Quando a realidade supera o videogame

  • por Henrique Souza
  • 3 Anos atrás
Um time cuja grande estrela é o coletivo: esse é o Leicester. Foto: Leicester City/Facebook/Reprodução

Um time cuja grande estrela é o coletivo: esse é o Leicester. Foto: Leicester City/Facebook/Reprodução

Quem é fã de Football Manager ou de algum jogo de futebol já deve ter tido a gostosa sensação de escolher um time teoricamente fraco, montar uma tática simples, contratar alguns “craques” escondidos em países vizinhos ou em divisões inferiores e no final se sagrar campeão. Pois foi mais ou menos isso que aconteceu com o Leicester nesta temporada. Com um detalhe: a realidade é ainda mais incrível do que o mundo virtual.

Contando com uma boa dose de sorte, o esquema se encaixa, os jogadores rendem ao máximo e você é campeão. Essa prazerosa sensação, tão comum em games de futebol e cada vez mais rara na vida real, é exatamente o que o Leicester City está vivendo nesse momento.

Os comandados de Claudio Ranieri tiveram um final feliz em uma das maiores histórias de superação e redenção que este esporte já viu. Seria injusto citar apenas um nome como maior responsável pelo título. As defesas de Schmeichel, a seriedade de Huth e Morgan, a vitalidade de Kanté, a magia de Mahrez, o faro de gol de Vardy, a liderança de Ranieri… Todos tiveram sua valiosa parcela de contribuição para colocar o Leicester no topo do futebol inglês.

A história do Leicester também poderia muito bem ser de filme. Um daqueles clássicos, que fala de volta por cima. Volta por cima de uma equipe que há pouco mais de um ano brigava para não cair e agora não vê ninguém à sua frente na tabela. Volta por cima de jogadores como Kasper Schmeichel, que agora pode se orgulhar de alcançar ao menos um pouco do sucesso que o pai Peter atingiu. Volta por cima também de Marc Albrighton, que surgiu como grande promessa no Aston Villa e hoje desempenha papel importante nos Foxes. Mas um nome traduz exatamente a redenção nesse time: Claudio Ranieri.

 

Ranieri foi um dos grandes símbolos da brilhante campanha do Leicester. Foto: Leicester City/Facebook/Reprodução

Ranieri foi um dos grandes símbolos da brilhante campanha do Leicester. Foto: Leicester City/Facebook/Reprodução

Um técnico experiente, mas sem grandes conquistas. Com passagens por grandes clubes, mas acumulando fracassos em levá-los ao topo. Foi assim no Chelsea, no Valencia, na Inter, na Roma… Seu último trabalho, na Grécia, foi péssimo. Após não ter conseguido classificar a seleção para a Euro 2016, se despediu da equipe após uma vexatória derrota em casa para as Ilhas Faroe. Quem apostaria que ele se transformaria em campeão inglês? O Leicester apostou. E se deu bem. Ranieri fez o simples. Mas fez o suficiente. Soube aproveitar as características dos seus jogadores e maximizar as suas virtudes.

Um time sem estrelas e sem estrelismos. Armado no 4-4-2 tão comum na Inglaterra, o Leicester soube que passava longe de ser o mais qualificado tecnicamente da Premier League. A marcação implacável, a defesa sólida e os contra-ataques fulminantes não têm nada de inovador para o futebol. Os passes são em sua maioria longos e o time não se importa em não ter a bola. Mas quem disse que é preciso inventar para vencer? Uma equipe que joga com uma intensidade impressionante, ligada nos 220v. Um futebol que não é o mais bonito, mas que de modo algum é feio.

Claro que os Foxes também se beneficiaram da temporada decepcionante de times como Chelsea e Manchester City. As maiores equipes do país foram extremamente irregulares ao longo da competição, ao contrário do Leicester, que manteve a pegada e mesmo nas derrotas não se abalou. Também é exagero pintá-lo como um time pobre e sem recursos. Isso não é verdade. Embora também seja mais do que óbvio que os cofres não são tão cheios como os de um Arsenal ou Manchester United.

https://www.youtube.com/watch?v=SYp6hi-ICA0

Pesa a seu favor também a mão certeira nas contratações. Riyad Mahrez, eleito craque do campeonato, custou apenas £ 400 mil. O argelino é o Jogador do Ano mais barato da história da Premier League. Merece destaque o trabalho do chefe dos olheiros do clube, o inglês Steve Walsh, responsável por intermediar as contratações de Mahrez, Kanté e Vardy, principais jogadores do Leicester atualmente.

A brilhante campanha do Leicester não poderia ter passado despercebida pelos mais de 300 mil habitantes da cidade inglesa. A trajetória do clube mobilizou toda a comunidade, criando uma grande “família” entre os moradores do condado de Leicestershire. A confiança em Claudio Ranieri e seus comandados era tanta que um dia antes dos jogo decisivo contra o Manchester United, a cidade foi toda decorada de azul e ações envolvendo jogadores do clube aconteceram por toda a parte, com direito a participação até do prefeito. E o título veio com uma dose de sorte, após o empate do Chelsea (após estar perdendo por dois gols) com o Tottenham. Sorte que sempre acompanhou o Leicester nesta temporada.

Incrível, inesperado, extraordinário, magnífico, surpreendente… Muitos são os adjetivos que podem descrever a memorável (olha mais um aí) temporada dos campeões ingleses. Para a sorte dos torcedores, todos são verdadeiros. Mas a vitória do Leicester não é apenas dos seus torcedores. É uma vitória do futebol.

Comentários

Doente por futebol desde que se conhece por gente. Formado em Educação Física e estudante de jornalismo. Apaixonado por jogos e times clássicos. Considera Zidane, Ronaldo, Romário e Messi os maiores que viu jogar.