. Maravilhosamente errado.

As casas de aposta concordavam comigo. O Leicester era favorito para ser rebaixado nessa temporada. Quem poderia imaginar o que iria suceder? O que estamos testemunhando, se o Leicester realmente for campeão, é talvez o triunfo mais improvável da história do esporte. Um grupo de indivíduos que há um ano não conseguia vencer um jogo de futebol de nenhuma forma virou uma força invencível. Um time com espírito e união que esse jogo raras vezes viu.

Bem, vamos para as verdadeiras razões. Os jogadores que tiveram dificuldades em sua primeira temporada na primeira divisão começaram a se encontrar, incentivados, é claro, pelo clímax impressionante para essa campanha. Jamie Vardy começou a marcar os gols que a velocidade incrível de seu pé e esforço monstruoso prometiam que ele poderia.

Riyad Mahrez, ágil e esbelto, prepara suas mágicas constantemente. A adição do onipresente N’Golo Kanté ao lado de um certeiro Danny Drinkwater forneceu uma dupla de meio-campo inigualável para qualquer um na Premier League nesta temporada. Em outro lugar há uma energia estranha para o time fornecida pelos talentos de Marc Albrighton, Shinji Okazaki e Jeffrey Schlupp.

Kasper Schmeichel tem sido excepcional no gol, além de possuir óbvias qualidades de liderança que ele pode ter herdado. Então, e este é o aspecto mais surpreendente deste time, há um conjunto de defensores eficientes que se juntaram para formar uma zaga e que estão unidos com uma mentalidade de “tu não passarás” que parecia além do alcance deles no início da temporada. Nessa linha de quatro, porém, há experiência e cabeças calmas.

Tudo orquestrado pelo engenhoso, sagaz e inspirado Claudio Ranieri. É difícil entender o incompreensível. Alguns falam de superstições. A realidade é que temos jogadores que descobriram a forma na hora certa. Encorajados cada vez mais pelo sucesso inesperado. Um time perfeitamente organizado e competitivo. Não almeja ter a posse de bola, apenas se aproveita da perda da posse dos rivais, em contra-ataques elétricos e brilhantes. Um time excepcional. Desta vez, se vão até o fim, será que este sonho surreal vai acabar? Voltaremos a miserável realidade? Espero que não. O Leicester está a beira de conquistar a imortalidade esportiva. Mesmo com toda pressão, não demonstra medo.

É absolutamente prazeroso observar a alegria que os meus três meninos torcedores do Leicester estão sentindo. Até o meu mais velho, George, um fã de toda vida do Manchester United (ele sempre foi contra), está entusiasmado com a campanha dos “Foxes”.

Quanto a meu pai, bem, ele recentemente twittou: “Eu esperei mais de 70 anos por isso. Brilhante”. Eu também tenho a sensação de que os fãs de futebol de todo o mundo se sentem da mesma maneira. A pressão vai aumentar a cada semana que passa. Com a expectativa vem o perigo. Eles não têm, no entanto, mostrado nenhum medo, até agora. Nenhum sinal de hesitação sob a magnitude do que eles podem alcançar. Eles estão à beira da imortalidade desportiva.

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Foto: Premier League/Facebook

Não tenha medo, meu time. Conquiste.

Eu sou Gary Lineker. Venci a FA Cup com o Tottenham. Em 1986 me tornei o único inglês a ganhar a chuteira de ouro em uma copa do mundo.

Mas eu nunca quis nada tanto em toda a minha vida no esporte como quero que este Leicester seja campeão.

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Paulistano, projeto de jornalista e absolutamente ligado a tudo o que envolve essa arte chamada futebol, desde a elegante final de uma Copa do Mundo às peculiaridades alternativas das divisões mais obscuras de nosso amado esporte bretão. Frequentador assíduo nas melhores (e piores) várzeas e peladas de fim de semana, sempre à disposição para atuar em qualquer posição.