Luis Suárez contra Sergio Ramos e Pepe

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Anos atrás

Luis Suárez chegou ao Barcelona em 2014, logo depois do Mundial, e disputou somente três SuperClássicos. O baixo número contrasta com a sua importância nos duelos. Em menos de dois anos de culé, o Pistoleiro já adquiriu um impacto tremendo e imediato nos jogos contra o Real Madrid. Sua estreia oficial pelo clube, relembremos, foi no Santiago Bernabéu. À época, o Real Madrid era, sem sombra de dúvidas, o melhor time do mundo. Vivia uma fase de ouro sob o comando de Carlo Ancelotti, animicamente sonhava com a Tríplice Coroa e, individualmente, todos os onze jogadores de linha estavam em ótima fase física e técnica. Naquele dia, deu a lógica: vitória merengue por 3 a 1.

Foto: Site Oficial do Barcelona | Os dois gols em território madridista no primeiro turno cravaram: Suárez incomoda o Real Madrid.

Foto: Site Oficial do Barcelona | Os dois gols em território madridista no primeiro turno cravaram: Suárez incomoda o Real Madrid.

No entanto, Suárez, que jogou somente 65 minutos, deixou pinceladas da história que viria escrever mais para frente. Apesar da evidente falta de ritmo e um desgaste físico mais normal que o habitual, o camisa 9 participou do gol de Neymar e mostrou-se ativo durante o período em que esteve em campo. No segundo turno, os êxitos de Suárez foram maiores ainda. Afinal de contas, ele marcou o gol que decidiu o confronto e deixou a taça da Liga nas mãos do Barça, e foi, provavelmente, o futebolista mais destacado em campo. E como não esquecer da maravilhosa atuação nos 4 a 0 de novembro do ano passado? Os dois gols em território madridista cravaram: Suárez incomoda o Real Madrid.

O primeiro ponto é simples e detectável em campo: Suárez é um centroavante impossível de antecipar e roubar uma bola quando ele está protegendo-a. Os melhores zagueiros do mundo já tentaram, mas falharam na missão. Luis é praticamente imbatível no aspecto. Logo de cara, isso choca com as qualidades primordiais de Pepe e Sergio Ramos, na teoria a dupla de zaga do Real Madrid. A dupla hispano-portuguesa edificou seu império no futebol espanhol e europeu através da supremacia física e rítmica na hora de pressionar os atacantes. Basta recordamos os duelos de Messi de falso 9 contra Pepe e Ramos na época de José Mourinho. O argentino, é lógico, brilhou em vários confrontos, mas os dois defensores tiveram seus momentos de domínios perante o rival. Na campanha do décimo título de Liga dos Campeões em 2013/2014, os dois fizeram duas partidas que beiraram a excelência contra o Bayern de Munich, nas semifinais. Pois bem, com Suárez a história é diferente. Quando se deparam com o charrua, os dois se abalam psicologicamente ao longo dos 90 minutos. Diria que mais até que com Messi. Porque, por ora, nenhum treinador do Real conseguiu achar uma fórmula para frear a superioridade do uruguaio ante o miolo defensivo blanco.

Pepe, especialmente, é o que mais sofre. Até porque, seu embate no mano a mano com o temido adversário é maior do que o do companheiro. O brasileiro não se contém em sua área e sempre busca chegar na bola primeiro que Suárez. Porém, frisamos mais uma vez: isso “não é possível”. O que essa tentativa de roubo traz como consequência? Pepe comete muitas faltas próximas à meia lua, corre o risco de receber um cartão amarelo (ou até mesmo um vermelho) e deixa a retaguarda mal posicionada. Para Ramos, a dificuldade existe, claro. Mas, por ler o jogo que mais que seu amigo, ao espanhol não lhe cai mal “aceitar a derrota” na antecipação e permitir Suárez girar com a bola. Mais “estático”, Ramos fica melhor colocado para tentar desarmar o uruguaio no mano a mano. Sergio é mais prudente (em relação a Pepe) e não oferece um cenário de conforto, exigindo soluções imediatas do Pistoleiro. É a decisão mais acertada para equilibrar o enfrentamento contra um dos melhores atacantes do mundo.

Ainda não sabemos como Zinédine Zidane irá planejar seu Real para a visita ao Camp Nou. Até o momento, o francês acena com a criação de um time de posse pura, que domina o jogo através da manutenção da bola (Toni Kroos) e cria ataques a partir da amplitude de seus pontas (Bale e Cristiano Ronaldo). Não podemos afirmar que Zizou vai manter a estratégia frequente e irá à Catalunha disputar a pelota, mas a verdade é que, até o momento, o ex-meio campista não gesticulou com a intenção de recuar linhas, se defender em blocos baixos e contra-atacar. O Madrid tem problemas defensivos, sobretudo nas costas de Kroos, e passa perrengue semanalmente com a zaga exposta. Isso tem uma explicação simples: o Real é uma máquina de atacar e, às vezes, vai para o campo de ataque com até oito jogadores. Zidane libera os laterais, permite o avanço do primeiro volante e os dois meias pisam na área rival a todo instante (sobretudo se Kroos é o primeiro homem da medular, o que permite maior liberdade a Modric e tira a responsabilidade do croata de dar o primeiro passe).

Foto: Site Oficial do Barcelona | Suárez é um centroavante impossível de antecipar e roubar uma bola quando ele está protegendo-a

Foto: Site Oficial do Barcelona | Suárez é um centroavante impossível de antecipar e roubar uma bola quando ele está protegendo-a

A priori, essa fórmula, no Camp Nou, mais traz desvantagens do que vantagens aos merengues. Nos últimos jogos, o script do Clássico foi quase sempre o mesmo. Tivemos múltiplas partidas dentro de uma. O domínio de jogo nunca é de uma equipe só e ambas defendem e atacam. Se o Real decide por pressionar à frente com seu 4-4-2 ou 4-5-1 defensivo, pode ocasionar perigo; porém, se o Barça opta por uma ligação direta que bate as duas primeiras linhas de marcação, o perigo será real: os comandados de Zidane irão sofrer contra o trio MSN, mais precisamente Suárez, que geralmente é o receptor dos lançamentos de Piqué, Mascherano ou Daniel Alves. Diante desse cenário, surge mais um nome para tentar travar o 9 blaugrana: Varane. O jovem estava em campo no vexame do primeiro turno, mas suas características casam com as de Suárez. Correndo para trás e recuperando bolas perdidas, Raphael não tem rival. Mas o que mais chama a atenção é calma que pode compartilhar com o restante da primeira linha de quatro. Contra um “assassino intenso” que é Suárez, o excessivo nervo de Pepe e as desconexões de Ramos os penalizam enormemente. Varane não é perfeito, falha como qualquer outro, mas suas carências tendem a ser menos expostas nos clássicos.

Caso inicie com seu compatriota, Zidane tem opção de ceder a bola ao Barça e jogar de maneira mais conservadora. Em palavras mais claras, ao Real poderia ser mais rentável não ceder muitos metros a Suárez, já que o uruguaio não é o centroavante mais preciso do mundo com os espaços reduzidos. E se resolve jogar também com Casemiro, pode ter um onze mais físico, que seria importante no combate a Messi. Com o brasileiro, o Real perde qualidade no primeiro passe e recua em demasia Modric, perdendo qualidade por dentro. Porém, supondo que, ilhado em meio à sua preferida zona de atuação, Suárez recue excessivamente para receber a bola dos meias, os blancos tendem a, na teoria, ter uma receita mais considerável contra Luisito. Sair para contra-atacar já é outra história. Desde a saída de Mourinho, o Real não se destaca tanto pelas velozes e agressivas transições ofensivas (à parte os duelos contra Barcelona, na final da Copa do Rei, e Bayern, em 2014, algo peculiar no trabalho de Ancelotti em Chamartín).

A verdade é que Suárez é uma prova duríssima para qualquer zagueiro do mundo. Basicamente, porque pode estar fazendo uma péssima partida (a nível técnico) e executar um movimento, um gol ou um passe que ganha uma partida. Exige concentração no mais alto nível por 90 minutos. De qualquer forma, esperemos por sábado. Quando, às 15h30 (horário de Brasília), a bola rolar em Barcelona, muitas perguntas serão respondidas.

Comentários

Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.