Rayo Vallecano e a dignidade no futebol

  • por Jessica Miranda
  • 3 Anos atrás

O que torna o futebol uma das experiências mais incríveis da vida? Como um fenômeno antropológico e sociológico, eu poderia discorrer sobre as características que o transformam nesse espelho da sociedade. Neste texto, no entanto, gostaria de focar em um único aspecto: dignidade dos torcedores. E quando se pensa sobre este olhar, não há como não comentar sobre o Rayo Vallecano.

A cinco dias do Natal de 2015 o mundo do futebol se agitou. Numa partida de uma liga de ponta, uma equipe marcou gols o suficiente para dar dois dígitos. Real Madrid, dez. Rayo Vallecano, dois. Por óbvio, nenhum torcedor ficou feliz com a derrota, ainda mais da forma com que se deu, após estarem vencendo por 2-1, mas tão só a presença do time na primeira divisão já é um símbolo de resistência.

É complicado ser uma força nanica na mesma cidade que o poderoso Real Madrid, ainda mais quando os moradores do Barrio Obrero se opuseram abertamente à ditadura do General Franco, sendo o estádio do Rayo usado até para manifestações. Com 300 mil habitantes, Valleca continua sendo um pequeno bairro de origem operária que tem a honra de contar com um time de futebol. Cientes do árduo cotidiano e da importância social da equipe, os Bukaneiros, ultras do Rayo, tentam compensar as dificuldades com as suas políticas anti-fascistas. As ações do grupo, que foi formado a partir da união de sete amigos na temporada de 1991/1992, podem ser vistas neste vídeo:

As boas iniciativas não partem apenas dos torcedores. Ano passado, no lançamento dos novos mantos de jogo, o Rayo Vallecano chamou a atenção do mundo todo ao estampar um arco-íris no segundo uniforme. Cada cor representa uma causa apoiada e defendida pelo clube, a saber, respectivamente: luta contra a AIDS, contra o preconceito com pessoas de necessidades especiais, contra a depressão, contra os danos ao meio ambiente, contra a violência infantil, contra a violência de gênero e contra a homofobia. Além disso, a terceira camisa ainda estampa uma grande faixa rosa, de apoio às vítimas de câncer. Toda essa iniciativa faz parte da companha denominada “Heróis anônimos”, já que parte da venda das peças é revertida às causas sociais.

O campeonato espanhol teve seu início em 1949, mas foi apenas em 1977 que a futura Liga das Estrelas pode finalmente contar o clube de Vallecas, que possui muito mais participações na segunda divisão do que no futebol de elite. Porém, desde 2011-12 o time da gata borralheira que nunca virará Cinderela se mantém firme em La Liga. Este recorde em sua história passa pela enorme contribuição do volante Trashorras. Roberto, formado nas categorias de base do Barcelona, finalmente achou um lar após rodar pela Espanha.

A história entre Rayo e Barcelona não passa apenas pela presença de Trashorras. Na derrota por 5-1 em casa, o Rayo proporcionou a conquista de um novo recorde para o time de Luís Henrique: 35 jogos de invencibilidade. Porém, cabe-se ressaltar que, também em casa, o Rayo foi responsável por quebrar uma marca culé, já que depois de 316 jogos o Barcelona terminou um jogo com menos posse de bola do que o seu adversário. Os 51% ante ao esquadrão mundial, em setembro de 2013, se deve totalmente ao treinador Paco Jémez, que comanda o nanico de Madrid desde 2012.

Paco, como a maioria dos treinadores, foi um jogador de futebol. O ex-zagueiro chegou inclusive a defender o próprio Rayo, mas foi no Real Zaragoza que obteve suas melhores performances, inclusive sendo chamado para defender a Espanha na Euro 2000. O sobrenome de Paco poderia também ser Franco pois ele sabe que conta com um dos piores elencos da primeira divisão, senão o pior, e mesmo assim manda o time partir para cima dos adversários, à la o folclórico Zeman, como um franco atirador. Ao mesmo tempo, instrui seus jogadores a manter a posse de bola, baseado no esquema pop 4-2-3-1, e, não à toa, na última temporada da La Liga, o Rayo teve o terceiro maior percentual total de posse, justamente atrás apenas daqueles dois times que você conhece muito bem, o do Batman e o do Superman.

Se você é de Vallecas, você é do Rayo. Na alegria e tristeza, na saúde e na doença… Exatamente por conta dessa conexão umbilical entre a população e o time, que os jogadores se organizaram para ajudar financeiramente uma moradora de Vallecas de 85 anos que estava prestes a ser despejada. A Dona Carmen decidiu aceitar o dinheiro para somente quitar as suas dívidas e não perder o lar. Como só poderia passar seus últimos anos de vida em paz se também ajudasse o próximo, ela doou o excedente aos filhos do ex-jogador Wilfred Agbonavbare, para que eles pudessem viajar até a Espanha e acompanhar o tratamento do pai, vítima de câncer. Wilfred, por sinal, é até hoje o goleiro com mais partidas pelo Rayo na primeira divisão (76 ao todo). Infelizmente o seu tratamento não foi o suficiente para vencer a doença e aos 48 anos ele veio a falecer. A homenagem ao arqueiro, no entanto, não ficou apenas na faixa em campo: o portão 1 do Vallecas Campo de Futebol agora tem o nome do nigeriano.

No entanto, nem tudo são flores. Mostrar as suas convicções com o lançamento dos novos uniformes é, sim, uma bela iniciativa, ainda mais em tempos de posicionamentos pasteurizados mundo à fora, mas alguns torcedores viram o ato como superficial por partir do clube. Mas o motivo principal para a inquietação da torcida é a criação de uma franquia nos EUA, o Rayo OAK, que irá estrear na NASL já no próximo dia 02. Vallecas não é o que é por conta do Rayo, é justamente o contrário.

Por que investir no mercado americano justamente quando o clube já passa por dificuldades financeiras?

Por fim, para ver mais sobre o time e suas tradições, eu sugiro assistir a este mini documentário do Copa90, que foi à Espanha gravar:

 

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Uma versão petit da mistura entre Romário e Cantona que se mete a escrever de vez em quando.