A “Titebilidade” chega à Seleção

  • por Elcio Mendonça
  • 3 Anos atrás
Foto: Daniel Augusto Jr./ Corinthians - Tite chega com a missão de recolocar o Brasil nos trilhos

Foto: Daniel Augusto Jr./ Corinthians – Tite chega com a missão de recolocar a Seleção nos trilhos

Adenor Leonardo Bacchi. Em um momento de turbulência no futebol brasileiro, um nome capaz de unir a opinião pública. Mesmo a corrente que preferia a contratação de um técnico estrangeiro vê com bons olhos a chegada do gaúcho de 55 anos ao comando da Seleção. Campeão de tudo o que é possível no futebol brasileiro, Tite terá pela frente aquele que promete ser o principal desafio da sua carreira.

Maior vencedor na história das Copas, o Brasil vive uma crise que se arrasta pelos últimos anos. O problema vai além do 7 a 1 sofrido pela Alemanha. A Canarinho se mostra atrasada no que diz respeito à gestão do futebol e isso se reflete em campo. A Seleção tem dificuldade em acompanhar a evolução que acontece ao redor do mundo, mesmo tendo a maioria dos jogadores atuando na Europa.

Nesse cenário, o ex-técnico do Corinthians terá como missão recolocar a equipe brasileira nos trilhos e assegurar uma classificação sem sustos para o Mundial de 2018. Parece pouco para um país pentacampeão do mundo, mas vale lembrar que se as Eliminatórias acabassem hoje o Brasil sequer teria uma vaga na repescagem.

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Os desafios não são pequenos. Tite, que já recebeu propostas de Japão e México, e recusou uma sondagem da própria CBF no ano passado, precisará se adequar rapidamente à rotina de um treinador de seleção. Se encontrar com o elenco poucas vezes no ano, tendo apenas alguns dias para montar o time, é uma realidade bem diferente de um clube, por exemplo.

Mais do que isso, precisará moldar um modelo de jogo coletivo bem sucedido e que seja capaz de minimizar a dependência de Neymar. No Timão ele conseguiu, apostando nisso, extrair o melhor futebol de Renato Augusto e Jadson. O time não jogava para a dupla, mas a organização da equipe propiciou um ambiente favorável para a grande evolução de ambos.

O maior problema, talvez, está fora de campo. Tite precisará lidar com uma contestada diretoria da CBF, que se encontra sob a mira do FBI, vale lembrar, e é a principal culpada pelo atraso no futebol nacional. Com uma visão antiquada, mais preocupada em fazer política do que em gestão, os comandantes da entidade máxima do esporte bretão estão mais acostumados a ouvir “amem” do que serem contestados em suas decisões.

Foto: Rafael Ribeiro/CBF - Viajar? Tô Fora! Na mira da CBF, Del Nero não acompanha a Seleção fora do país

Foto: Rafael Ribeiro/CBF – Viajar? Tô Fora! Na mira do FBI, Del Nero não acompanha a Seleção

Já o treinador, por sua vez, tem o perfil de deixar claro a sua posição a respeito dos assuntos que giram em torno de suas equipes. Foi assim no Corinthians, por exemplo, quando torcedores organizados tiveram acesso, com o aval da diretoria, ao CT Joaquim Grava para cobrar o elenco. O gaúcho criticou publicamente a atitude dos diretores alvinegros e saiu em defesa dos jogadores. A atitude criou uma saia justa para os dirigentes. Como ele se posicionará nas constantes divididas com a alta cúpula da Confederação Brasileira de Futebol?

O gaúcho precisará lidar não só com essas questões, mas também com a cobrança de uma torcida que não exige apenas bons resultados. Ela quer “ganhar bonito”, um conceito diferente do “torcedor de clube”. Um desafio à altura de Tite, mas o que podemos esperar dele?

Uma Seleção baseada no 4-1-4-1

Tite nunca escondeu sua preferência pelo 4-1-4-1, que, segundo ele, dá mais equilíbrio ao time. Foi assim que montou o Corinthians que conquistou o último Campeonato Brasileiro. Podendo convocar o elenco à sua maneira, sem precisar adaptar os conceitos táticos aos jogadores à disposição, o treinador deverá montar seu sistema de jogo a partir deste esquema tático.

Compactação e intensidade ofensiva

O técnico gosta de compactar seus times. Dessa maneira consegue solidez defensiva e, através de triangulações, intensidade ofensiva. Não era raro ver um Corinthians extremamente intenso, forçando o erro do adversário e atuando de forma vertical, quando joga em casa. Tite deve montar seu time assim, principalmente como mandante ou diante de adversários mais fracos.

Sem medo de contra atacar

Tite costuma montar equipes sólidas defensivamente e com uma transição veloz e vertical. No Corinthians alternava momentos de marcação alta com um linha mais baixa, convidando o adversário para o jogo. Tendo jogadores do calibre de Neymar, William, Douglas Costa e Philippe Coutinho para puxar os contra ataques, poderá, em jogos grandes, apostar nesta estratégia para surpreender os rivais.

Foto: Rafael Ribeiro/CBF - Capitão de Felipão na Copa, Thiago Silva perdeu espaço com Dunga

Foto: Rafael Ribeiro/CBF – Capitão de Felipão na Copa, Thiago Silva perdeu espaço com Dunga

Caminho livre para Thiago Silva e Marcelo

Thiago Silva e Marcelo aparecem em qualquer lista envolvendo os principais defensores do mundo, mas não tinham espaço na Seleção por conta de divergências com Dunga. A chegada de Tite deverá passar uma borracha nesses problemas e deixar o caminho livre para o retorno da dupla, que tem futebol suficiente para vestir a amarelinha.

Mais espaço para Renato Augusto?

Renato Augusto era o “motor” do meio campo corinthiano. Um legítimo jogador “box to box”, responsável pelas transições entre a defesa e o ataque do time de Tite. Apesar da eliminação precoce do Brasil, teve boas atuações na última Copa América e mostrou que a ida para a China, pelo menos por enquanto, não lhe trouxe prejuízo técnico. Terá mais espaço com a chegada do treinador?

Maior integração com a base

Tite é adepto do modelo de padronização tática. No Corinthians os times da base jogavam da mesma maneira que a equipe profissional. Uma forma de facilitar a adaptação dos jovens atletas quando são promovidos e criar uma identidade futebolística para o clube. Esse planejamento é comum na Europa, tanto nos times como nas seleções.

Foto: Divulgação - A vitória sobre o Chelsea no Mundial foi a única de um brasileiro sobre um europeu nos últimos 10 anos

Foto: Divulgação – Título mundial em 2012 é o ponto alto na carreira de Tite

A chegada do treinador significa um novo sopro de vida à Seleção. Uma tentativa de trazer novos conceitos para voltar a acompanhar a evolução do futebol pelo mundo.

Tite foi quem melhor entendeu isso no país, montando o Corinthians desde a sua passagem anterior através de conceitos europeus. Não por acaso o Alvinegro foi o único brasileiro que derrotou um time do Velho Continente em jogos oficiais nos últimos 10 anos. Caberá a ele, agora, recolocar o Brasil em seu devido lugar.

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Jornalista pós graduado em Gestão Aplicada ao Esporte e um doente por futebol. Trabalha atualmente como gerente executivo de esportes na RedeTV! e já passou por Esporte Interativo, Náutico, Portuguesa e Santo André.