O Marasmo do Flamengo é deprimente

  • por Igor Leal da Fonseca
  • 3 Anos atrás

? 8 de novembro de 1981
Depois de anos ouvindo piadinhas, o Flamengo faz 6 a 0 no Botafogo e devolve o humilhante placar sofrido em 1972.

Flamengo Botafogo

Fonte: site oficial do Flamengo

? 23 de novembro de 1981
Flamengo bate o Cobreloa-CHI e fatura a Libertadores da América.

Zico

Fonte:site oficial do Flamengo

? 6 de dezembro de 1981
O time de Zico e cia. vence o Vasco e conquista o Campeonato Carioca.

O placar do Maracanã após o apito final de Flamengo 2 x 1 Vasco || Reprodução Youtube

O placar do Maracanã após o apito final de Flamengo 2 x 1 Vasco || Reprodução Youtube

? 13 de dezembro de 1981
O Flamengo dá um passeio no Liverpool e se torna Campeão Mundial de Clubes.

Flamengo 1981

Fonte: site oficial do Flamengo

Você, leitor, reparou nas datas? Não? Então leia novamente por favor e veja que, em menos de um mês, o Flamengo deu felicidade para pelo menos um ano ao torcedor mais crítico do clube, não concorda? Pois é. Talvez em outro lugar esse período de calmaria fosse respeitado. O time vem de seguidas conquistas e ganha um alívio da sua torcida quando as coisas não forem tão bem. Certo? Errado, pelo menos no Flamengo.

No dia 20 de janeiro de 1982, o Flamengo fez sua estreia no Campeonato Brasileiro, contra o São Paulo, no Maracanã. Feriado no Rio de Janeiro, adversário de peso que contava com jogadores como Dario, Oscar, Marinho Chagas e Mário Sérgio. Maracanã lotado para recepcionar os Campeões do Mundo e clima de festa nas arquibancadas. Porém, aqui por essas bandas, as coisas não acontecem como em outros clubes. Após ver o São Paulo abrir 2 a 0 antes do intervalo, a Nação vaiou sem dó. Pois é, você não entendeu errado: no primeiro jogo oficial após a sequência citada no início do texto, a torcida vaiou o time. Na volta do intervalo, o Flamengo virou o jogo para 3 a 2 e saiu de campo com o resultado positivo. Após a cabeçada que definiu a vitória, Zico chutou a bola com raiva para o fundo do gol, para mostrar quem realmente mandava. Nenhuma reclamação contra a torcida, nenhum ‘’mimimi’’ sobre falta de apoio ou reconhecimento pelos feitos do ano anterior. Aquele grupo, mais do que nenhum na história do clube, sabia que o jogo ou os títulos conquistados no passado eram apenas isso: passado. O que de fato valia era a postura da equipe no(s) jogo(s) que estava(m) por vir.

Corta para 2008…

Na estreia do Campeonato Brasileiro do mesmo ano, o Flamengo deu a sorte de jogar contra o Santos em um Maracanã com portões fechados. O jogo aconteceu apenas quatro dias após a traumática derrota para o América do México, na Libertadores, no famoso jogo de Cabañas. Sem a presença da torcida, o Rubro-Negro venceu o Santos por 3 a 1. Nas dez rodadas seguintes, apenas uma derrota, para o São Paulo. Foram oito vitórias e dois empates, que deram ao clube cinco pontos de vantagem para o segundo colocado. Nesse ínterim, a direção negociou Souza, Renato Augusto e Marcinho, todos titulares do ataque do time. A equipe ainda perdeu Ronaldo Angelim e Tardelli, machucados, contudo, após seis jogos sem vitória, de nada valeu a campanha inicial e a Gávea foi invadida por torcedores para protestar. Então Capitão – com maiúscula mesmo – da equipe, Fábio Luciano foi conversar com torcedores e procurou explicar a situação. Usando palavrões, com linguajar simples e falando diretamente com o grupo de líderes do protesto, o ex-zagueiro reconquistou o apoio da torcida, que deu trégua ao time até o final do ano.

Para efeito de comparação, o atual carregador de braçadeira – capitão é outra coisa – protagonizou patética cena no último domingo, ao deixar esperando no túnel as crianças que entrariam em campo com o time do Flamengo. Wallace ainda cometeu a desfaçatez de fincar o pavilhão Rubro-Negro no centro do gramado. Dias depois o jogador declarou que a ideia não partiu dele, que apenas concordou com a mesma e que foi uma forma de homenagear a torcida. Homenagem para torcida do Flamengo não é gritinho, corridinha para fincar bandeira e relegar pequenos torcedores. Para homenagear a torcida do Flamengo é preciso uma coisa só: luta. E isso, Wallace nunca teve. Como disse o também rubro-negro Fernando Carreteiro, colega do site, ”Wallace é limitado tecnicamente, tem uma postura emocional discutível, não tem identificação com o Flamengo e é odiado pela torcida. Dá para aceitar um capitão que tenha um ou no máximo dois desses defeitos, mas todos jamais. Ainda mais quando tem o Juan no elenco.”

Fábio Luciano entrando com a bandeira do Flamengo em 2008 || Reprodução Twitter

Fábio Luciano entrando com a bandeira do Flamengo em 2008 || Reprodução Twitter

Ainda sobre 2008, cabe recordar que desde o primeiro jogo com torcida em casa pelo Campeonato Brasileiro, a faixa ‘’O Brasileiro é obrigação’’ esteve presente nas arquibancadas, algo impensável hoje em dia. O clima de protesto e a falta de paciência só foi atenuado quando o time comandado por Adriano e Pet conquistou o título do Campeonato Brasileiro no ano seguinte.

O leitor Rubro-Negro já deve ter entendido meu ponto de vista: falta cobrança, falta pressão no Flamengo. Nunca, em período algum da história do Flamengo, um elenco foi tão covarde como o atual. E nunca teve diretoria e torcida tão passivas quanto atualmente. A questão da torcida pode ser explicada pela falta de jogos no Maracanã nos últimos tempos e também pela ausência de treinos na Gávea, local de concentração de sócios e de acesso relativamente fácil para torcedores, além, é claro, de uma mudança no perfil do torcedor do clube, hoje muito mais um ‘’consumidor do evento’’ do que antes. A transferência dos treinos profissionais para o Ninho do Urubu também ajuda a explicar, pois o Flamengo hoje é um clube que não tem qualquer contato com seu torcedor no dia a dia. A blindagem ao elenco, que pode ser encarada como um bom ponto, tem também o seu lado oposto, que é a falta de cobrança do torcedor, já que o CT do clube se encontra em zona de difícil acesso da cidade.

Já a postura da direção, essa encontra explicação no excesso de profissionalismo dos dirigentes, que ainda não entenderam que futebol não é só fluxo de caixa e balanço. Futebol é sangue, suor, lágrimas e títulos, principalmente no Flamengo.

Comodismo, ‘’ano que vem será melhor’’, prêmio de time mais citado no Twitter, nada disso serve para o torcedor rubro-negro. Ou a direção entende isso e passa a cobrar pesadamente esse elenco – que conta com salários em dia e boas condições de trabalho – ou de nada adiantará zerar a dívida do clube nos próximos três anos. Como sabiamente disse Márcio Braga certa vez, ‘’no Flamengo a terra tem que tremer.’’

No Flamengo, só passam à história os vencedores. Tornam-se deuses os que venceram e deram a vida pelo clube. De resto, nada mais importa. Comodismo, preguiça, falta de brio, nada disso se cria por aqui. Ou lembramos da nossa história, das origens da nossa torcida ou estaremos fadados a virar mais um clube sem alma no futebol brasileiro.

Que as três próximas semanas sem jogos sejam utilizadas para que sejam ensinadas, nem que seja à força, a história e a tradição do Flamengo a esse grupo atual de jogadores. E que os que não se enquadrarem sejam afastados sem dó nem piedade. Ou é isso ou corre-se o risco de, por falta de pulso dos que comandam, se jogar na lata do lixo da história um excelente trabalho fora de campo.

Comentários

33 anos, morador do Rio de Janeiro. Rubro Negro de coração, apaixonado pelo Maracanã, tem no Barcelona o exemplo de clube para o que entende como futebol perfeito, dentro e fora do campo. Estudioso da memória do futebol, tem nessa sua área de maior atuação no site, para preservar a memória do esporte. Dedica especial atenção aos times mais alternativos, equipes que tiveram grandes feitos, mas que não são tão lembradas quanto as maiores do mundo. Curte também futebol do centro e do leste da Europa, com uma coluna semanal dedicada ao assunto. Um Doente muito antes de fazer parte desse manicômio, sua primeira memória acadêmica é uma redação sobre o Zico, na qual tirou 10 e a mesma foi para o mural da escola. Nunca trabalhou com futebol dessa forma, mas adora o que faz junto com o restante do pessoal e se pergunta o porquê de não ter começado com isso antes. Espera recuperar o ''tempo perdido''. Acha Lionel Messi o melhor que viu jogar e tem em Zico, Petkovic e Ronaldo Angelim como heróis.