Ditos populares e a indignação seletiva

  • por Leandro Lainetti
  • 4 Anos atrás
Foto: Daniel Augusto / Agência Corinthians

Foto: Daniel Augusto / Agência Corinthians

Farinha pouca, meu pirão primeiro. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Faça o que eu digo, não faça o que eu faço. Escolha qualquer um desses ditos populares e ele servirá perfeitamente para descrever a indignação seletiva de Roberto de Andrade após a CBF tirar Tite do Corinthians sem o comunicar previamente, embora o assunto fosse debatido desde a eliminação da Seleção Brasileira na Copa América.

O presidente corintiano seguiu o lugar comum e bradou contra uma atitude ruim, porém comum no futebol brasileiro. No constante furacão que passa varrendo técnicos dos clubes brasileiros, não é raro uns fazerem propostas pelos comandantes dos outros. Sem aviso prévio, sem contato com a diretoria adversária, sem cerimônia. Quem quer um treinador de destaque corre atrás para conseguir, muitas vezes sem se importar com atitudes antiéticas. As posições são trocadas como em uma substituição. Ora pedra, ora vidraça.

Roberto de Andrade poderia bradar contra a CBF e dar todo seu show às câmeras, desde que não fizesse exatamente a mesma coisa no dia seguinte. Afinal, procurou Roger, Fernando Diniz e Eduardo Baptista. O primeiro, como já é de conhecimento público, foi sem a anuência da diretoria do Grêmio. Essa atitude é replicada para basicamente todos os dirigentes dos clubes do Brasil e não somente na seara da troca de treinadores.

Os constantes erros de arbitragem que prejudicam todos os clubes – uns mais outros menos – se encaixa perfeitamente nessa comparação. Quando o erro é contra, chove nota oficial, pedido de afastamento da arbitragem, reclamação em coletivas. Mas quando é a favor, entram em ação a vista grossa e o discurso “isso é normal, todos os juízes são ruins, outro dia fomos prejudicados”. Ora pedra, ora vidraça.

O individualismo, que tantas vezes resolve nossos problemas em campo com jogadores acima da média, transforma nosso futebol em um poço de lugar-comum. O 7×1 vai muito além de bolas chutadas em nossa rede, técnicos defasados ou dirigentes que deixam o passaporte na gaveta. O atraso também é reflexo de presidentes de clubes que reclamam de federações e da confederação, mas votam em seus respectivos comandantes sem a menor vergonha na cara (abraços, Coronel Nunes).

Quando são prejudicados, tratam de reunir holofotes e atirar para todos os lados, como se tivessem alguma isenção para tal. Mais ou menos como jogador reclamar de um pênalti mal marcado e depois se jogar dentro da área buscando colocar a bola na marca da cal. Farinha pouca, meu pirão primeiro? Devagar com o andor, Roberto, porque o teu santo também é de barro.

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Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.