Por que a formação tática não é o mais importante

  • por Lucas Sousa
  • 3 Anos atrás

O futebol é um jogo complexo. Vinte e dois homens correndo atrás de uma bola pode ser uma bagunça generalizada – ou não. Nos primórdios deste esporte, todos na cancha corriam para lá e para cá, sem qualquer tipo de organização. Os anos se passaram, o futebol evoluiu e os jogadores foram melhor divididos no terreno. Surgiram, então, os esquemas táticos, que nos explicam como os onze (ou dez, já que, geralmente, não contamos o goleiro) atletas de um time estão posicionados em campo. E só. A formação tática é só uma estrutura de posicionamento para realizar aquilo que o treinador pretende para sua equipe (e o que realmente importa), o chamado “modelo de jogo”.

Modelo de jogo nada mais é que um conjunto de regras que governam uma equipe. O treinador avalia o elenco que tem em mãos e define o modo como o time irá se comportar. Até que ponto deve recuar para marcar? Marca em zona, por setor ou de forma mista? Quem faz as coberturas e em quais posições? Como deve ser feita a saída de bola? Com passes longos ou curtos? Quais jogadores participam? As respostas para esse tipo de pergunta definem o modelo de jogo. Os melhores treinadores esmiúçam cada detalhe e estabelecem o que seus atletas devem fazer nos momentos ofensivos, defensivos, de transição (ou seja, quando contra-atacam e quando sofrem contra-ataque) e nas bolas paradas.

Leia mais: A Máquina Bávara de Pep Guardiola

Isso fortalece o coletivo e transforma aquele conjunto de jogadores em um time, independente da formação tática. Uma vez que o treinamento é guiado por esse modelo, todos entendem como devem se comportar nas diferentes situações, não importando se é titular ou reserva. O modelo de jogo sólido abraça e valoriza o coletivo, dependendo menos da individualidade do atleta de tirar um coelho da cartola a todo o momento. Além disso, ele potencializa as individualidades ao criar oportunidades para que elas sejam exploradas. É o Barcelona de Luis Enrique: jogo coletivo muito forte e que cria situações favoráveis para o trio MSN a partida toda. Uma construção coletiva para explorar o individual.

Leia mais: A mão de Luis Enrique no melhor Barcelona pós-Guardiola

Para compreender melhor por que o esquema tático não altera a forma de jogar, vamos pensar no Bayern de Munique de Pep Guardiola ou no Chile de Jorge Sampaoli. Ambos trocam a formação tática de seus times a todo momento, mas a forma de jogar não muda. A pressão intensa para recuperar a bola, as trocas de passes e a valorização da posse ainda estão lá, intactas. Isso se deve a um modelo de jogo bem definido e, acima de tudo, bem treinado. Os jogadores executam os movimentos com tanta frequência nos treinamentos que são capazes de fazerem o mesmo quando são organizados de outra forma. O contrário também existe: o Atlético de Madrid de Diego Simeone e o Chelsea de José Mourinho foram campeões nacionais sem modificar bruscamente o esquema tático. O modelo deles é pior? Não, só apresentam propostas diferentes.

Leia mais: As ideias de Sampaoli, uma lição para o Brasil

Aqui no Brasil vemos equipes que têm passado por dificuldades na implantação de um modelo de jogo consistente. O Palmeiras foi um belo exemplo

MARCELO OLIVEIRA PB

Desde que chegou ao clube, o bicampeão Marcelo Oliveira enfrentou obstáculos para fazer o time jogar bem. Mesmo com diversos jogadores técnicos no elenco, o Verdão de Oliveira abusava das ligações diretas na saída de bola, entregava a posse ao adversário e não conseguia propor o jogo. Não faltam atletas para fazer esse time jogar, faltam ideias. Faltou, por exemplo, aproximação dos meias para criar opções de passe e progredir no campo aos poucos, com a bola dominada. Tanto que Marcelo Oliveira abriu mão do 4-2-3-1 e apostou no 4-4-2 em losango nos seus últimos jogos e os problemas (como os chutões) continuaram lá. Ao longo de nove meses, Marcelo não conseguiu apresentar uma equipe bem treinada e com ideias concretas de futebol. Seu sucessor vai encontrar um elenco qualificado, mas com uma base muito pequena para construir sobre.

;

Por outro lado, o Corinthians de Tite perdeu seus principais jogadores e continua vencendo. Por quê? Porque as ideias do jogo corintiano são bem compreendidas e treinadas. Os reservas, mesmo jogando pouco e não possuindo o nível técnico dos titulares, sabem como devem jogar. Então, quando um jogador importante sai, a perda não é tão grande, já que a equipe não depende tanto das individualidades.

O histórico 6 a 1 frente ao São Paulo é símbolo de um time que possui conceitos estabelecidos e bem treinados. Mesmo com os reservas, o Timão atuou da mesma maneira e não deixou o nível cair. Jogador por jogador, a disparidade entre os rivais não é do tamanho do resultado (talvez o Tricolor fosse até melhor), mas um jogava coletivamente e sabia exatamente o que deveria fazer, o outro não.

Leia mais: O competente e organizado Corinthians de Tite

Os esquemas táticos são importantes na distribuição da equipe no gramado, mas recebem um valor exagerado. Não basta simplesmente armar a equipe no 4-3-3 para que ela jogue bonito como o Barcelona, ou no 4-1-4-1 e para que seja consistente como o time de Tite. Os times vencedores alcançam esse patamar pelas ideias bem pensadas, treinadas e executadas, não pelas suas formações táticas. Ao invés de pedirmos “variação tática” ao treinador, deveríamos cobrar conceitos de jogo mais sólidos e definidos, valorizando as características dos jogadores.

PEPENSADOR

Em uma conversa sobre formações táticas, Pep Guardiola deixou clara a importância que ele dá aos esquemas: “eles são só números de telefone”. Talvez tenhamos alguma coisa a aprender com ele.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.