Do sonho à dura realidade, o 2016 do América-MG

  • por Lucas Sousa
  • 3 Anos atrás

O torcedor americano aguardou ansiosamente o início de 2016. Afinal, após quatro anos na Série B, o América-MG finalmente estava de volta à elite do futebol brasileiro. Para deixar esse momento ainda mais especial, o Coelho conquistou o Campeonato Mineiro deste ano em grande estilo: eliminou o Cruzeiro e derrotou o Atlético na final, erguendo uma taça que não via desde 2001. O América parecia nas nuvens, pronto para ser competitivo na primeira divisão. Porém, bastou o Brasileiro começar para o americano encarar um duro choque de realidade.

Após cinco rodadas o Coelho não havia vencido no campeonato, desempenho que custou o emprego do treinador Givanildo de Oliveira, segundo técnico com mais jogos em toda a história do clube mineiro e no cargo desde setembro de 2014. Conhecido como “Rei dos Acessos”, Givanildo foi o responsável por colocar o América na elite duas vezes (1997 e 2015), além de um título da Série C (2009). Toda essa carreira em verde e preto não foi o suficiente para que a diretoria mantivesse o pernambucano no cargo durante uma sequência ruim, optando pelo português Sérgio Vieira, ex-Ferroviária, para a sequência da temporada.

Foto: Site oficial - Givanildo de Oliveira não resistiu ao início ruim no Brasileiro e foi demitido

Foto: Site oficial – Givanildo de Oliveira não resistiu ao início ruim no Brasileiro e foi demitido

Nessa montanha russa vivida pelo América em 2016, a diretoria é um caso a parte. É importante ressaltar que há um belo trabalho de reconstrução do clube diretamente responsável aos acessos recentes a Série A. Entre 2005 e 2009 o time mineiro esteve na terceira divisão nacional e chegou a ser rebaixado no Campeonato Mineiro, em 2007. Desde então, o América esteve duas vezes na elite e nunca ficou na metade de baixo na tabela da segundona. No entanto, no ano de retorno a Série A, ela mais errou do que acertou.

O América é comandado por um conselho gestor de nove presidentes, tendo em Alencar da Silveira Júnior seu principal nome. Comandante de um time médio do futebol brasileiro, Alencar caiu em um erro comum, grave e muitas vezes fatal para os dirigentes desse porte: o clima do “empolgou”. Como destacado anteriormente, o processo de reconstrução do clube é digno de elogios, mas os pés precisam estar bem fincados no chão nesse momento. É preciso avaliar o tamanho do clube no atual cenário brasileiro e reconhecer que a principal meta para a temporada é se manter na Série A, o que passar disso é lucro.

Foto: Site oficial - Alencar da Silver Júnior, um dos nove presidentes do clube

Foto: Site oficial – Alencar da Silver Júnior, um dos nove presidentes do clube

A cúpula verde e preta, no entanto, pensa diferente. Em entrevista no início da temporada, Alencar da Silveira Júnior afirmou que o elenco americano tinha capacidade de classificar para a Libertadores e disputar o título brasileiro. Ideias assim, tão distantes da realidade, prejudicam o time. Seria um feito de “nível Leicester”, uma utopia para um clube que estava na Série B em 2015 e que recebeu um gás com o título mineiro. Conquista que serviu para iludir time, diretoria e torcida sobre o real nível do futebol, algo parecido com o que viveu o Vasco em 2015.

“Alguns falam que o América vai brigar para não cair, mas estamos fazendo um futebol para ser campeão Mineiro, da Primeira Liga, do Brasileiro, para disputar a Libertadores. Falava isso no ano passado, que iríamos subir e mostramos isso.” Alencar da Silveira Júnior, em janeiro de 2016

Nesse mundo das nuvens, a diretoria americana não construiu um elenco do nível de primeira divisão. Do time de 2015, ao menos seis baixas podem ser consideradas importantes: Bryan, Felipe Amorim, Marcelo Toscano, Richarlison, Wesley Matos e Thiago Santos (vendido ao Palmeiras ainda no ano passado). As contratações para repor essa lacuna não foram boas. Alan Mineiro, Borges, Claudinei, Tiago Luís e William Barbio não vingaram ou não estão mais no nível dos grandes e, na ideia do América, seriam nomes importantes para este ano. Ainda chegaram jogadores vindos de clubes menores, como Adalberto, Suéliton e Osman, um dos poucos acertos de 2016.

Foto: Site oficial - Osman marcou o gol que deu a primeira vitória ao América no campeonato

Foto: Site oficial – Osman marcou o gol que deu a primeira vitória ao América no campeonato

A conclusão sobre o elenco americano é simples, e passa longe daquele pensamento do conselho gestor: o time é ruim, não é possível almejar nada mais do que uma permanência (suada) na Série A. Nesse sentido, Givanildo de Oliveira não tem muita culpa no início ruim do Coelho. O treinador não é fora de série e tinha suas convicções bastante discutíveis, mas faltou material humano de qualidade para realizar um bom trabalho.

Como se não bastasse o time abaixo da média, o América não conhece o fator casa. Isso por que o Independência está sempre vazio, se tornando praticamente um campo neutro em partidas do Coelho. O maior público neste Brasileiro foi 1.955 pagantes e a média em 2016 é de 2.259 (Globo Esporte), a 47ª do Brasil. Em seu estádio vazio, o time mineiro já perdeu para Ponte Preta e Vitória, dois times que devem ser concorrentes diretos na parte de baixo da tabela.

Foto: América FC - Minutos antes da partida e as arquibancadas estão vazias. Coelho tem pouquíssimo público no Brasileiro

Foto: América FC – Minutos antes da partida e as arquibancadas estão vazias. Coelho tem pouquíssimo público no Brasileiro

Os péssimos públicos têm explicação. A diretoria quer forçar o torcedor a ser sócio do clube e para isso jogou o preço dos ingressos lá no alto. A entrada mais barata para quem não é sócio torcedor foi de 60 reais, preço muito salgado para a realidade brasileira.  Ao invés de optar por preços mais baixos e casa cheia no retorno à primeira divisão, o América preferiu inflar seu grupo de contribuintes. O resultado é o pior possível: estádio vazio e rendas baixíssimas, com lucro de 2 mil reais frente ao Fluminense e déficit nas partidas contra Vitória e Ponte Preta.

Foto: Site oficial - Sérgio Vieira já prepara o América para a sequência de 2016

Foto: Site oficial – Sérgio Vieira já prepara o América para a sequência de 2016

Nesse cenário, Sérgio Vieira precisará iniciar seu trabalho com o Brasileiro em andamento e com o time em má fase. O elenco não oferece opções de qualidade e está claro que precisa ser reforçado com urgência, a torcida não está nem um pouco animada com a campanha e o preço dos ingressos não ajuda para encher o Independência e empurrar o Coelho (ou ao menos para não dar prejuízo ao clube). Depois de um início promissor, o América precisa arrumar a casa e se colocar nos trilhos para o segundo semestre. O campeonato ainda está no início e existe tempo para mudanças, mas aquele pensamento do início do ano não pode mais existir.

O Coelho precisa encarar sua dura realidade em 2016.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.