Os são-paulinos não conseguirão moldar Edgardo Bauza

Foto: Rubens Chiri/São Paulo FC - Edgardo Bauza concede coletiva no São Paulo.

Foto: Rubens Chiri/São Paulo FC – Edgardo Bauza concede coletiva no São Paulo.

A relação da comunidade são-paulina com Patón Bauza está longe de ser tranquila. Até agora, com pouco mais de 60 dias de trabalho, a forma de condução do argentino ainda causa muita estranheza em todos no São Paulo, sejam da direção, da torcida ou do elenco. Desses grupos, apenas a direção não poderia estar surpresa, já que partiu dela a decisão de contratar o gringo.

Muitos dos desentendimentos futebolísticos entre Bauza e a comunidade são-paulina estão relacionados às convicções de jogo do treinador e sua forma de lidar com as pressões cotidianas, características que causam um distanciamento que aumenta a cada jogo. O rumo que a recém-iniciada relação toma não é promissor, pelo contrário. É possível projetar que os primeiros meses de Bauza no São Paulo podem ser também os seus últimos.

A difícil relação dos que formam o clube com Patón nos mostra que, no Brasil, ainda não nos acostumamos com o perfil do treinador que realmente pensa o jogo e que carrega consigo convicções sólidas sobre metodologias e jogadores (por mais questionáveis que elas possam ser). O perfil que nos agrada é justamente oposto. Historicamente, tivemos quase sempre treinadores frouxos, capachos, medrosos, boleiros, daqueles que se deixam levar pelas pressões, que topam fazer de tudo para se segurar na cadeira que ocupam. Não estamos acostumados, por exemplo, com um técnico que ouve e ignora as nossas reclamações, pois nossa prepotência é sempre muito extensa quando a temática é bola. Se for gringo, então, nossa! Quem são eles para nos ignorar?

Foto: Rubens Chiri/São Paulo FC - Bauza orienta São Paulo em jogo do Paulista

Foto: Rubens Chiri/São Paulo FC – Bauza orienta São Paulo em jogo do Paulista

Talvez ainda não esteja claro na cabeça dos são-paulinos que Patón não precisa do São Paulo, que ele realmente não tem apego nenhum ao cargo que ocupa e que não vai desistir do que pensa somente para agradar os irritados e talvez ganhar alguns dias mais tranquilos. Os são-paulinos, por mais que tentem, não vão conseguir moldar Edgardo Bauza no alto de seus 58 anos de idade.

Patón é dono de uma personalidade muito forte, pensa o jogo de forma conversadora e nunca fez questão de negar sua essência. Venceu e perdeu sempre fazendo as coisas do seu jeito, e isso o trouxe ao São Paulo, queiramos ou não. Chega a soar ingênua a tentativa de pressionar o argentino para mudar sua forma de pensar o futebol e de aproveitar determinados jogadores do elenco do São Paulo. Bauza não é um iniciante, muito menos um cara flexível. Pressioná-lo é em vão.

Se os amigos me perguntarem se eu concordo com a visão de Bauza sobre as escalações ou características de jogadores como Rogério, Centurion, Wesley e Mena, por exemplo, lhes direi que não, pois a minha forma de enxergar e projetar o jogo é diferente da dele. Não sou conservador, não penso que o equilíbrio seja o norte principal do jogo, nem que as jogadas com utilização de pivô ou linha de fundo sejam a melhor forma de construir uma vitória, mas isso não significa que eu esteja certo e ele errado (nem o contrário). É preciso sempre reforçar que não existem maneiras certas ou erradas de se jogar futebol.

Foto: Érico Leonan/São Paulo FC - Bauza comanda treino no São Paulo

Foto: Érico Leonan/São Paulo FC – Bauza comanda treino no São Paulo

O treinador argentino que hoje trabalha no São Paulo já sabe, sim, quais são as características dos jogadores que tem, pois dois meses é tempo suficiente para isso. Bauza só não é obrigado a interpretar suas peças como nós interpretamos. Se Rogério para ele é um segundo atacante e não um homem para jogar aberto, ele jogará como segundo atacante. Se vê em Wesley um atleta de lado de campo e não um meio-campista pensador, Wesley será um jogador utilizado no lado do campo e assim por diante.

Edgardo Bauza não deve ser tratado de forma diferente por ter outra nacionalidade. Está sujeito a críticas e a ter seus erros apontados, pois eles, de fato, existem. É papel da torcida apoiar e cuidar do clube, mas não é papel dela, nem dos dirigentes, muito menos dos jogadores, impor, de forma velada, a cultura da pressão que por anos vem sendo maléfica ao futebol nacional. A comunidade são-paulina não ganhará a queda de braço dessa vez, pois, como o próprio Bauza disse em uma de suas primeiras entrevistas pós-jogo da temporada: “a proposta de jogo é inegociável”. Patón morrerá com suas convicções, ou vencerá com elas. O São Paulo está disposto a ir até o fim com ele?

Comentários

Jornalista graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e observador de esportes. Apenas acompanhar futebol nunca me foi suficiente, então decidi escrever e estudar sobre o jogo. Admiro a Premier League e o Chelsea, mas eu gosto mesmo é de respirar São Paulo Futebol Clube.