Paulo Bento chega para dar identidade ao Cruzeiro

  • por Levy Guimarães
  • 3 Anos atrás

Já se passaram cinco meses e o Cruzeiro ainda tenta se encontrar em 2016. Durante todo o Campeonato Mineiro, o técnico Deivid tentou implantar a sua filosofia – inicialmente, de muito toque de bola, movimentação e marcação alta. Mas em nenhum momento conseguiu passar para a prática o que tinha no plano das ideias. Utilizou diferentes esquemas táticos (4-3-3, 4-2-3-1, 4-1-4-1…) e, em todos eles, o time demonstrava problemas de criação, volume de jogo e compactação tanto na defesa como no ataque. Em resumo, esteve longe de ser uma equipe, na acepção da palavra.

Dezoito dias depois da demissão de Deivid, a diretoria celeste finalmente anunciou o sucessor do ex-atacante: o português Paulo Bento, quatro vezes vice-campeão português (de 2005 a 2009) com o Sporting, onde conquistou duas Taças de Portugal e duas Supertaças. Em 2010, assumiu a seleção portuguesa, tendo chegado às semifinais da Eurocopa (caiu nos pênaltis contra a Espanha) e caído logo na primeira fase da Copa de 2014. Mas para além desses resultados, o que ele traz para o clube mineiro?

Paulo Bento é, acima de tudo, um técnico muito seguro das suas convicções. Não é daqueles que lançam o time para frente a todo custo, mas longe também de ser um “retranqueiro”. Tanto no Sporting como na seleção portuguesa, seu primeiro objetivo ao assumir foi buscar uma defesa sólida. Não só quando o time é atacado, mas que também não deixe buracos para o contra-ataque adversário. Preza muito por meio-campistas de bom passe, que façam a bola rodar pelo campo de ataque, buscando sempre jogadores agudos e habilidosos pelos lados do campo. Por isso, nas duas equipes que comandou tinha como um dos pilares João Moutinho no meio e Nani como uma dessas válvulas de escape – além, é claro, de Cristiano Ronaldo na seleção.

Paulo Bento e Cristiano Ronaldo

Dentro desse estilo de jogo, conseguiu marcas importantes com o Sporting: disputou o título português por quatro anos tendo orçamentos bem mais modestos que os rivais (principalmente o Porto); foi o primeiro e até hoje o único treinador a levar o clube a três edições seguidas da Liga dos Campeões (por isso, é o treinador com mais partidas pelo clube em competições europeias) e fez os Leões chegarem pela primeira vez nas oitavas-de-final da Champions, em 2008. Na temporada 2006/2007, teve uma das melhores defesas da Europa, com 15 gols sofridos em 30 rodadas e saiu do clube como o 2º treinador com mais jogos na história leonina.

 Os primeiros anos de trabalho pela seleção portuguesa só confirmaram a ascensão do treinador. A campanha de destaque na Euro 2012 deixou uma excelente impressão após Portugal ter eliminado a Holanda na primeira fase (e com certa autoridade) e ter enfrentado nas semifinais, de igual pra igual, a Espanha. Por muito pouco, os lusitanos não chegaram à final, e a derrota nos pênaltis fez a seleção das Quinas sair de cabeça erguida. Porém, foi a partir daí que um dos defeitos de Paulo Bento ficou evidente: a intransigência no trato com os jogadores. Se no Sporting sua saída se deveu ao desgaste com o elenco, na seleção a situação foi parecida, causando uma queda gradual de rendimento do time, até o fracasso na Copa disputada no Brasil.

O fato de ter se acostumado a, desde cedo, trabalhar com jovens, pode ser muito importante para o Cruzeiro. Paulo Bento, que já revelou João Moutinho, Nani, Rui Patrício, Miguel Veloso e Adrien Silva (peça-chave no Sporting atual) em Portugal, vai ter a chance de lapidar jogadores de bom potencial como Marcos Vinícus, Alisson, Lucas Romero, Arrascaeta, Marciel e Judivan. E ainda vai ter a nada fácil missão de recuperar o futebol de Mayke.

Tendo como base os esquemas táticos que ele adotou nesses anos de carreira (4-4-2 com meio em forma de losango e 4-3-3), é provável que aproveite a dupla Romero-Cabral no meio, seja para compor os lados do losango no 4-4-2 ou, com mais liberdade para apoiar, fazendo parte do “trivote” em um 4-3-3. Já a utilização de Arrascaeta e Marcos Vinícius fica em aberto, pois já atuaram tanto pelo centro como pelas pontas. O mesmo vale para Willian. Alisson, por outro lado, pode se dar muito bem caso seja adotado um esquema com três atacantes, mas talvez precise se adaptar tendo que fazer parte de uma dupla de ataque. Outro ponto que fica em dúvida é: como o elenco vai reagir a um disciplinador? Não parecia ser esse o problema do Cruzeiro sob o comando de Deivid. O time se esforçava, corria, mas faltava organização.

Foto: Cruzeiro Esporte Clube\Oficial

A vinda de Paulo Bento é mais um bom sinal de que os clubes brasileiros começam a buscar novas alternativas aos nomes já carimbados do mercado doméstico. Ele deve chegar ciente de alguns problemas do nosso futebol: calendário sufocante, constante troca de técnicos, limitações financeiras perante outros centros, falta de um planejamento a médio/longo prazo e por aí vai. Mas se aceitou vir para o Cruzeiro, é porque acredita que, na Raposa, a história pode ser diferente.

Resta saber se vai ter tempo, respaldo e capacidade de se adaptar às particularidades daqui – ou se vai ser só mais uma experiência frustrada de técnico estrangeiro.

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Estudante de Jornalismo e redator no Placar UOL Esporte, belo-horizontino, apaixonado por esportes e Doente por Futebol. Chega ao ponto de assistir a jogos dos campeonatos mais diversos e até de partidas bem antigas, de décadas atrás.