Santa Cruz: Uma fênix em preto, branco e vermelho

  • por Elcio Mendonça
  • 3 Anos atrás
Foto: Diego Nigro/JC Imagem - Com 6 gols em 3 jogos, Grafite é o destaque deste início da Série A

Foto: Diego Nigro/JC Imagem – Com 6 gols em 3 jogos, Grafite é o destaque deste início da Série A

Segundo a mitologia grega, a fênix era um pássaro que entrava em combustão quando morria, renascendo das próprias cinzas. Quiseram os deuses do futebol que a versão brasileira da ave viesse do Arruda, bairro localizado na zona norte do Recife.

Há 10 anos o Santa Cruz disputou pela última vez a Série A do Campeonato Brasileiro, vivendo após isso em queda livre, uma impetuosa viagem aos porões do esporte bretão, amargurando anos entre as terceira e quarta divisões do Brasileirão.

2011 foi um marco na ressurreição tricolor. Trata-se do ano em que acabou o jejum de seis temporadas sem títulos no Campeonato Pernambucano, além do acesso à Série C do Brasileiro.

A data em questão não é uma mera coincidência. A chegada de Antonio Luiz Neto à presidência significou importantes mudanças na gestão. Para arrumar a casa, realizou uma auditoria nas contas do clube, descobrindo cobranças indevidas e duplicatas. Somando isso à negociação de outros débitos, conseguiu reduzir a dívida do clube em mais de 60%.

O sucesso da política tributária possibilitou o desbloqueio das receitas do clube. O próximo passo foi confiar na força de sua apaixonada torcida. Mais do que o incentivo das arquibancadas, tal apoio teve forte impacto nas receitas. Algo extremamente importante para quem estava longe das cotas de transmissão.

Foto: Divulgação/Santa Cruz - A torcida coral teve fundamental importância na recuperação da equipe

Foto: Divulgação/Santa Cruz – A torcida coral teve fundamental importância na recuperação da equipe

Além disso, apostou na responsabilidade financeira para não estourar as contas. Gastar menos do que recebe virou um mantra pelos lados do Arruda. Nem mesmo Grafite, grande nome do elenco atual, foge do teto salarial estabelecido pelo time. Algo comum para qualquer administrador, mas que não era levado em conta por lá antigamente.

O clube coral, em três anos, emendou um tricampeonato estadual e o retorno à Série B. Foi assim que ALN terminou sua gestão, passando o bastão em 2015 para o aliado Alírio Moraes, que teve grande participação no processo de redução das dívidas no time pernambucano.

O atual presidente conquistou o bicampeonato estadual e a inédita Copa do Nordeste, que dará ao Tricolor a chance de disputar as próximas duas edições da Sulamericana. Pela primeira vez o Santa Cruz disputará uma competição internacional oficial.

Também vale ressaltar Constantino Júnior, o Tininho, no clube desde 2011 (primeiro como vice de futebol, agora como vice presidente do clube) e que desempenha importante papel no planejamento do departamento de futebol.

Mas não será fácil a missão na Série A. Os corais estão, ao lado de Ponte Preta, Figueirense, Chapecoense e América Mineiro, no grupo dos clubes que recebem a menor cota de transmissão, algo em torno de R$20 milhões. Para efeitos de comparação, Corinthians e Flamengo, os que mais recebem da TV, lucram cerca de R$170 milhões cada um. Uma quantia 8,5 vezes maior.

O efeito Milton Mendes

Contratado em março deste ano, Milton Mendes mudou a cara do Santa Cruz. São 15 jogos de invencibilidade à frente da equipe, que hoje lidera o Campeonato Brasileiro, além dos títulos na Copa do Nordeste e no Pernambucano.

Catarinense de 51 anos, Mendes fez sua carreira como jogador em Portugal, aonde também aconteceu sua transição para o cargo de técnico. Se formou em terras portuguesas, conseguindo a licença mais alta da UEFA.

Foto: Divulgação/Santa Cruz - Formado em Portugal, Milton Mendes trouxe um "padrão europeu" ao Santa

Foto: Divulgação/Santa Cruz – Formado em Portugal, Milton Mendes trouxe um “padrão europeu” 

Vale reforçar que os lusos hoje são referência na formação de técnicos, tendo um centro de formação da UEFA, além de uma série de outros cursos e uma rica variedade de títulos sobre o assunto.

No Brasil sua carreira é recente. Começou em 2013 no Paraná Clube, depois passou por Ferroviária e Atlético Paranaense. Seu último trabalho antes de desembarcar no Tricolor foi no Kashiwa Reysol, do Japão. É notória a visão europeia que o treinador tem. Desde os métodos de treino à montagem da equipe, o Santa Cruz se mostra como um dos times mais bem armados do Brasileirão.

Atua em um 4-2-3-1 bastante compacto, com as duas linhas próximas e uma recomposição defensiva bastante ágil para encaixotar o meio campo adversário. Com a bola se mostra uma equipe que sabe jogar e trocar passes, apostando nos contra golpes em velocidade.

Foto: Reprodução/Sportv - As linhas compactas do Tricolor facilitam a recomposição da equipe

Foto: Reprodução/Sportv – As linhas compactas do Santa Cruz facilitam a recomposição da equipe

Grafite é o principal nome da equipe, a referência ofensiva. Não por acaso marcou seis gols em três jogos neste Brasileirão. Keno, que vive bom momento, e Arthur dão a amplitude no ataque, enquanto Fernando Gabriel é o responsável pela criação.

No sistema defensivo, Tiago Cardoso é a segurança embaixo das traves. O zagueiro Danny Morais e o volante Uillian Correia também merecem ser citados, compondo uma interessante espinha dorsal.

Não é exagero imaginar o Santinha, como é carinhosamente chamado por seus torcedores, se livrando sem sofrimento do rebaixamento, talvez até flertando com a zona de classificação para a Sulamericana (5o ao 12o lugar). Depende, é claro, de como seu elenco se comportará na maratona de 38 jogos do Brasileirão. Nada mau para quem acaba de retornar à elite…

Comentários

Jornalista pós graduado em Gestão Aplicada ao Esporte e um doente por futebol. Trabalha atualmente como gerente executivo de esportes na RedeTV! e já passou por Esporte Interativo, Náutico, Portuguesa e Santo André.