O Real Madrid de Zidane em abril de 2016

  • por Victor Mendes Xavier
  • 3 Anos atrás

O Real Madrid é a instituição mais midiática da história do futebol ao lado da Seleção Brasileira. Tudo que se passa no ambiente madridista requer uma exigência mais alta que o padrão para qualquer ser humano. Se você não estiver concentrado e dar um passo em falso, pode sentenciar seu fracasso. Por toda a grandeza que envolve os merengues, fazer parte do clube não é, definitivamente, nada fácil. Que o diga Cristiano Ronaldo, por exemplo. Há sete temporadas no Santiago Bernabéu, o gajo já conquistou tudo que pode e dia após dia quebra marcas que parecia impossível. No entanto, Ronaldo tem seus dias de falhas e isso incomoda a torcida. Se o maior artilheiro da história do Real ficar um jogo sem marcar gol, os torcedores começam a olhá-lo de maneira desconfiada.

Zinédine Zidane fez história como jogador. Peça-chave do icônico elenco que ficou conhecido como galáticos, Zizou, assim como Cristiano, conquistou todas as taças possíveis. Uma delas, inclusive, nunca mais será esquecida. A nona Liga dos Campeões do Real Madrid teve a assinatura especial do francês, com o gol de placa anotado em Glasgow, na Escócia, que desempatou a final contra o Bayer Leverkusen. Mas Zidane também também falhava. O suficiente para os aficionados, em algumas ocasiões, pegarem em seu pé. Porque isso é o Real Madrid. Ser bem sucedido na capital espanhola coloca um jogador/treinador no topo; desperdiçar a oportunidade, muita das vezes, pode significar um passo atrás na carreira, um retrocesso.

Foto: Site Oficial da UEFA | Em sua particular linha do tempo, Zidane está em "outubro", mês em que uma equipe em mutação dificilmente vai mostrar todo seu poderio

Foto: Site Oficial da UEFA | Em sua particular linha do tempo, Zidane está em “outubro”, mês em que uma equipe em mutação dificilmente vai mostrar todo seu poderio

Zidane retornou a Chamartín com uma árdua missão: levantar um elenco fadado ao fracasso sob o comando de Rafael Benítez. Não obstante, a tarefa a de ser cumprida na era e no campeonato de Lionel Messi, um ogro devorador de taças que não facilita nada. Atualmente, podemos dizer que o Madrid de Zidane é uma equipe humana. Em outras palavras, uma equipe normal, um recém nascido que está em desenvolvimento. Seu futebol é inconsistente e irregular. Em sua particular linha do tempo, Zidane está em “outubro”, mês em que uma equipe em mutação dificilmente vai mostrar todo seu poderio. Foi assim com Barcelona de Luis Enrique, Bayern de Jupp Heynecks e o Real de Carlo Ancelotti. Mas estamos em abril e seria desonestidade cobrar todo o potencial desse time no momento. Em três meses de trabalho, é duro mostrar 100% de resultado. O eterno camisa 5 madridista ainda está construindo uma identidade, mas já pode se vangloriar por cumprir o primeiro objetivo: dar uma base tática ao Real Madrid.

Logo na estreia, contra o Deportivo La Coruña, o que vimos foi espetacular. A atuação do Real não foi tão impactante, a ponto de taxarmos de exibição, e deu a impressão de que o estado de ânimo dos jogadores foi maior que a qualidade técnica e tática em si. Porém, bastou um jogo para percebermos que o Real tinha mudado. Zidane conseguiu em uma noite apagar as memórias de Benítez e implantou sua forma de ver futebol na equipe. A ideia troncal consiste na manutenção da posse de bola, no modo como o trivote de meio-campo irá trabalhá-la. Primeiramente, é preciso desconstruir um mito: essa versão do Real não é um retorno ao “ancelotismo. Estilisticamente, até pode parecer, de fato, mais precisamente pelo modo de jogar. Também há semelhanças táticas, como a posição de Kroos como primeiro volante e o usual 4-3-3. Mas são projetos diferentes.

Carleto construiu um sistema que não dependia completamente da pelota. Era um time, digamos, “cínico”, que fazia o que o rival pedia que fizesse. É verdade que gostava de ter a bola e os ataques eram colírios para os olhos, até pelo fato de na época de Mourinho o mecanismo principal ter sido o contra-ataque. O italiano melhorou a qualidade do ataque posicional, evidenciado nos três meses de ouro entre outubro e dezembro de 2014, quando o Madrid abocanhou 21 jogos consecutivos de vitórias. Aquele Real era um escândalo tocando a bola. Mas havia o outro lado da moeda. Quando um adversário pretendia e mostrava que poderia tirar a redondinha do Madrid, a postura de Ancelotti era clara: entregá-la, recuar e atacar diretamente aproveitando-se de Bale, Benzema e Cristiano Ronaldo. A Juventus fez isso nas eliminatórias de semifinais da última Liga dos Campeões da Uefa, tanto no Juventus Stadium, quanto no Santiago Bernabéu. A equipe de Zidane permitirá isso? Pelo que mostrou até agora, a resposta é não: o atual Real vai brigar pela bola sempre. O que faz com que pontuássemos uma conclusão: pela primeira vez na era Cristiano Ronaldo, o Real tem um time de posse pura; um projeto de Barcelona, de Bayern de Munich — à seu modo, claro. E, para o bem e para o mal, isso modifica toda uma esfera.

Foto: Site Oficial do Real Madrid | A bola é dele: o epicentro da filosofia de Zidane é Toni Kroos

Foto: Site Oficial do Real Madrid | A bola é dele: o epicentro da filosofia de Zidane é Toni Kroos

Os jogadores assimilaram a concepção do novo comandante desde o primeiro dia, e o plantel merengue tem peças capaz de fazer funcionar o sistema do jeito que o francês pede. Zidane parte de um princípio: não perder a bola. Dentro desse cenário, o epicentro da ideia é Toni Kroos. O alemão é um clone alemão de Xavi. Tem média de 95% de acerto de passe e controla o ritmo do jogo em um dia inspirado. “(Toni) É perfeito para o Real Madrid. Desde que ele está aqui, nosso estilo mudou”, disse Zidane em sua apresentação. Realmente, Kroos resume um pouco a filosofia do franco-argelino, permitindo ser mais radical e constante com a posse. Por causa disso, na opinião deste que vos escreve, o Real Madrid tem um potencial (atenção a essa palavra) maior que tinha com Ancelotti e sobretudo Benítez. Talvez não maior que o de Mourinho, já que o gajo teve em suas mãos um “outro” Cristiano Ronaldo, o melhor jogador que o clube tem desde Di Stéfano. O estilo de Mourinho potenciava muito Ronaldo e, portanto, somente o céu poderia ser o limite daquele time não fosse por problemas extracampos e um pingado de sorte nos momentos decisivos (ou até mesmo competência, vide a disputa por pênaltis nas semifinais da Liga dos Campeões de 2012 contra o Bayern).

Foto: Site Oficial do Real Madrid | A presença de Casemiro "tira" a liberdade de Modric, sempre obrigado, por pedido de Zidane, a recuar em demasia para ser o responsável pela saída de bola

Foto: Site Oficial do Real Madrid | A presença de Casemiro “tira” a liberdade de Modric, sempre obrigado, por pedido de Zidane, a recuar em demasia para ser o responsável pela saída de bola

Nas últimas semanas, um debate foi iniciado acerca da presença de Casemiro no onze inicial. Um conceito de jogo fundamental para Zidane é a saída controlada desde trás. Aí, é importante ter Kroos como primeiro homem do meio, por ser um especialista em passes curtos e coerentes, em pausar e acelerar, em lançar em profundidade e fazer a inversão. O brasileiro não faz feio saindo jogando, mas não é diferenciado. Zidane sabe disso. Não à toa, sempre que não teve Kroos e colocou Casemiro de primeiro volante, usou Modric para ser o responsável pela transição. O problema é que com o croata baixando tanto para receber a bola, o Madrid sente a falta de jogo por dentro, que Kovacic (que seria o responsável ideal para recepcionar o segundo passe) e Isco não sabem corrigir. Quando viajou às Ilhas Canárias para enfrentar o bom Las Palmas com essa formatação no meio, o Madrid sofreu por sentir falta de um homem no círculo central, com o excessivo recuo de Modric. Dessa forma, um meio-campo mais técnico tem tudo para colocar os blancos na roda. A questão não é a presença de Casemiro, que fatalmente melhora a produção defensiva (principalmente protegendo suas costas), mas sim a NÃO presença de Kroos.

Por que o Real de Zidane ainda não funcionou? Simples, porque está verde. Ainda transmite dúvidas e a lógica é que transmitirá até o fim da temporada. Falta adaptação por parte de alguns membros e mais confiança para executar certas jogadas. Quando um adversário resolve adiantar a marcação, o time responde com desconfiança, vide a atuação de Keylor Navas contra o Granada, que teve como consequência uma irregular saída de bola. E se alguém põe em xeque essa característica, o problema atinge todos os outros jogadores. Atrás, o Real Madrid não tem tanto talento, convenhamos. Até por isso, esse deve ser o motivo para Zidane ser fixado pela bola. Seus jogadores sofrem quando estão sem a redonda, custa para eles prolongar esforços pressionando e se desesperam se têm que recuar, combinação esta pouco compatível com o atual elenco madrilenho (sem Xabi Alonso, Coentrão, Khedira e Di María).

Também não faz sentido construir um modelo que vise passar boa parte do tempo sem a bola quando se tem, além de Kroos, um passador nato como Modric. Juntos, a dupla é capaz de dominar o Barça de Messi, Suárez e Neymar no Camp Nou, como foi no confronto de março de 2015. Por 45 minutos, o estádio catalão assistiu em silêncio um desfile de Modric e Kroos. Parece um desperdício querer que o primeiro objetivo de Toni e Luka seja correr atrás da bola, e não tê-la em seus pés, especialmente quando topamos com a limitação que o Real vem tendo nos contra-ataques. Para se defender com maior eficácia, sabendo da dificuldade para dar um vigor a mais marcando no campo ofensivo, o Madrid precisa se apossar em sua zona de defesa e se compactar em dois blocos. Estacionado, deve eleger entre formar uma linha de 4 e outra de 3, ou duas de 4. Ante os oponentes mais modestos, formar um 4+3 é o suficiente, mas na Champions ou contra o top 7 de La Liga, visando maior solidez, um 4+4 é mais coerente. Como Ronaldo tem liberdade e Benzema é o 9, quem se sacrifica do trio de ataque é Bale. Às vezes, o Real até forma uma linha de 4 e outra de 5 com Benzema se deslocando ao lado esquerdo, mas não é tão frequente. Como consequência, as transições perdem força. Quando Barcelona e Juventus roubaram a bola do Ancelotti Team, a equipe não conseguiu contra-atacar com tanta eficiência e se rompeu totalmente. Por isso Zidane propõe não depender tanto dos contra-ataques. Subir a porcentagem da posse é uma solução à curto prazo interessante para mascarar o problema.

Defensivamente, o Real sofre. Não é raro ver a equipe ceder ocasiões ao adversário. Isso acontece porque Zidane prioriza a estrutura ofensiva até no momento de se defender. O Real é um time de caráter essencialmente voltado para o ataque. Os dois laterais se soltam, o volante sobe, os dois interiores moram próximo à meia lua. Não expôr o miolo de zaga jogando desse jeito beira ao impossível. Sergio Ramos sofre mais porque é o capitão, o teórico líder. E, por ser o defensor do elenco com maior talento com a bola, foi uma espécie de coringa para Ancelotti que não é mais com ZZ. No modelo desenvolvido pelo italiano, Ramos se comportava como um falso volante, fazendo as vezes até de Kroos quando este pulava uma linha. A função do espanhol era ser uma ponte que melhorasse o déficit de roubo do time. Graças à sua velocidade, vivia tranquilamente longe de sua meta e fazia da transição defensiva um ponto de consistência. Esse sistema não existe mais, correr para trás é mais complicado e Ramos joga mais estático. Psicologicamente, não tem suportado o novo papel, porque perde mais duelos individuais. Como Varane é inexperiente, sobra para Pepe fazer ser o chefe da retaguarda. Tecnicamente, o auge do luso-brasileiro passou, mas a personalidade de guerreiro continua intacta. É por isso que, mesmo não sendo unanimidade, Pepe segue como titular: Zidane tem plena confiança em seu trabalho.

A falta de resultados satisfatórios pode ser argumentadas por Zidane pelo fato dele ter contado poucas vezes com sua mais poderosa arma, o trio BBC. Até o momento, no processo de formação de um novo time, Bale, Benzema e Cristiano se juntaram menos do que o esperado. Quando foi encarregado de fazer funcionar seu Real, Zidane não pensou duas vezes em dar ao trio um papel crucial. Não só porque são três jogadores que pertencem, por qualidade, a um grupo muito seleto de futebolistas, mas sim porque quando se juntam, seus jogos se harmonizam e mudam a cara da equipe. Passam a sensação de superioridade, de força. Exemplo disso foi o que o Madrid aprontou contra o Sevilla há duas semanas, antes da parada para a Data Fifa. Foi um espetáculo, carimbado pela BBC.

Foto: Site Oficial da UEFA | Cristiano voltou a se sentir o craque do Real Madrid e isso é a notícia mais relevante para Zidane

Foto: Site Oficial da UEFA | Cristiano voltou a se sentir o craque do Real Madrid e isso é a notícia mais relevante para Zidane

Uma das novidades de Zizou habita aí: a rotina tática de BBC. Zidane busca a cada jogo atacar de maneira larga e profunda, com muitas ações exteriores. Por isso, recuperou o Ronaldo ponta esquerda. O português voltou a combater o lateral adversário no mano a mano e se mostra mais ligeiro, fresco, móvel, participativo e atrevido. É outro em relação àquela pálida versão com Benitez. Fisicamente, está em forma, não há dúvidas. E ativar Ronaldo, é ativar Bale e Benzema. Cristiano voltou a se sentir o craque do Real Madrid e isso é a notícia mais relevante para Zidane. Se o Real Madrid tem opções na Champions, muito passa pelo o que português pode fazer. O caso de Bale é semelhante. Depois de uma pálida temporada em 2014/2015, o galês tem correspondido às necessidades que lhe pedem. Bale é essencial em um Real Madrid que peca pela falta de drible. Essa cota é preenchida pelo veloz camisa 11, que é auto-suficiente e empurra à força seu time ao ataque. Por essas e outras que é difícil imaginar James de titular, pelo menos na ponta direita. Bale é incontestável.

O Real Madrid de Zidane não é perfeito. Passa longe disso. Seus melhores oponentes com certeza levarão vantagem em um desafio. Em cada fase do jogo, a equipe está para melhorar. Falta uma estrutura defensiva mais competitiva e a ausência de intensidade de suas peças podem comprometer em algum momento, até porque Carvajal, Marcelo e Kroos não são Puyol, Maldini e Makélélé. Mas Zizou constrói uma identidade digna de aplausos. Encontrou um sistema e quer jogar futebol, não importa a circunstância. A depender do andamento da temporada, Florentino Pérez pode dar um basta no projeto em junho. Mas vale muito a pena apostar nele. O Real Madrid ‘zidaniano’ é promissor.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.