A história dos nomes dos estádios brasileiros

  • por Lucas Sousa
  • 5 Anos atrás

Desde criança crescemos conhecendo os estádios de várias partes do Brasil. Vamos a jogos no Mineirão, assistimos partidas na Fonte Nova, sonhamos em conhecer o Maracanã e por aí vai. No entanto, muitas vezes nem sabemos o verdadeiro nome desses estádios e, quando sabemos, raramente conhecemos quem foi o homem digno de tal homenagem. Afinal, quem foi Urbano Caldeira? Ou Cícero Pompeu de Toledo? Ou Plácido Castelo? A origem destes e de outros nomes de alguns dos principais estádios do país estão logo abaixo.

Estádio José Pinheiro Borda (Beira-Rio)

beira rio

O estádio do lado alvirrubro do Rio Grande do Sul leva o nome de um português. José Pinheiro Borda chegou a Porto Alegre em 1929, vinte anos após a fundação do Sport Club Internacional. À época, o time mandava seus jogos no Estádio dos Eucaliptos, uma das sedes da primeira Copa do Mundo no país, mas o crescimento do esporte exigia melhores estruturas. Foi então que o clube escolheu Pinheiro Borda, colorado fanático e influente na construção civil, para colocar o plano em prática, a partir de 1959. A torcida participou ativamente das obras, levando tijolos, cimento e ferro para contribuir, enquanto o português foi responsável pela divulgação do estádio, fazendo palestras em diversas cidades com o intuito de apontar os benefícios que o Beira-Rio traria. Sua dedicação para com o clube era tamanha que ele chegou a afirmar que as três coisas que mais prezava na vida eram sua esposa, o Internacional e o Gigante da Beira-Rio. Também não ficava para trás quando se tratava da rivalidade com o Grêmio: embora tivesse várias amizades do outro lado, nunca colocou o pé no Olímpico. Infelizmente, Borda faleceu quatro anos antes da inauguração, em 1965. Além do nome no estádio, recebeu um busto de bronze, localizado no Gigante que ajudou a erguer.

Estádio Governador Plácido Castelo (Castelão)

castelao

No final dos anos 1960, impulsionado pelos títulos Mundiais de 58 e 62, o futebol já era muito popular no Brasil. Na Taça Brasil, o torneio nacional da época, os times do Ceará faziam boas campanhas. O Fortaleza havia sido duas vezes vice-campeão do torneio e o Ceará conquistara uma terceira colocação na época em que o Santos de Pelé dominava o futebol brasileiro. O estado, porém, não possuía um grande estádio como os times do Sudeste e carecia de um palco maior para a expansão do esporte no Nordeste. Foi então que Plácido Aderaldo Castelo, advogado, jornalista e governador do estado, deu início as obras, em 1968. Durante seu governo, Plácido Castelo também criou o Tribunal de Contas dos Municípios, órgão que também leva o seu nome. O Castelão foi inaugurado somente cinco anos depois, sob o governo de César Cals, mas homenageando o político que o tornou realidade.

Estádio Octávio Mangabeira (Fonte Nova)

fonte nova

Engenheiro Civil formado, Octávio Mangabeira se notabilizou mesmo na política. Era ministro das Relações Exteriores do governo Washington Luís, em 1926, e durante a Era Vargas foi preso e exilado por duas vezes na Europa e Estados Unidos por ser um oposicionista. Neste período, assumiu sua cadeira na Academia Brasileira de Letras, em 1934. Após ser anistiado pela segunda vez e retornar ao Brasil, foi eleito governador da Bahia e deu início as obras do estádio que levaria seu nome, apelidado de Fonte Nova por conta de uma fonte de água que existia nas proximidades. Após as reformas para receber a Copa do Mundo de 2014 os naming rights do estádio foram vendidos, modificando o localizado ainda guarda o nome do ex-governador do estado.

Estádio Jornalista Mário Filho (Maracanã)

maracana

Mário Filho dispensa muitas apresentações. Foi um dos maiores cronistas esportivos brasileiros e grande responsável por aproximar o futebol dos torcedores nas décadas de 40 e 50. Numa época de escritas rebuscadas, repletas de termos de difícil compreensão para a grande parcela dos leitores, Mário Filho adotou uma linguagem mais simples e próxima das arquibancadas ao utilizar expressões populares (foi ele o criador do apelido “Fla-Flu”). Também premiava as torcidas mais criativas e animadas presentes ao jogo, promovendo belas festas no estádio. Através de atitudes como estas, o jornalista incentivava a aproximação entre times e torcedores. Para ele, mais importante que o resultado dentro das quatros linhas era a festa dos torcedores, por isso apoiou a criação de um estádio maior na cidade do Rio de Janeiro. Como uma singela homenagem a tudo que o escritor fez pelo Brasil, o tal estádio recebeu seu nome; enquanto “Maracanã” remete as aves Maracanã-guaçu, abundantes no local onde foi erguido o Maraca. Após sua morte, seu irmão e igualmente brilhante, Nelson Rodrigues, lamentou que não o tivessem enterrado no Maracanã: “O maior estádio do mundo tem o seu nome. Pena é que não o tenham enterrado lá. Com o Maracanã por túmulo, Mário Filho mereceria que o velassem multidões imortais.”

Estádio Governador Magalhães Pinto (Mineirão)

mineirao

Secretário de finanças, ministro das relações exteriores, deputado federal, governador de Minas Gerais e senador, além de professor, advogado e banqueiro, José de Magalhães Pinto foi um importante nome no cenário político brasileiro entre as décadas de 60 e 70. Sua vida política foi controversa. Em 1943, assinou o Manifesto dos Mineiros, carta aberta que se posicionava contra o Estado Novo (regime ditatorial liderado por Getúlio Vargas) e a favor da redemocratização do país. Na década de 60, porém, se posicionou ao lado dos militares, enviando tropas para depor o presidente João Goulart e assinando o Ato Institucional nº 5, o mais repressivo de toda a ditadura. Inaugurado em 1965, o estádio leva o nome do então governador de Minas Gerais como forma de homenagem. Atualmente, existe um projeto de lei para estabelecer “Mineirão” como nome oficial por conta dos envolvimentos de Magalhães Pinto com a ditadura.

Estádio Cícero Pompeu de Toledo (Morumbi)

Sem Título-1

Cícero Pompeu de Toledo trabalhou no São Paulo por 13 anos, sendo dez deles como presidente (de 1947 e 1957). No final da década de 40, o São Paulo Futebol Clube atravessava um período ascendente aumentando seu quadro de sócios e conquistando grandes resultados nos gramados do Canindé, então estádio do clube. Por outro lado, as finanças do clube não iam bem. Foi então que o São Paulo uniu o útil ao agradável e deu um dos maiores passos de sua história. Aproveitando o crescimento da instituição, o presidente Cícero Pompeu de Toledo deu início ao projeto de construção de um estádio maior. Uma nova casa permitiria mais torcedores assistindo aos jogos e, consequentemente, mais renda. Um terreno no distrito do Morumbi foi comprado e as obras iniciadas em julho de 1953. A primeira partida aconteceu em outubro de 1960, mesmo com a construção inacabada. Infelizmente, Cícero Pompeu de Toledo não viveu para ver o Tricolor atuando no novo estádio, mas teve seu nome eternizado nele e na história do São Paulo, como presidente de honra.

Estádio Paulo Machado de Carvalho (Pacaembu)

pacaembu

Inaugurado como Estádio Municipal do Pacaembu, em 1940, o estádio que levava o nome do bairro onde está localizado passou a se chamar Paulo Machado de Carvalho apenas em 1961. Grande empresário do ramo da comunicação, Paulo Machado de Carvalho inovou nas rádios paulistas nos anos 1930. Abriu espaço para manifestações contra o governo Getúlio Vargas, criou programas de futebol e levou para São Paulo ícones da música, como Carmen Miranda. Também adquiriu a Rádio Panamericana (que viria a se tornar a Jovem Pan) e fundou a TV Record, a mais moderna do país à época. No futebol, foi presidente do São Paulo e chefe da delegação brasileira nas Copas de 1958 e 1962. Considerado um dos grandes responsáveis extracampo pelo primeiro título mundial, ganhou a alcunha de “Marechal da Vitória” e seu nome se tornou o título oficial do Pacaembu.

Estádio Urbano Caldeira (Vila Belmiro)

vilabelmiro

Fundado em 1912, o Santos Futebol Clube treinava e jogava em um campo pequeno, sem dimensões oficiais e ainda o dividia com outros clubes da região. A diretoria, então, partiu em busca de um terreno para a construção de um estádio próprio. Quatro anos depois de sua fundação, o Santos inaugurava seu próprio campo, no bairro da Vila Belmiro. Nesse período, Urbano Caldeira ingressou no clube. Natural de Florianópolis, Urbano se apaixonou pelo time da Baixada Santista e dedicou toda sua vida a ele, sendo goleiro, treinador e dirigente. Após sua morte, em 1933, o estádio ganhou seu nome como uma forma de eternizar um dos primeiros ídolos da história santista.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.