Obrigado, Johan

  • por Lucas Sousa
  • 3 Anos atrás

cruyff

A imagem acima é o plano de fundo do meu computador. A sua estética me encanta e resume bem o que foi Johan Cruyff: o homem da imponente camisa 14 laranja se destacando em meio a uma composição basicamente preta e branca, sendo ele o responsável por dar cor e beleza à imagem, ao futebol. Foi isso que Cruyff fez. Jogou como poucos dentro do campo e nos ensinou muito fora dele, uma mente privilegiada capaz de influenciar e inspirar gente de todo o mundo nas mais distintas décadas. Capaz de ser o ídolo de um jovem que não o viu jogar ao vivo, mas se encantou com suas ideias que ultrapassam os anos. O homem que foi um dos maiores do esporte dentro e fora das quatro linhas.

Quis o futebol que um dos maiores de todos os tempos não vencesse uma Copa do Mundo. Em 1974, o “carrossel holandês” comandado por Cruyff parou na Alemanha de Beckenbauer, Breitner e Müller. Se os alemães ficaram com o título, aquela Holanda recebeu uma imortalidade jamais vista para um vice-campeão. O futebol já sabia que aquelas camisas laranjas inspirariam uma nova forma de atuar e mudariam o jogo nas próximas décadas. Deixou, portanto, que a dedicação de uma geração brilhante alemã também fosse devidamente reconhecida. A final de 74, apontada como uma das maiores injustiças das Copas, talvez tenha sido extremamente justa ao terminar com a vitória alemã. A conquista daquela Holanda e de seu camisa 14 não foi a taça, mas a revolução na forma de jogar e enxergar o futebol.

Aquela filosofia não morreu na Alemanha, mas encontrou terreno fértil na Catalunha. No Barcelona, Johan colocou em prática tudo o que havia aprendido e pensado sobre o futebol, construindo uma equipe imbatível na Espanha. Seu lema explica muito o sucesso do time catalão nos últimos anos:

“o futebol é um esporte que se joga com a cabeça e em que se utilizam os pés”.

Desde, então essa “filosofia Cruyff” tem sido implantada no clube, partindo do primeiro time de meninos das categorias de base até o estrelado elenco profissional. Cruyff moldou um dos clubes mais vencedores dos últimos anos, o maior do século XXI.

Quando chegou ao Barça, encontrou um grupo com muitos jogadores de vigor físico, mas pouco capazes de fazer aquilo que ele pretendia. Foi então procurar nas categorias de base e descobriu que o melhor deles não jogava por ser franzino demais. Mesmo assim Cruyff apostou no garoto e lhe disse para ser o melhor do mundo naquilo que sabia fazer. O jovem era Pep Guardiola e, nas palavras do treinador holandês, “com a visão de futebol que tinha, foi o melhor volante organizador de jogo que o mundo viu em sua época”. Enquanto esteve no clube, Cruyff fez de Guardiola aquilo que ele era no time de Michels, o regista de uma máquina brilhante. E ali ele passava o bastão para a continuidade de uma ideia de jogo.

“Sou um ex-jogador, ex-dirigente, ex-treinador, ex-presidente honorário. Uma lista bacana que, mais uma vez, mostra que tudo chega a um fim”, disse Cruyff.

Infelizmente, sua vida chegou ao fim. No entanto, permita-me discordar e dizer que nem tudo chega a um fim. Seu legado no futebol permanecerá vivo por muitos e muitos anos. No dia em que o futebol lamenta sua perda, só nos resta um sincero “obrigado”.

Obrigado, Johan, por tudo que fez pelo futebol e por mudar o jogo para sempre.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.