Eliminação do Uruguai vai além da ausência de Suárez

  • por Elcio Mendonça
  • 4 Anos atrás
Foto: El País - Desolado, Suárez assistiu à eliminação do banco de reservas

Foto: El País – Desolado, Suárez assistiu à eliminação do banco de reservas

O torcedor uruguaio sentiu um frio na espinha quando viu Suárez deixar o campo na final da Copa do Rei, entre Barcelona e Sevilla. A lesão sentida na coxa direita trouxe de volta o fantasma que assombrou a Celeste antes da Copa do Mundo em 2014: não ter o atacante 100% fisicamente em uma competição importante.

Por mais que não fosse novidade ficar sem “El Pistolero”, suspenso por nove jogos pela FIFA por conta da mordida em Chiellini no último Mundial, o que lhe custou a Copa América 2015 e quatro jogos das Eliminatórias, o Uruguai esperava por dificuldades em solo americano.

Não por acaso. O avançado do Barça viveu sua melhor temporada na carreira. Marcou 59 gols em 53 jogos e prometia chegar com fome para compensar a ausência na edição anterior do torneio continental. As chances dos comandados de Óscar Tabarez passavam pelos pés de Suárez.

O grupo, teoricamente fácil, dava esperanças. Exceto pela pedreira na estreia, diante de um México com 100% de aproveitamento desde a chegada de Osório, os uruguaios teriam pela frente Venezuela, que nunca havia vencido a Celeste em uma Copa América, e Jamaica. Cenário ideal para avançar de fase e ter tempo para preparar o retorno do atacante justamente nas quartas de final.

Mas é injusto limitar a eliminação precoce à ausência do artilheiro. Primeiramente porque os uruguaios, que lideram a qualificatória para a Copa da Rússia, já somaram bons resultados sem o atacante em campo. Dos 13 pontos conquistados em seis jogos nas Eliminatórias, nove (em quatro partidas) foram sem ele, por exemplo. Em segundo lugar porque o futebol demonstrado diante dos venezuelanos foi abaixo da crítica.

O Uruguai simplesmente não conseguiu jogar. Sem qualidade alguma no meio campo, se limitou à bola longa. Foram 50 lançamentos (apenas 22 bem sucedidos) e 26 cruzamentos (só 11 acertos) durante todo o jogo. Virou presa fácil para uma Venezuela bem organizada defensivamente, postada no 4-4-2 em duas linhas.

Foto: AFP - Sem criação, o Uruguai exagerou nos cruzamentos

Foto: AFP – Sem criação, o Uruguai exagerou nos cruzamentos

Não havia um jogador capaz de organizar o meio campo. Sanchez, aberto na direita, é um desperdício. Por mais que tenha atuado algumas vezes por ali no River de Gallardo, o time argentino tinha quem fizesse o meio jogar. Na Celeste, perde-se quem poderia dar um pouco de qualidade ao setor.

Cavani se mostrou abaixo do que se espera dele. Pouco produziu e perdeu um gol praticamente cara a cara com o goleiro Dáni Hernandez, no final do jogo, que poderia ter dado um sopro de vida aos uruguaios.

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Óscar Tabarez, por sua vez, demorou para mexer no time e buscar uma reação. Lançou tardiamente Rolon (aos 28 minutos do segundo tempo) e Lodeiro (aos 33 minutos do segundo) no jogo. Ficou refém de uma formação que não produziu. Mesmo atrás no placar e com um adversário mais interessado nos contra ataques, teve apenas 51% de posse de bola. Um reflexo do mau sucedido modelo de jogo direto.

É evidente também que o Uruguai sofre com a falta de renovação, um processo bastante complicado em um país com pouco mais de 3 milhões de habitantes. A média de idade do time que foi à Copa América é de 28 anos. Entre os 11 titulares diante da Venezuela, seis estiveram presentes na Copa da África do Sul, em 2010. Para efeitos de comparação, no 11 inicial do Brasil contra o Haiti, dois foram à Copa de 2014 e apenas um esteve em 2010.

Foto: EFE - O capitão Godin é um dos titulares diante da Venezuela que esteve na Copa de 2010

Foto: EFE – O capitão Godin é um dos 6 titulares diante da Venezuela que esteve na Copa de 2010

A eliminação acende o sinal de alerta na Celeste. Depender da mística do Centenário e da raça charrua, além de torcer pelos gols de Suarez, pode ser pouco em uma disputa de Eliminatórias tão equilibrada quanto a atual.

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Jornalista pós graduado em Gestão Aplicada ao Esporte e um doente por futebol. Trabalha atualmente como gerente executivo de esportes na RedeTV! e já passou por Esporte Interativo, Náutico, Portuguesa e Santo André.