As ideias de Cuca na estreia do Palmeiras

  • por Lucas Sousa
  • 3 Anos atrás
Cuca se comunicando com os jogadores durante a partida contra o Atlético-PR (Foto: Cesar Greco / Fotoarena)

Cuca se comunicando com os jogadores durante a partida contra o Atlético-PR (Foto: Cesar Greco / Fotoarena)

O Palmeiras ficou 20 dias sem jogar entre a eliminação no Campeonato Paulista e a estreia no Campeonato Brasileiro. Tempo para Cuca organizar melhor sua equipe e implantar suas ideias, já que o treinador alviverde assumiu a equipe no meio de uma maratona de jogos quarta/domingo. Cuca não conseguiu salvar a campanha na Libertadores e não foi campeão estadual, porém, a ótima estreia no Brasileiro após um longo tempo sem atuar animou a torcida palmeirense e mostrou um pouco daquilo que o treinador pretende para 2016.

A formação tática, como era de se esperar, continua sendo o 4-2-3-1. A novidade ficou por conta de Tchê Tchê, recém-chegado do Audax e titular na abertura do campeonato. O polivalente jogador começou como volante pela direita e trocou de posição com o lateral Jean inúmeras vezes na partida, inversão que, segundo Cuca, deve ser explorada em diversas ocasiões. Mais do que um jogador versátil, Tchê Tchê fez uma ótima partida: teve qualidade nos passes (acertou 91%) e apareceu em todos os setores do campo, com ou sem a bola. Foi uma das ótimas notícias da tarde alviverde, ofuscada pelo brilho individual de Gabriel Jesus e Cleiton Xavier.

Arte: Doentes por Futebol - Na estreia do Brasileirão, Cuca iniciou Tchê Tchê na volância e Jean na lateral, mas explorou a versatilidade de ambos com inversões

Arte: Doentes por Futebol – Na estreia do Brasileirão, Cuca iniciou Tchê Tchê na volância e Jean na lateral, mas explorou a versatilidade de ambos com inversões

Coletivamente, o Palmeiras apresentou mecanismos organizados e que devem nortear o trabalho de Cuca. A saída de bola era feita pelas beiradas, com o lateral. Ele recebia dos zagueiros e dois jogadores se aproximavam para oferecer opções de passe: o volante (escolha conservadora, que visa manter a posse) e o ponta (escolha ofensiva, buscando o ataque). O meia central Cleiton Xavier se posicionava entre as linhas do adversário e não participava ativamente da saída, aguardando a bola em posições mais avançadas. O lado mais utilizado frente ao Atlético-PR foi o esquerdo e o Palmeiras teve Egídio (107) e Mateus Sales (88) como jogadores que mais tocaram na bola.

Foto: Reprodução/SporTV - Lateral (Egídio) fazendo a saída de bola e contando com a aproximação do volante (M.Sales) e do ponta (G.Jesus)

Foto: Reprodução/SporTV – Lateral (Egídio) fazendo a saída de bola e contando com a aproximação do volante (M.Sales) e do ponta (G.Jesus)

Na organização ofensiva, Cuca apostou em ocupar a região próxima a bola com seu quarteto ofensivo. O ponta do lado oposto ao da jogada centralizava, alguém dava profundidade (geralmente Lucas Barrios) e os outros dois apareciam entre as linhas de defesa e meio-campo do adversário. O lateral sempre se fazia presente quase colado à linha de lado e participava oferecendo opções de passe, ultrapassagens ou fazendo tabelas. A ideia era agrupar e tabelar em velocidade para desorganizar o oponente e chutar a gol.

https://youtu.be/gs170-ys1W0?t=50s

Essa aproximação dos jogadores de ataque ficou evidente no segundo e quarto gol da partida. O time recupera a bola no campo ofensivo e rapidamente os homens de frente se aproximam, trocam passes e finalizam.

Foto: Reprodução/SporTV - Ponta do lado oposto (R.Guedes) centraliza, lateral (Egídio) ultrapassa aberto, C.Xavier dá profundidade, G.Jesus e L.Barrios entre as linhas rubro-negras

Foto: Reprodução/SporTV – Ponta do lado oposto (R.Guedes) centraliza, lateral (Egídio) ultrapassa aberto, C.Xavier dá profundidade, G.Jesus e L.Barrios entre as linhas rubro-negras

Fazendo isso o Palmeiras consegue ocupar a área adversária com muitos jogadores. Frequentemente, o time alviverde chegou com cinco homens na região mais importante do jogo. Dessa forma, caso a finalização não resulte em gol, meio time estará próximo à bola para tentar pegar o rebote. Na primeira rodada, Tchê Tchê foi esse quinto jogador em diversos ataques, mas os dois laterais também apareceram com alguma regularidade no terço final do gramado.

Sem a bola o Palmeiras teve a cara de seu treinador: marcação por setor, muita intensidade e pressão na saída de bola adversária. O Furacão tinha muita dificuldade quando tentava sair do seu campo com a bola no chão, tendo que utilizar a ligação direta em diversos momentos. Barrios pressionava o zagueiro que estava com a bola, o restante do quarteto ofensivo encaixava nas opções de passe mais próximas e Tchê Tchê grudava no volante que sobrava. Sob muita pressão, restava ao time curitibano a bola longa.

Foto: Reprodução/SporTV - Pressão encaixada do Palmeiras na saída de bola do Furacão. Barrios pressiona o homem da bola e Tchê Tchê acompanha o recuo volante

Foto: Reprodução/SporTV – Pressão encaixada do Palmeiras na saída de bola do Furacão. Barrios pressiona o homem da bola e Tchê Tchê acompanha o recuo volante

No campo defensivo, o time de Cuca mostrou as deficiências de uma marcação por setor. Nesse tipo de marcação o foco está nos adversários, não no espaço. O que isso quer dizer? Que os jogadores vão se preocupar em marcar o oponente, se aproximando dele e diminuindo o tempo e o espaço que ele terá caso receba a bola. O problema é que ao fazer isso a equipe se molda de acordo com o posicionamento do oponente e abre espaços para que ele possa jogar.

O Palmeiras conseguiu compensar esses espaços com muita intensidade. Mesmo que tivesse o espaço livre, os jogadores do Furacão eram imediatamente pressionados e tinham dificuldade em jogar. Ainda assim, algumas escapadas aconteceram e os comandados de Cuca tiveram de correr atrás para recuperar. Por ser um mecanismo que depende muito do individual (marcação próxima, desarme, velocidade, atenção, etc) é mais fácil dar errado, já que os jogadores não farão uma partida perfeita a cada rodada. Exigirá muito física, técnica e mentalmente dos jogadores palestrinos, mas é como Cuca gosta de armar suas equipes.

Foto: Reprodução/SporTV - Tchê Tchê sobe para pressionar a bola e M.Sales afunda com o adversário. O resultado é um grande espaço desocupado pelos palmeirenses por conta da marcação por setor

Foto: Reprodução/SporTV – Tchê Tchê sobe para pressionar a bola e M.Sales afunda com o adversário. O resultado é um grande espaço desocupado pelos palmeirenses por conta da marcação por setor

Com a aplicação e intensidade que teve na abertura do Brasileiro, o Palmeiras conseguiu roubar a bola e sair em contra-ataques rápidos. De modo geral, levou muito perigo explorando a velocidade de Gabriel Jesus e Roger Guedes em profundidade. Caso queira dar ainda mais rapidez ao seu ataque Cuca tem ainda Dudu e Erik, opções que devem passar pela cabeça do treinador para partidas em que o foco defensivo será maior.

O desempenho do Palmeiras após 20 dias sem futebol foi muito bom. Se alguém tinha dúvida sobre o ritmo de jogo do elenco alviverde, agora tem a certeza de que o tempo foi bem utilizado para trabalhar conceitos táticos com os jogadores. Durante a pausa, Cuca garantiu que o Palmeiras brigaria pelo título nacional e deu as caras do time com a grande atuação na estreia. Ainda faltam 37 rodadas e de nada adianta fazer apenas um grande jogo num campeonato de pontos corridos.

Fato é que, após um período de futebol pobre com Marcelo Oliveira, o alviverde imponente começa a se montar para o Brasileirão.

Números: WhoScored

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Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.