A primeira impressão de Paulo Bento no Cruzeiro

  • por Lucas Sousa
  • 3 Anos atrás

O português Paulo Bento estreou a frente do Cruzeiro após uma semana de trabalhos na Toca da Raposa. Em campo, o empate por 2 a 2 frente ao Figueirense não foi um bom resultado, mas está longe de ser o principal fato da noite em Belo Horizonte. O importante é procurar entender o que o novo comandante pretende para o clube celeste, suas ideias e métodos. E a última semana da Raposa aponta para como deve correr o ano de 2016.

Para a surpresa dos jogadores, Paulo Bento marcou treino para o dia da partida. Como o Cruzeiro jogaria apenas às 21 horas, os relacionados fizeram um trabalho leve na parte da manhã, de modo a finalizar a reparação para o confronto. Além disso, os treinos no dia seguinte à partida também devem fazer parte da rotina cruzeirense. Ideias comuns no futebol europeu mas pouco aplicadas na nossa realidade.

Arte: Doentes por Futebol - Para sua estreia no Brasileirão, Paulo bento optou pelo 4-2-3-1

Arte: Doentes por Futebol – Para sua estreia no Brasileirão, Paulo bento optou pelo 4-2-3-1

Durante a semana, Paulo Bento fechou a maioria dos treinamentos. A imprensa teve pouco acesso ao dia-a-dia dos atletas e uma das atividades vistas pelos jornalistas trabalhava a saída de bola da equipe, o que já pôde ser visto no primeiro jogo do novo técnico. O português quer propor o jogo a partir da posse de bola e para isso se utiliza de uma saída baseada nos passes curtos, até mesmo em tiro de meta. A ideia é avançar gradualmente no campo de jogo e com o time agrupado. Para isso, os dois laterais abrem até a linha lateral para dar amplitude e os dois volantes comandam a troca de passes.

Assim o time avança até a região central do campo e consegue se posicionar no setor ofensivo. Essa saída curta e cadenciada é importantíssima para o time conseguir realizar o ataque posicional que Bento esboçou nesse primeiro jogo. Isso quer dizer que os jogadores assumem posicionamentos e movimentações específicas no campo ofensivo, portanto precisam de tempo para se organizar nas suas devidas regiões.

Foto: Reprodução/Premiere - Na saída de bola, laterais (circulados) bem abertos e dupla de volantes (Henrique e B. Ramires) realizando passes pelo centro. Assim começava o ataque posicional celeste

Foto: Reprodução/Premiere – Na saída de bola, laterais (circulados) bem abertos e dupla de volantes (Henrique e B. Ramires) realizando passes pelo centro. Assim começava o ataque posicional celeste

Obviamente isso exige tempo e treinamento para dar certo. Em alguns momentos do embate contra o Figueira os jogadores sentiram dificuldades na execução dos movimentos. As jogadas pelo centro do ataque não fluíram bem, faltava aproximação, tabelas e infiltração para criar oportunidade de finalização. É algo normal no início de uma nova fase, com novos métodos, treinamentos e ideias, e que deve ser corrigido no decorrer do trabalho.

Mesmo com pouco treinamento, chamou a atenção o trabalho do trio de meias. Os pontas Élber e Pisano participavam bastante da criação recuando e oferecendo opção de passe para o volante. Dessa maneira, o volante, o lateral e o ponta do setor da bola formavam um triângulo pelo lado do campo no início da construção ofensiva. Enquanto isso, o meia central Arrascaeta permanecia à frente, entre as linhas do adversário e próximo ao atacante Willian, aguardando a bola.

Foto: Reprodução/Premiere - Cruzeiro formava triângulo pelos flancos para iniciar a construção de suas jogadas baseada no ataque posicional

Foto: Reprodução/Premiere – Cruzeiro formava triângulo pelos flancos para iniciar a construção de suas jogadas baseada no ataque posicional

A transição defensiva foi o calcanhar de Aquiles cruzeirense e certamente exigirá trabalho de Paulo Bento. Os jogadores celestes ocupavam o campo de ataque com qualidade, mas não conseguiam matar o contra-ataque adversário quando perdiam a bola. Assim saiu o primeiro gol da partida. O Figueira recuperou a posse no seu campo de defesa e conseguiu progredir até os metros finais do campo para abrir o placar. Um time que quer jogar com a posse precisa matar os contra golpes do oponente o quanto antes e esse é um momento do jogo que precisará de atenção por parte do português.

https://youtu.be/4VlArZD9YQM

Defensivamente, o treinador optou por uma marcação em zona pressionando a bola. A proposta parte de ocupar os espaços próximos a bola e encaixotar o adversário, dificultando sua progressão no campo. O trabalho defensivo não foi dos melhores, ainda falta coordenação dos movimentos para fechar os espaços e realizar coberturas. Assim como todas as outras fases do jogo, ainda necessita de refinamento e é compreensível que hajam deficiências, uma vez que os jogadores tiveram menos de uma semana de treinamentos.

Ainda é muito cedo para julgar o trabalho de Paulo Bento à frente do Cruzeiro. O treinador estava em Portugal até segunda-feira e no sábado fez sua estreia em um país estrangeiro. Como qualquer treinador, precisa de tempo e paciência para implantar sua ideia de futebol na equipe. Também é normal que os jogadores tenham pequenas falhas nesse início de processo. Mesmo assim, e com vários desfalques, o time cruzeirense fez uma boa partida do ponto de vista coletivo e tende a evoluir com o a continuação dos treinamentos.

“Nossa opção nesta primeira semana foi uma estratégia muito mais coletiva para que todos assimilem o que pretendemos fazer. Obviamente, com uma semana é impossível conseguir tudo. De qualquer forma, estamos satisfeitos com o que conseguimos ao longo da semana” – Paulo Bento

Um pouco daquilo que ele pretende já pôde ser visto em sua estreia. O jogo posicional e a marcação por zona são comportamentos táticos dos grandes clubes do mundo, disseminados na Europa e ainda pouco vistos na América do Sul. Resta saber se o português conseguirá implantar essas ideias com êxito no clube mineiro. De qualquer forma, é uma ótima aposta após um início de ano marcado pelas incertezas.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.