Calma, Portugal!

  • por Elcio Mendonça
  • 3 Anos atrás
Foto: Divulgação/UEFA - Cristiano Ronaldo chutou 21 vezes, mas ainda não balançou as redes

Foto: Divulgação/UEFA – Cristiano Ronaldo chutou 21 vezes, mas ainda não balançou as redes

Poucos imaginavam que Portugal chegaria à última rodada da fase de grupos sem uma vitória sequer e com chance real de eliminação. Ainda mais com a expansão da Euro para 24 seleções, com dois terços delas se classificando para as oitavas de final, e diante de um um grupo teoricamente fácil, com Hungria, Islândia e Áustria.

É bem verdade que a Seleção das Quinas não jogou mal diante de islandeses e austríacos. Dominou as duas partidas, teve maior posse de bola (69,3% contra a Islândia e 61,8% diante da Áustria) e finalizou bastante. Ahhh, e como finalizou…

https://www.youtube.com/watch?v=JyzUpqHeY6Q

 

Ninguém chutou tanto em direção ao gol na Euro 2016 como os portugueses, que têm uma média de 25,5 remates por jogo, totalizando 51 em duas partidas. Para efeitos de comparação, a França, que já teve os três encontros da fase de grupos, chutou 46 vezes.

O problema é o baixo aproveitamento no terço final do campo. Apenas 19 vezes a bola, de fato, acertou a meta adversária. Ainda mais preocupante do que os 37% de rendimento em tal fundamento é o fato de ter balançado a rede uma única vez na competição europeia.

Nem Cristiano Ronaldo, que apresenta excelentes números no Real Madrid, escapa do baixo aproveitamento. Em solo francês foram 21 chutes, mas só seis acertaram o alvo. O camisa 7, inclusive, perdeu um pênalti contra a Áustria e sequer marcou um golzinho no torneio.

https://www.youtube.com/watch?v=5_vCsCEMkOE

É claro que o atacante não encontra na seleção portuguesa o mesmo nível técnico do time madridista. João Moutinho não é nenhum Modric e a única semelhança entre Nani e Bale é ter quatro letras no nome. Mesmo assim, Ronaldo perdeu oportunidades que não costuma deixar passar, em lances aonde dependia exclusivamente de si.

Aí entra outro problema, talvez o principal, do time comandado por Fernando Santos: o nervosismo. Por mais que isso não possa ser mensurado através de estatísticas, foi visível a intranquilidade dos jogadores de Portugal, traduzida na pressa para tentar resolver o jogo ou nas reações acentuadas quando as coisas não davam certo.

Foto: Divulgação/UEFA - O nervosismo tomou conta dos portugueses nesta Euro

Foto: Divulgação/UEFA – O nervosismo tomou conta dos portugueses nesta Euro

Portugal chegou à Euro pressionado pela eliminação na fase de grupos da última Copa. Além disso, precisa lidar com o fato de ser o protagonista da chave e com a estreia de alguns jogadores em uma competição desse nível. Soma-se a isso o fato de provavelmente se tratar da última Euro de Cristiano Ronaldo, que poderá encerrar a carreira sem um resultado expressivo como o principal jogador luso. CR7 foi titular no Mundial de 2006, quando os rubro-verdes chegaram à semifinal, mas “o cara” naquele time era Luís Figo.

A Seleção das Quinas se encontra em um início de transição. Fernando Santos promove uma certa oxigenação na equipe, dando espaço para jogadores como Raphael Guerreiro, João Mário, André Gomes, Danilo Pereira e a “jóia” Renato Sanches. A ideia é dar “rodagem”e prepará-los para receberem, em breve, os jovens talentos que devem surgir da promissora base portuguesa, que vem de um vice europeu sub 21, uma conquista no Europeu sub 17 e tinha a melhor campanha do último Mundial sub 20 até ser eliminado nos pênaltis pelo Brasil nas quartas de final, em um jogo que teve total domínio lusitano.

Foto: Divulgação/UEFA - Fernando Santos tem a missão de comandar a transição da seleção portuguesa

Foto: Divulgação/UEFA – Fernando Santos tem a missão de comandar a transição na seleção portuguesa

A aposta nesta Euro é na mescla com jogadores experientes como Pepe ou Ricardo Carvalho. Sem falar dos velhos conhecidos Nani e Quaresma. Considerado como um técnico pragmático, Santos surpreendeu e montou um time baseado em um meio-campo com muitas rotações e alterações táticas. O time varia entre o 4-4-2 em duas linhas e o 4-4-2 com um losango no meio, que também é adaptável a um 4-3-3, sempre com Cristiano Ronaldo no comando de ataque. Defensivamente costuma se postar em uma duas linhas.

Lembra da questão do nervosismo? Ele também atrapalha taticamente. Na ânsia de resolver logo a partida, não é raro ver Portugal se lançando em um desequilibrado 4-1-5, com um homem à frente da zaga (Na estreia foi Danilo Pereira, que perdeu o lugar para Wiliam Carvalho no jogo seguinte) e um enorme espaço até os homens de frente. O resultado disso é a perda do meio campo, que incentiva a busca por um jogo mais direto.

Entre as seleções que chegaram com cartaz à França, Portugal é a única que ainda precisa provar algo. Não para causar boa impressão, mas, sim, para evitar um vexame e não precisar voltar mais cedo para casa. Futebol para isso eles têm. Falta a calma…

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Jornalista pós graduado em Gestão Aplicada ao Esporte e um doente por futebol. Trabalha atualmente como gerente executivo de esportes na RedeTV! e já passou por Esporte Interativo, Náutico, Portuguesa e Santo André.