A queda de um gigante

Nos arredores de Birmingham não se fala em outra coisa a não ser a pífia campanha do maior clube local, o Aston Villa. A tristeza que permeia o ambiente é notada há quilômetros de distância do Villa Park, que vem sendo palco de um verdadeiro circo dos horrores. A lastimável campanha dos Villans no campeonato nacional tem retirado grande parte da estima e da felicidade não só daqueles que são apaixonados pelo clube, mas também de todos os amantes do futebol inglês.

Amargando a lanterna da liga inglesa, com míseros 16 pontos em 32 rodadas (até a publicação desta matéria), nem mesmo o mais lunático dos adeptos é capaz de crer que ainda há salvação. É um capítulo cruel para a história desse que é um dos maiores clubes da Terra da Rainha. Sem o Villa, a Premier League perde um pouco da sua história. Afinal, em sete ocasiões o time sagrou-se vencedor do campeonato. Além disto, são sete copas da Inglaterra e uma Champions League na prateleira. Estamos falando de um clube com história e grandeza, um dos mais representativos do futebol inglês.

Infelizmente, o nosso querido Aston Villa caiu em um intenso processo de apequenamento e as perspectivas para o futuro não são nada animadoras . A temporada é tão macabra que o tradicional clube corre o risco de terminar a atual edição da EPL com um dos cinco piores desempenhos da história da liga.

Como um clube tão grandioso em meio à ascensão da liga nacional está vivendo dias tão difíceis? Buscamos na sequência encadear a série de fatos que culminaram no desastre que é o atual cenário no Villa Park:

Tudo se inicia na parte administrativa do clube, onde reina o caos. O presidente Randy Lerner pode ser um milionário, playboy e filantropo, mas está longe de ser um gênio, como o Homem de Ferro. Entenderam a referência? Enfim, definitivamente, ele não sabe como gerir um clube. Lerner é dono do Cleveland Browns, da NFL, onde também não conseguiu conquistar nada além de ódio dos torcedores.

https://www.youtube.com/watch?v=FZ8w3lo9QLo

Na goleada sofrida diante do Chelsea, a torcida deixou isso bem claro:

“Orgulho da história, qual futuro?”

Essa foi a tônica. Os adeptos ofendiam toda árvore genealógica do presidente. Essa história de americanos destruindo clubes e sendo odiados na Terra da Rainha não é novidade. O exemplo máximo disso vem de Manchester, onde os torcedores do United fariam de tudo para ver os atuais donos sendo chutados para fora de Old Trafford. Os Glazzers não gozam de prestígio algum e fazem um trabalho comercial incrível, porém no aspecto futebol, é só vergonha.

Voltando ao assunto central, dentro de campo, o Aston Villa é reflexo da má administração e falta de ambição dos gerentes. O treinador recém demitido Remi Garde, por mais que tentasse se reciclar durante a temporada, não conseguiu dar um padrão de jogo ou dignificar o time. Ao chegar à Inglaterra, em novembro de 2015, vindo do Lyon, o treinador tinha no curriculum o título da Copa da França e chegava para dar um sopro de vida ao Villa, que sob o comando de Tim Sherwood, fez uma temporada anterior de muitos baixos e poucos altos. Porém, com Garde, basicamente foram só baixos.

A última vez que se viu uma temporada digna dos Lions foi em 2009-10, sob o comando do experiente Martin O’Neill, atual treinador da belíssima seleção irlandesa. De lá para cá, foi uma temporada mais sofrida que a outra, salvando-se apenas o vice-título da FA Cup em 2015. Para não ser tão injusto com Garde, precisamos ressaltar que o clube “fez o favor” de se livrar das suas principais referências. Isso mesmo. A temporada 2014-15 foi ruim, porém, as poucas coisas boas ocorridas foram jogadas ao vento! Conforme brilhantemente ressaltado em um texto aqui no DPF, de autoria do Wladimir De Castro Rodrigues Dias.

>> Leia mais: O mal planejado ano do Aston Villa <<

Dentre os erros de planejamentos, os que mais comprometeram foram as vendas dos melhores jogadores do time, iniciando pelo artilheiro Christian Benteke , que foi vendido ao Liverpool por incríveis cifras de 30 milhões de libras. Ainda que tivesse sofrendo bastante com lesões, o belga era a grande referência ofensiva do clube e agregava muito com sua experiência. No Liverpool, pode ainda não ter correspondido ao investimento, porém, no Villa, Benteke era rei. Tanto que conseguira o feito incrível de marcar 11 gols nas últimas 11 rodadas da Premier League, fator determinante para salvar o clube do iminente rebaixamento.

Benteke era mais que um simples goleador, era parte considerável do espírito do time. Com ele em campo, confiança e qualidade sobejavam. Atuando centralizado, fazendo bem o pivô com o auxílio de rápidos “wingers” pelos flancos e finalizando com precisão, seja com chutes ou cabeçadas potentes, o fato é que o time jogava por ele e ele pelo time.

https://www.youtube.com/watch?v=vt9DYMBVkMg

Como se não bastasse perder o grande goleador, o Villa ainda vendeu o capitão e grande “motorzinho” do time para o Manchester City. Fabian Delph era um dos poucos a se salvar em meio à pífia campanha do clube. Um jogador extremamente rápido e incisivo, que se destaca pela polivalência e vigor físico. Inclusive, suas atuações lhe renderam convocações para a seleção inglesa, na qual Roy Hodgson o via como peça fundamental no combate, na transição com bola ao chão e principalmente para aparecer como elemento surpresa nos contragolpes. Delph foi sem dúvidas o jogador mais importante para que o clube conseguisse chegar à final da FA Cup.

Outro dispensado foi o xerife Ron Vlaar. De fato, Vlaar não teve atuações tão incríveis quanto na copa de 2014, sob o comando de Van Gaal, na surpreendente seleção holandesa. Porém, o zagueiro tinha muito a oferecer ao frágil sistema defensivo que se vê no Villa Park. A dispensa ocorrera por motivos não muito compreendidos, talvez para reduzir a folha salarial.

Com boas atuações na temporada passada, o meio campista Tom Cleverley, emprestado pelo Manchester United à época, é outro que pode ter sua saída lamentada. Cleverley era visto por Ferguson como sucessor natural de Paul Scholes, convenhamos que não foi 10% disso e não deixou saudades em Old Trafford, porém, o meia é dotado de recurso e tem boa qualidade técnica, e parecia bem ambientado aos Lions. Clevs ficaria sem contrato ao fim da temporada, a direção do Aston Villa cochilou e ele acabou assinando a custo zero com o Everton. Mancada!

Dos grandes jogadores, restou apenas Gabriel Agbonlahor, que se acostumou a ser sempre o remanescente em Villa Park. Está no clube desde 2005 e só vestiu outras camisas pois teve que ser emprestado, no início da carreira, para Watford e Sheffield Wednesdey.

https://www.youtube.com/watch?v=FE4jsmy6KjI

Apesar de estar com dinheiro em caixa, o Aston Villa definitivamente contratou extremamente mal. Para compor a defesa, dois jogadores de idade avançada e em fim de carreira: Micah Richards e Lescott, ambos ex-Manchester City. Por mais promissores que fossem, Jordan Amavi, francês de 23 anos, Adama Traoré, que era considerado joia do Barcelona, e Jordan Ayew, que custou quase 9 milhões de libras, continuam sendo incógnitas e não justificaram o preço investido. Outras contratações mal planejadas foram as de Gestede, Veretout, Tiago Llori e Hellenius, jogadores de baixíssima produção.

Quando se vende os melhores jogadores e se repõe com “qualquer um”, o fracasso é a consequência lógica. No fim das contas, o preço a ser pago por ter apostado tanto, sem um mínimo de planejamento, é o iminente rebaixamento na disputada liga inglesa. Algo que custará caro para o tradicional clube de Birmingham, que como um pecador em mártir, agoniza em seus instantes finais no purgatório que tem sido os últimos meses. O cenário é lúgubre e cruel.

Matematicamente ainda existem chances, mas o futebol jamais se resume à orbita das ciências exatas. O rebaixamento do gigante inglês é praticamente inevitável.

Enquanto isso, sofre o torcedor e sofre o amante do esporte que vê no tradicionalismo a melhor receita para a cura do modismo e de um futebol cada dia mais pautado no capitalismo e na gestão de empresas privadas. A queda do Villa simboliza uma página negativa na história do futebol e sela o quão importante é ter planejamento, estrutura e comprometimento gerencial em meio à modernidade.

A lúgubre penúria incensante

Naquele instante
Uma lágrima dos meus olhos escorreu
Nada no mundo era mais importante
E o desespero me bateu
Ao saber que a grande batalha você perdeu.

Meus batimentos a mil por hora
E eu me perguntava, o que faço agora?
Na minha mente, toda sua história
Onde me recordava os seus dias de glória
Algo que jamais me sairá da memória.

Ó grandioso Aston Villa,
Clube de estupenda tradição
É triste lhe ver assim, sem reação
É algo que me parte o coração

Saber que a Championship será teu novo lar
Me faz repensar
Mas ao mesmo tempo afirmar
Que ali não é lugar
Para um gigante como você ficar.

Nesses singelos versos
Lhe estimo um rápido retorno
Que saia das mãos desses donos perversos
E encante o mundo de novo
Pois é isso que anseia teu povo

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Filipy é um jovem advogado do interior de Pernambuco. Católico por amor e convicção, tem 23 anos, vive e respira futebol, inclusive, já furou encontro com a própria namorada para jogar descalço nos sórdidos gramados sertanejos. É no esporte bretão que ele encontra o seu maior refúgio nas tardes negras de sábado. (Colunista - Manchester United Brasil)