Rakitic, Arda e a dificuldade de ser um meio-campista culé

  • por Victor Mendes Xavier
  • 4 Anos atrás

Ao longo da temporada, pudemos perceber que o Barcelona de 2015/2016 mudou. Se o ano 1 de Luis Enrique ficou marcado pela renúncia ao Jogo de Posição que baliza o estilo culé, resultando em pouco controle a partir da posse e em maior agressividade e verticalidade, o ano 2 tem sido diferente. Desde a estreia, em agosto, Lucho já acenava para a possibilidade de um jogo mais posicional, com maior ordem e controle. Dito e feito. O Barcelona não joga como nos tempos de Guardiola, mas é mais visível a conquista de peso do meio-campo. Na temporada passada, o trivote formado por Busquets, Rakitic e Iniesta trabalhava única e exclusivamente para municiar e facilitar a vida de Messi, Suárez e Neymar. Hoje, o centro do gramado voltou a fazer parte do coração barcelonista.

Isso explica o porquê das fantásticas temporadas de Busquets e Iniesta, que vivem, quem sabe, os melhores anos de suas vidas. O Barcelona já não tem mais a “obrigação” de mover com rapidez a bola a qualquer custo quando inicia uma transição. A equipe voltou a trocar mais passes horizontais, com menor ritmo, sob a batuta de Sergio e, principalmente, de um global Andrés. O camisa 8 se veste de Xavi a cada partida, mostrando presença, confiança e, sobretudo, uma regularidade exemplar. É bom mencionar que Messi tem sido cada vez mais meio-campista, mas não dá para afirmar com tanta convicção se isso foi o motivo mais forte para Luis Enrique encarregar uma maior participação à medular.

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Lionel sempre será o centro das atenções no Camp Nou, e esse seu recuo torna a posição de interior direito um pouco mais “peculiar”. Conviver com essa figura sagrada requer muito mais exigência e uma maior concentração e responsabilidade. Ivan Rakitic cumpre o papel com uma elogiável disciplina. Primeiramente, o croata não é Xavi, portanto criar linhas de passes não é sua responsabilidade, muito menos gerir o jogo catalão. Ainda que o atual Barça jogue mais a partir do meio-campo, o camisa 4 continua cumprindo a mesma função do ano passado: ajustando-se aos movimentos de Messi e protegendo as costas de Daniel Alves. Defensivamente, Rakitic se dobra na lateral direita, já que o argentino raramente volta para marcar e o baiano passa a maior parte do tempo no campo de ataque.

Diante desse novo cenário, onde entraria Arda Turan? O turco, como já explicamos, é excelente, mas imperfeito. Tem defeitos, muitos deles nítidos. Um deles é a incapacidade de fazer seu futebol aparecer quando sua equipe não está em um bom dia. Para exemplificar, analisemos o primeiro tempo de Barcelona 2×1 Sevilla desse domingo.

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Os andaluzes foram ao Camp Nou com a intenção de adiantar suas linhas. Quando planejou a partida, Unai Emery provavelmente não sabia que Luis Enrique facilitaria sua vida poupando dois membros do meio-campo. Em vez de Rakitic e Iniesta, iniciaram Sergi Roberto e Arda Turan. Iborra fez um trabalho específico na zona de Busquets, que ficou sobrecarregado e clamou pela ajuda de seus companheiros. Nulos, os interiores não ajudaram em nada nas tarefas criativas. Mas o mais preocupante foi Arda, que, de fato, sumiu. A solução (eterna) de Luis Enrique foi Messi. O técnico decidiu recuar Alba, abrir Sergi e Arda e deixar o meio livre para o argentino. Bingo.

É essa falta de aptidão que torna difícil a vida de um centro-campista no Barcelona. Em grandes noites, é difícil de imaginar Rakitic na reserva: hoje, o croata está muito adaptado ao seu serviço na Catalunha. E engana-se quem pensa que isso aconteceu somente por ser compatível a Messi e Daniel Alves. Rakitic também oferece ao Barça maior solidez na saída de bola. Prova disso foi a bagunça no primeiro tempo da vitória contra o Málaga há um mês. O pressing blanquiazul destroçou Vermaelen, Mascherano e Arda, e só a entrada de Rakitic, no segundo tempo, foi capaz de corrigir esse pesadelo, pela habilidade em lançamentos que quebram linhas.

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Para Arda, a dificuldade é maior ainda porque seu ex-time, o Atlético de Madrid, é diametralmente oposto ao atual. Ou seja: tudo que Luis Enrique pede é, na cabeça do turco, novo. Arda nunca foi constante e, até por isso, quando foi contratado pelos azulgrenás, imaginávamos que ele seria uma peça de retenção de bola, papel que cumpriu o último Xavi no Barça da Tríplice Coroa de 2015. Agora, com esse maior protagonismo dos meios-campistas, o turco é obrigado a estar ligado os 90 minutos. Não à toa, sofre quando joga de interior direito e tem maior responsabilidade em receber a bola de um dos zagueiros e levar ao campo de ataque.

Defensivamente, por que Arda era essencial ao Atlético de Madrid e não aporta nada de diferente no Barcelona? Simples: no Atléti, Arda era importante porque só tinha que correr, nada mais. Perseguia o lateral, dava combate ao volante, ficava no mano a mano com o meia. Trabalho duro, mas “simples”. Já no Barcelona, sua função é mais específica. Trata-se de ter senso de posicionamento, de saber lidar com o que passa em suas costas, de ter timing para colocação. O que explica muito o fato de Mascherano nunca sequer ter ameaçado a vaga de Busquets, que reúne todas essas características de forma brilhante, como volante.

Arda Turan está em seu segundo mês como barcelonista. Rakitic vai para seu segundo ano, teve tempo para adaptação. O turco necessita disso e talvez mostre sua melhor forma a partir da próxima temporada. Porém, para competir nos dias mais exigentes, Luis Enrique precisa mais do croata. E sabe disso. Com a Liga quase sentenciada, os jogos que faltam podem servir para dar mais confiança (e minutos) para acomodar Turan ao jeito de jogar barcelonista.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.