O toque mágico de Mesut Özil

  • por Gregor Vasconcelos
  • 3 Anos atrás
Foto: Arsenal.com (site oficial)

Foto: Arsenal.com (site oficial)

Um tema interessante desse final de temporada na Inglaterra tem sido a ausência de Mesut Özil das principais premiações individuais da Premier League. O jogador foi um dos seis indicados ao premio de melhor jogador da PFA (Associação de Jogadores Profissionais, responsável pelas principais premiações do futebol no país), mas na escolha escolha para o time da temporada na Inglaterra, foi preterido por Payet, assim como nas escolhas do próprio DOENTES POR FUTEBOL.

À primeira vista, isso é facilmente explicável pela queda do Arsenal depois do mês de janeiro. Neste período, o clube londrino foi de líder e favorito à competição a uma disputa pelo quarto lugar, até finalmente terminar em segundo, ainda 10 pontos atrás do campeão Leicester. Mas a queda do time não representa a queda de um jogador. Os 6 gols e 19 assistências de Özil merecem reconhecimento além do fracasso coletivo dos Gunners.

Os recordes quebrados

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Com 16 assistências já ao final de dezembro, todos esperavam que Özil fosse quebrar o recorde na Premier League de 20, estabelecido por Henry em 2003. Apenas 3 assistências em 2016 parecem denotar uma queda brusca na performance do Alemão. Porém, como criador, Özil é dependente daqueles à frente dele e, talvez, a fase escassa de Giroud – que não marcou um gol na liga entre janeiro e maioexplique em parte a queda dos números de Mesut. Mesmo assim, 19 assistências é um numero impressionante. O segundo maior na história da Premier League e maior que qualquer outro jogador nas cinco principais ligas europeias desta temporada. Um numero que também fez dele o primeiro jogador a terminar a temporada como melhor assistente nas três principais ligas europeias da atualidade: Alemanha, Espanha e Inglaterra.

Se formos olhar os números de Özil isoladamente, eles são ainda mais impressionantes. Em 2015-2016, o alemão criou um total de 142 chances para seus companheiros. Quantidade não superada por jogador algum em qualquer das principais ligas europeias desde 1996 (quando a coleta de dados começou).

Mesmo com a queda de rendimento do Arsenal, o motor do time nunca parou de funcionar. Os problemas foram em outras partes da máquina, que funcionou com extrema fluidez na primeira metade da temporada.

Uma atuação altamente simbólica foi na vitória por 1-0 sobre o rebaixado Norwich, já no final da temporada. O alemão, tentando dar ímpeto a um time letárgico, se via visivelmente frustrado em campo quando suas tentativas eram constantemente arruinadas por um domínio errado de Olivier Giroud ou passe errado de Aaron Ramsey. Nesta partida, ele deu um dos passes mais impressionantes da temporada, que Alexis Sánchez chutou em cima do goleiro.

Pipoqueiro?

Talvez a principal mudança de Özil tenha sido em sua atitude. Previamente criticado por seu porte fraco e se esconder em campo nos momentos difíceis, o jogador parece ter abandonado de vez este estigma.

As críticas na Terra da Rainha sempre foram injustas. A Inglaterra gosta de jogadores que apareçam com seus carrinhos e mostras de paixão, ou com velocidade e golaços. Özil é sua antítese. Sutil, com seu jogo baseado na inteligência de seu movimento – grande parte dele sem a bola – muitas de suas contribuições mais importantes passam desapercebidas. O mesmo não pode ser dito do buraco que ele deixa quando desfalca os Gunners, um vazio sentido pelo Arsenal por três meses na temporada 2014/15.

Enquanto os Gunners seguiam em frente, aos trancos e barrancos, carregado por Sánchez, Özil aproveitou seu tempo fora dos relvados para se redefinir como jogador. Em sua volta, contra o Stoke, já era nítida a mudança física do alemão. A mudança de porte físico não mudou o seu estilo radicalmente. Foi apenas um marco: o frágil e tímido Özil deixou de existir.

Essa mudança de atitude foi nítida na vitória por 2-0 contra o Bayern, em outubro. O gol, aos 48 do segundo tempo, para selar a vitória em Londres, era um enorme peso tirado das costas de Özil. Um peso que o alemão carregava há quase dois anos, depois do pênalti perdido contra os bávaros. Um peso que assombrava e parecia o marco do fim do caso de amor da torcida com o jogador.

Outrora criticado como pipoqueiro, Özil era agora o homem mais confiável do Arsenal. Nos jogos importantes, onde antes seu sumiço era esperado, ele era o que mais se destacava.

Chx1r5tXEAIi4zvLeicester: 2 assistências (2 jogos)
Tottenham: 1 assistência (2 jogos)
Manchester City: 2 assistências (1 jogo)
Manchester United: 2 gols e 2 assistências (2 jogos)

A estatísticas acima já dão uma boa indicação de sua contribuição nestas partidas, mas em contexto, suas atuações foram ainda mais importantes.

A primeira partida, contra o Manchester United, via os Red Devils na primeira posição e o Arsenal tentando se recuperar de uma derrota para o Olympiakos em casa. Aos sete minutos, Özil já tinha acabado com o jogo. Recebendo passe de Theo Walcott, ele dobrou a vantagem do Arsenal, que já havia aberto o placar com Alexis – o cruzamento veio de Özil, claro. Contra o Manchester City, foram 2 assistências – uma para Walcott e outra para Olivier Giroud – que mandaram o Arsenal para a liderança.

Quando os Gunners mostraram mais dificuldades, foi Mesut quem os resgatou. Contra o Tottenham, quando perdia por 1-0, o alemão resolveu mudar o jogo. Foram sete chances criadas além do cruzamento certeiro para Kieran Gibbs empatar a partida.

https://www.youtube.com/watch?v=DUl0cHFwt-E

50 minutos do segundo tempo, e o time precisando mais do que nunca de inspiração para não ver suas chances de título morrerem? Lá estava Özil, botando a bola na cabeça de Welbeck e ousando desafiar o conto de fadas do Leicester.

Infelizmente, sua contribuição não foi o suficiente em Old Trafford duas semanas depois. O Arsenal perdeu por 3-2, apesar do gol e assistência do alemão.

https://www.youtube.com/watch?v=APruC9IU_Rg

Esta última partida talvez seja o melhor microcosmo para explicar a temporada de Özil neste time do Arsenal: brilhante, porém, não o suficiente para carregar o frágil elenco até a linha de chegada.

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Torcedor fanatico do Arsenal e do Flamengo, Gregor é fã de longa data da Premier League, acompanhando a liga avidamente há 10 temporadas. Formado em linguística inglesa pela universidade King's College em Londres, agora faz mestrado em linguistica e literatura na universidade de Zurich. Colunista da extinta revista "Doentes por Futebol", hoje é o editor de futebol inglês no site.