Urso ou Donizete? O dilema de Aguirre

Foto: Bruno Cantini/CAM | Nos últimos jogos, Aguirre tem escalado Júnior Urso

Foto: Bruno Cantini/CAM | Nos últimos jogos, Aguirre tem escalado Júnior Urso

Com pouco mais de 1/4 do ano transcorrido, época em que o futebol ainda não registra grandes emoções em terreno brasileiro, o Atlético Mineiro já vive uma realidade em que o time, ao menos na escalação, parece próximo do ideal. Na zaga, Frickson Erazo ganhou vaga definitiva ao lado de Leonardo Silva, nas laterais Marcos Rocha e Douglas Santos seguem soberanos, assim como Luan, Lucas Pratto, Victor (embora lesionado) e Rafael Carioca, no restante das posições.

Há pequenas dúvidas na criação, que serão solucionadas conforme o desempenho dos atletas (Robinho, Clayton, Juan Cazares e Jesús Dátolo disputam duas vagas). No entanto, um dilema conceitual parece permear o íntimo do uruguaio Diego Aguirre: a contenção.

Desde 2012, quando, ao lado de Pierre, formou uma das mais amadas duplas de volantes da história do Atlético, Leandro Donizete era titular. Nesse interregno, houve períodos de dificuldades, sobretudo com lesões, mas, essencialmente, o volante sempre foi titular.

Para o torcedor, havia pouca dúvida de que essa situação persistiria em 2016, com a manutenção do duo Carioca-Donizete. No entanto, a chegada e rápida adaptação de Júnior Urso criou um “fato novo” no Galo, uma dúvida que não se limita ao desempenho dos envolvidos e que, nos últimos jogos, relegou o camisa 8 alvinegro à reserva.

O que Júnior Urso oferece?

Foto: Bruno Cantini/CAM | Urso estava no futebol chinês

Foto: Bruno Cantini/CAM | Urso estava no futebol chinês

Fundamentalmente, Júnior Urso agrega mais movimentação à meia-cancha atleticana e, por mais que seu passe não tenha particular distinção, fluidez à equipe. Com condicionamento físico que tem chamado atenção, o ex-jogador do Coritiba tem mostrado que seu ex-treinador no futebol chinês, o ex-alvinegro Cuca, tinha razão ao revelar que o atleta havia evoluído tecnicamente.

“É um jogador que tem muita força, faz o segundo volante, tem uma boa condição técnica e lá no Shandong ele evoluiu muito a condição de chegar na frente para arrematar, para fazer o gol”, revelou Cuca ao GloboEsporte.com.

Na comparação com Leandro Donizete, é uma realidade o fato de que Urso participa mais das jogadas ofensivas do time. Além disso, por ser alto, 1,82m, é mais uma importante figura na famosa bola aérea do Galo, que tantas vezes, sobretudo com Leonardo Silva, encontrou as redes adversárias.

Foto: Bruno Cantini/CAM | Urso se adaptou rapidamente ao Atlético

Foto: Bruno Cantini/CAM | Urso se adaptou rapidamente ao Atlético

Ademais, o atleta tem ajudado na feitura de uma marcação um pouco mais alta, destruindo as jogadas adversárias mais rápido, o que estatisticamente o coloca em superioridade em relação a seu competidor. No Campeonato Mineiro, enquanto Donizete fez cinco desarmes, Urso conseguiu 12, tendo disputado um jogo a mais. Na Libertadores, ambos desarmaram seis vezes e o novo contratado tem uma assistência na vitória alvinegra ante o Colo-Colo.

No percentual de acerto de passes dos dois há empate técnico. No Mineiro, Donizete tem 94,6% de aproveitamento, enquanto Urso tem 95,7%. Na Libertadores, os índices caem, mas seguem muito semelhantes com 90,9% para Leandro e 90,6% para Urso.

O que Leandro Donizete oferece?

Foto: Bruno Cantini/CAM | Donizete é ídolo

Foto: Bruno Cantini/CAM | Donizete é ídolo

Ídolo do torcedor atleticano, Leandro Donizete já está perto dos 34 anos, o que ainda não tem se refletido no futebol, mas é algo a ser considerado para o longo prazo. Todavia, como revelou seu agente “não é jogador para ficar no banco (…), não gosta de ficar no banco nem em pelada de fim de ano” e diante de sua aparente perda de posição, já vem sendo cortejado por um cambaleante Palmeiras.

“Foi uma opção tática [a troca de Donizete por Urso], como tantas outras. Foi uma decisão que achávamos a melhor”, disse Aguirre ao Superesportes.

Em contraposição a Júnior Urso, o “General”, como vem sendo aclamado pela torcida do Galo, mostra um futebol muito mais aguerrido e, embora algumas vezes “passe do ponto”, cometendo faltas mais duras do que o necessário, em outros turnos transmite sua pulsação para o restante dos jogadores e impulsiona o desempenho coletivo do Atlético. Essa é a principal razão pela qual durante todos estes anos superou uma inicial desconfiança e se tornou ídolo.

Foto: Bruno Cantini/CAM | Donizete despertou interesse do Palmeiras

Foto: Bruno Cantini/CAM | Donizete despertou interesse do Palmeiras

Falando em termos de estilo, Donizete evolui bem menos no terreno ofensivo, embora tenha mais inclinação ao passe mais longo, atributo em que demonstrou muita evolução nos últimos anos. Tal afirmação é ratificada pela estatística de lançamentos, tanto no Campeonato Mineiro quanto na Copa Libertadores. Na competição continental, tem três lançamentos acertados, contra nenhum de Urso; na estadual oito contra cinco. Todavia, na atual estrutura do time, com a presença de Rafael Carioca, volante perito no passe, esse atributo ganha pouco relevo e talvez isso também coloque Urso em vantagem.

Com Donizete a estrutura do meio-campo do Atlético fica mais sólida e menos exposta às investidas adversárias, mas, parece que na análise de Aguirre, também mais engessada, já que mesmo possuindo muita técnica Rafael Carioca atua em função mais interior.

Foto: Reprodução/Footstats | Comparação mostra a grande diferença de posicionamento entre Urso e Donizete

Foto: Reprodução/Footstats | Comparação mostra a grande diferença de posicionamento entre Urso e Donizete

Embora Donizete e Júnior Urso tenham características distintas, com a presença de Carioca, estas não se acomodam juntas.

Para qualquer treinador deve ser extremamente gratificante contar com peças que revelam bom nível e diferentes predicados em uma mesma posição. A questão é a forma como isso será gerenciado. Relegar um jogador que, a despeito da experiência, ainda mostra qualidade e é titular há quatro anos à reserva não é fácil.

Para o torcedor, no entanto, é bom ver que seu time possui peças diferentes e que se suprem com competência. Com isso, voltamos à velha questão da “dor de cabeça boa” com a qual Diego Aguirre tem que lidar.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.