A volta por cima do Botafogo

  • por Lucas Martins
  • 2 Anos atrás

Quando o Botafogo foi rebaixado para a Série B do Brasileirão, em 2014, o clube vivia um momento administrativo varzeano. Após uma série de decisões inconsequentes, a conta chegou a General Severiano e um time limitadíssimo amargou a 19ª posição.

Obrigada a recomeçar da 2ª divisão, já com o presidente Carlos Eduardo Pereira, a agremiação sanou o que foi possível para pisar outra vez na elite – o acesso veio com três rodadas de antecedência. Entretanto, como esperado, outra revolução acontece no início deste ano. Para a sorte do botafoguense, ao menos em campo as coisas estão mais tranquilas.

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Foto: Botafogo.com.br

O meio-campo que marca e joga

Da pré-temporada até aqui, o Botafogo tratou de consolidar uma face a partir do zero, até porque as peças disponíveis foram mudando lentamente. Na atual conjuntara, diferentemente dos primeiros instantes, Ricardo Gomes alcançou um meio-campo que consegue unir dois pontos importantes: marca e joga. Bruno Silva, Airton, Rodrigo Lindoso e Gegê – os meias do clássico 4-4-2 carioca – são capazes de aliar entrega e coordenação defensiva sem perder qualidade com a bola dominada.

O quarteto é quem dita o ritmo alvinegro, seja desarmando para contra-atacar de forma rápida, segurando a pelota para ganhar terreno e avançar com tranquilidade ou achando passes que quebrem a contenção rival. Um bom exemplo disso é Airton, um volante puramente defensivo até este ano, quando também virou um gerador de jogadas. São 378 passes certos no Cariocão 2016, o terceiro melhor botafoguense no quesito; atrás de Lindoso, seu companheiro à frente da defesa.

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A dupla também lidera as inversões de jogo corretas e, somada a Bruno Silva, tem quase 60 desarmes no Estadual. Essa trinca é a grande responsável por iniciar a saída de bola, com Bruno recuando pela direita, Airton rodando a fim de dar opção e Rodrigo abrindo algo à esquerda – Gegê, ponta pela canhota, em geral centraliza próximo aos atacantes para aproveitar algum buraco por ali, ser alternativa. Uma mecânica padronizada, mesmo que ainda lenta e até previsível em ocasiões.

O treinador Ricardo Gomes vem exaltando bastante a questão dos automatismos alvinegros, inclusive. Na fase defensiva, apesar dos bons números (são sete gols sofridos em 13 partidas), as linhas de marcação ainda oscilam um tanto. Às vezes estão orientadas por zona, mais preocupadas em guardar o espaço, mas em outros pontos já focam individualmente no oponente e tendem a deixar certas lacunas.

Tal variação ocorre até dentro dos jogos, porém geralmente a primeira acontece nos clássicos – por ser mais conservadora e exigir atenção maior – e a segunda nos duelos restantes, priorizando a pressão para oprimir os times menores. Por enquanto, isso é suficiente.

A resposta dos garotos

Das crises costumam surgir novas soluções, e pensando assim o Botafogo arrisca nos garotos. O caso emblemático é o de Ribamar, jovem de 18 anos que subiu ao profissional única e exclusivamente pela falta de opções. Todavia, o atacante conquistou uma vaga entre os titulares, já marcou duas vezes e virou peça vital no modelo de futebol botafoguense.

Forte fisicamente, Ribamar dá a sua contribuição sem a bola, puxa contragolpes, oferece mobilidade, vai ao choque com os defensores, etc. Luís Henrique, por ora menos badalado, é outro jovem do setor ofensivo. Também aos 18, o capixaba permanece como um projeto interessante de camisa 9, uma carta na manga de Ricardo.

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Organização defensiva do Botafogo | Clique e amplie | Imagem original: Rede Globo

Diogo Barbosa (23) ganhou a lateral-esquerda carioca, isso depois de rodar o Brasil inteiro. O ala se mostra uma válvula de escape válida, levando a redonda à frente ou aparecendo como surpresa perto da área oponente. É quem mais acerta passes no time e o terceiro em assistências para finalizações, mas em contrapartida erra vários cruzamentos.

No miolo de zaga, Emerson destaca-se pela potência que armazena em uma das pernas. Criado no Botafogo, o atleta deu sentido às cobranças de faltas – defendendo, entre outras é uma garantia por cima. Gegê, outro abaixo dos 23 anos, virou titular, passou a convencer e ganhou pontos com a torcida. Fazendo a diagonal da esquerda ao centro, perto dos atacantes, se transformou num garçom.

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Como o alvinegro ataca | Clique e amplie | Imagem original: Rede Globo

Os que hablan español em General Severiano

Pelo mesmo motivo da garotada, os sul-americanos aterrissaram em bando em General Severiano. Se o uruguaio Álvaro Navarro foi fundamental na conquista da Série B 2015, fazendo da bola alta uma arma perigosa, neste ano os gringos atendem por Joel Carli, Gervasio Núñez, Juan Salgueiro e Damián Lizio. Dois argentinos, um compatriota de Navarro, um boliviano.

Carli levou algumas semanas até se estabelecer de vez entre os onze, contudo a posição recebeu um novo dono. Tendo 1,91m de altura, o ex-Quilmes faz o estilo espanador – são 59 rebatidas. Que gosta de tirar o perigo logo, do contato, mas que pode se perder sem uma referência para a marcação. Um destaque é sua capacidade com a pelota dominada, em geral Carli não se apavora e solta bem.

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Foto: Botafogo.com.br

Salgueiro chegou de forma frenética: desceu do avião, vestiu a camisa 10, confiscou a titularidade e está rendendo. Muito móvel, Juan apresenta-se bastante, dá sequência às jogadas, adora tabelar. Até aqui, um bom articulador. O que não pode ser dito de Gervasio Núñez, pouco preciso nas finalizações e sem maiores atrativos individuais.

Já Lizio, que jogou a Copa América do ano passado e até teve sua glória, quase não atuou com a camisa alvinegra. Quando o fez, oscilou em participação e efetividade, apesar de um tento anotado. Mas, pelas características de condução de bola, ainda deverá ser importante.

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Foto: Botafogo.com.br

Definitivamente, esse não é o Botafogo dos sonhos. Nem o mais realista torcedor argumenta isso. Entretanto, é o que dá para fazer com as verbas tão comprometidas e um clube que não oferece tanta garantia competitiva. Se alguém acha que a situação está ruim hoje, basta olhar para o fim de 2014. Lá foi o ápice da turbulência, o auge da longa crise. Poderia ter sido o início do fim, mas terminou como um recomeço. Uma volta por cima.

Estatísticas apuradas até o dia 01/04/2016, via Footstats.

Comentários

2000. Um doente por futebol que busca insistentemente entender esse jogo magnífico de forma completa - claro, sem sucesso.