O curioso caso de Aritz Aduriz

  • por Victor Mendes Xavier
  • 4 Anos atrás

“Esta é minha ultima vontade em testamento. Não tenho muito pra deixar, algumas posses e pouco dinheiro. Vou deixar esse mundo da mesma maneira que cheguei, só e sem nada. Tudo que tenho é minha história e estou escrevendo enquanto me lembro. O meu nome é Benjamin, Benjamin Button.”
(‘Benjamin Button’, 2009)

Arte DPF

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Aritz Aduriz soma 34 gols até o momento na temporada. A média do centroavante é de 0,66 tentos por jogo, o que equivale, mais ou menos, a marcar dois gols a cada três jogos. O desempenho é digno de um classe mundial da posição, daqueles que no inflacionado mercado da atualidade valem cerca de 50 milhões de euros. Aduriz, é bom frisar, tem 35 anos. O basco é um craque? Não sei. É um herói? Com certeza, especialmente para o Athletic Bilbao. Os feitos do atacante há quase três temporadas beiram ao impressionante e resgatam o orgulho de clube sempre sofrido. Aduriz é muito mais que um goleador. É um ícone para a Euskara. Um ‘9’ à altura da camisa e da lendária história que envolve o clube de San Mamés.

O super-herói no futebol tem muitos trabalhos. De domingo a domingo é um vendedor de esperança. Um motivo de alegria e esperança para o torcedor, que não deixa de pensar em seu time nem quando dorme. O aficionado sonha com a sua estrela, com os gols que fará e as partidas que vencerá. O fim de semana é a hora do herói. Seu objetivo é claro: trazer a vitória em prol da felicidade de sua torcida. Aduriz é um herói por sua fiabilidade. E poucos, no futebol espanhol, estão na primeira classe dessa categoria. O Athletic Bilbao vai, novamente, disputar uma competição europeia na temporada que vem. E vai porque tem esse aguerrido camisa 20 que disputa cada bola visando o triunfo.

São três os nomes que definem a posição de atacante do Athletic no século XXI: além de Aduriz, Ismael Urzáiz e Fernando Llorente cravaram seus nomes na galeria de ídolos dos Leões. Urzáiz foi durante dez anos o titular da posição. Foram 116 gols marcados só no Campeonato Espanhol. Um tanque, de 1,90, magnífico no jogo aéreo. Em Bilbao, destacou-se tanto individualmente (artilharia da Liga), como coletivamente (vice-campeão em 1997/1998). As boas atuações com a camisa rojiblanca fizeram-o frequentar a Seleção Espanhola. Na Eurocopa de 2000, fez dupla de ataque com Raúl. A Catedral amava Urzáiz. E seu sucessor viria das canteras.

Ismael Urzáis e Fernando Llorente, atacantes históricos do Athletic || Arte DPF

Ismael Urzáis e Fernando Llorente, atacantes históricos do Athletic || Arte DPF

Cinco centímetros mais alto, Fernando Llorente parecia um clone do seu jogador preferido.

Mas ambos eram diferentes: Llorente não era tão aguerrido, mas em compensação tinha uma técnica refinada. O auge da carreira do Rei Leão, como é conhecido, foi justamente no Athletic Bilbao mais talentoso do século, orquestrado por Ander Herrera no meio-campo, defendido por Javi Martínez na zaga e com as onipresentes participações de Susaeta, De Marcos, Iraola e o driblador Muniain. Tudo isso comandado por um “louco”: Marcelo Bielsa, responsável por construir um memorável time capaz de silenciar Old Trafford, Alex Ferguson e o Manchester United. Aquela campanha do Bilbao na Liga Europa 2011/2012, mesmo que concluída com o vice-campeonato contra o esboço de Atlético de Madrid de Simeone, nunca mais será esquecida.

Llorente fez temporada de melhor centroavante do mundo, e a missão de Aduriz ao regressar a Bilbao não seria fácil. Três anos depois, nosso protagonista mostra que tirou o exame com facilidade. Tanto no esportivo, como no emocional, Aduriz elimina toda a carga e responsabilidade que tem o Athletic tem que honrar. É muito mais que os 119 gols, ou a brutal média de 0,44 por partida. Nem sequer o fato de ter feito quatro gols no Barcelona de Messi para levantar um troféu, feito que acabou com um incômodo jejum de mais de 30 anos sem títulos por parte da instituição. Aduriz tem um aroma de herói irredutível capaz de sustentar a fé do clube. E isso ele elevou acima de Urzáiz e Llorente.

O peso de substituir Llorente não foi a única tarefa para Aduriz. O fez em uma etapa de transição perigosa, com as saídas progressivas de figuras centrais daquele time de 2012. O lógico era imaginar San Mamés se derretendo de tristeza e lágrimas por um ciclo demasiado breve. E esse quadro depressivo poderia atingir os jogadores dentro de campo. Havia quem apostava no Bilbao retornando à fase negra de 2006 a 2008, quando brigou duas vezes consecutivas para evitar uma inédita queda à segunda divisão. Só não aconteceu em grande medida por Aduriz.

Em âmbito esportivo, o donostiarra, mesmo sendo a estrela do elenco, encara qualquer cenário como se fosse mais um. Se o Athletic visita um Camp Nou palpitante, Aduriz se junta a todo o sistema defensivo e triunfa. Se o Real Madrid vai ao País Basco no pior momento do seu time no ano, será Aduriz o encarregado de fazer a torcida sonhar. Aduriz permite a Ernesto Valverde dar oportunidades a garotos da base, como Eraso e Sabin Merino, e de facilitar o trabalho de Susaeta e De Marcos e formar uma brava dupla na frente com Raúl García. Poucos são tão imprescindíveis para seu clube como esse rapaz de 1,82. O caso de Aduriz é diferentes de Rubén Castro, Lucas Pérez ou Borja Baston, por exemplo, donos de boas temporadas. Vai mais além. Aduriz, hoje, é um jogador dominante em La Liga.

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As últimas convocações de Del Bosque acenam com a viagem de Aduriz à França para representar a Espanha na Eurocopa. Para o basco, o cenário será outro, totalmente diferente do que frequente habitualmente. Na Roja, Aduriz será um novato, sem nenhuma história especial. De qualquer maneira, vai oferecer dúvidas. Na teoria, a adaptação não deveria ser traumática: basta Aduriz mostrar todo seu potencial para conquistar a confiança de um sempre conservador Del Bosque. Mas ser o centroavante da seleção é um elemento muito particular desde 2008, e às vezes não é simples dissecar quais qualidades necessita a Espanha de seu goleador. Diego Costa, por exemplo, sofre, pois não consegue exibir seu poderio físico devido à ausência de espaços – sem contar na falta de confiança. Desde o fracasso na Copa de 2014, Del Bosque viu somente Paco Alcácer valer a convocação com um futebol no mínimo decente.

Às vezes, o ataque do Athletic peca por ser previsível e mecânico, salvo quando, com um de seus gestos, Aduriz muda por completo o sistema ofensivo. Porque, na realidade, é essa a sua função: dar sentido às jogadas. O Benjamin Button do futebol condiciona o contexto tático de seu time de uma maneira que tudo necessita passar pela sua potente figura, que eleva as possibilidades competitivas dos bascos. Aduriz é um “falso tanque” e sabe administrar um espaço como poucos na posição. A Espanha necessita de Aduriz, o eterno super-herói de San Mamés.

 

Foto: Divulgação Athletic Bilbao

Foto: Divulgação Athletic Bilbao

 

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected]bo da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.