EUA querem usar a Copa América para novo “boom” no futebol

  • por Elcio Mendonça
  • 5 Anos atrás
Foto: Fifa.com - Os torcedores americanos invadiram o Brasil na última Copa

Foto: Fifa.com – Os torcedores americanos invadiram o Brasil na última Copa

A Copa do Mundo de 1994 foi um marco na história do futebol nos Estados Unidos. Impulsionada pelo grande número de imigrantes no país, além da boa campanha dos americanos, que chegaram às oitavas de final, a competição teve a sua melhor marca de público na história, com uma média de 68,9 mil torcedores por jogo e um total de 3.5 milhões de ingressos vendidos para 52 partidas.

O Mundial despertou o interesse pela modalidade no país, que naquele momento sequer tinha uma liga profissional. E olha que, duas décadas antes, a NASL (North American Soccer League) conseguiu atrair jogadores como Pelé, Beckenbauer, Carlos Alberto Torres, entre outros, dispostos a estender a carreira um pouco mais antes da aposentadoria. Mas com o tempo a competição perdeu apelo e deixou de existir em 1984, retomando as atividades, com um novo formato, apenas em 2009.

Foto: Divulgação - A chegada de Pelé criou uma febre pelo futebol nos EUA

Foto: Divulgação – A chegada de Pelé criou uma febre pelo futebol nos EUA 

A falta de um campeonato nos EUA fez com que a federação local montasse uma seleção permanente, que começou a trabalhar dois anos antes da Copa de 94. Os atletas recebiam uma remuneração fixa e treinavam durante o ano todo, com direito a alguns amistosos e excursões. Nos jogos oficiais e principais amistosos, recebiam o reforço dos jogadores que atuavam foram do país.

Foi assim que o sérvio Bora Milutinovic conseguiu montar a equipe que fez um bom papel no torneio, se classificando para a segunda fase em um grupo complicado com Romênia, Suíça e a badalada Colômbia. No mata-mata, vendeu caro a derrota para o Brasil por 1 a 0, em pleno feriado de 4 de julho.

Para sediar o evento, a US Soccer prometeu à FIFA que se esforçaria para criar uma competição profissional. O retorno positivo e o ambiente criado pela Copa do Mundo agilizaram o processo e em 1996 nasceu a Major League Soccer, com apenas 10 clubes. Hoje é notório o crescimento da liga, que conta com 20 times e ganhará outros quatro nos próximos dois anos. A expectativa é expandir para 28 equipes até 2024.

A MLS tem bom apelo com os torcedores e em 2015 teve a sétima melhor média de público entre todos os campeonato nacionais no planeta, com 21.574 adeptos por jogo. Para efeito de comparação, o Campeonato Brasileiro aparece apenas em 12o lugar na lista, com uma média de 17.300.

O interesse pela seleção nacional é ainda maior. Nas duas últimas Copa do Mundo, por exemplo, os americanos foram os estrangeiros que mais compraram ingressos. No Brasil, eles adquiriram 196.383 dos 3.4 milhões de bilhetes comercializados. Quem não veio, acompanhou pela TV. A partida diante de Portugal, na fase de grupos, foi assistida por 25 milhões de pessoas nos Estados Unidos, número superior à audiência das finais da NBA e MLB do mesmo ano. A final entre Alemanha e Argentina teve números ainda superiores, alcançando 26.5 milhões.

https://www.youtube.com/watch?v=bC71rSwoDEE

O modelo de negócio é o mesmo das outras modalidades no país. Os clubes são associados da liga e não há rebaixamento ou descenso. Para participar, é preciso receber um convite e se tornar uma franquia, respeitando uma série de condições, como ter um bom estádio, capacidade para atrair público, responsabilidade financeira (com implantação de tetos salariais), entre outros. A cota de TV, pelo menos nos contratos nacionais, é dividida de forma igualitária entre todos. Já nos contratos locais, com emissoras regionais (bastante comum nos EUA), o time fica com o valor integral do acordo.

Após o Mundial de 2014, houve uma melhora significativa nos valores pagos pelas televisões, saltando de US$23 milhões para US$90 milhões. Mas ainda é pouco em comparação com as quatro principais ligas dos EUA. A NHL, a “mais pobre” das Big Four, fatura US$200 milhões por ano com a TV. Já a NFL, liga mais rentável do mundo, recebe nada menos do que US$5 bilhões!

A Major League Soccer pensa grande. Seus executivos não escondem que o objetivo a médio prazo é se tornar o maior campeonato do mundo. Uma estimativa exagerada, cá entre nós, mas é possível ter um bom crescimento, aumentar o faturamento e, consequentemente, o nível técnico, que hoje é bastante discutível.

O campeonato, atualmente, só consegue atrair jogadores dispostos a engordar a conta bancária e estender a carreira mais um pouquinho antes da aposentadoria (como Kaká, Drogba, Gerrard, Lampard, Pirlo etc) ou atletas da CONCACAF sem mercado na Europa. A exceção são jogadores da seleção americana, como Dempsey, Jermaine Jones ou Bradley, por exemplo, que trocam o futebol europeu para jogar em casa, mas com um bom salário, diga-se de passagem.

Foto: Rod Marr/Seattle Sounders - Dempsey é um dos principais destaques da MLS atualmente

Foto: Rod Marr/Seattle Sounders – Dempsey é um dos principais destaques da MLS atualmente

Vale também ressaltar Giovani dos Santos (ex-Barcelona), de 27 anos, e, principalmente, Giovinco (ex-Juventus), de 29 anos, o MVP da última temporada, que poderiam ter um lugar no velho continente. Talvez não em um time top, mas com um nível de competitividade melhor.

E o que isso tudo tem a ver com a Copa América Centenário? A MLS sabe que seu crescimento passa pelo aumento das receitas oriundas da TV. Os contratos de transmissão da liga e da seleção são vendidos em conjunto, uma maneira de sempre conjugar a evolução do campeonato com a do time nacional.

Uma boa campanha, jogando em casa, obviamente terá grande apelo no país e o objetivo é usar isso para atrair dois tipos de público diferentes: o americano que gosta de futebol, mas prefere as competições estrangeiras (principalmente a Premier League), e aquele que ainda não é muito ligado ao futebol.

Foto: Divulgação/US Soccer - Uma boa campanha do US Team na Copa América pode criar um novo "boom" no país

Foto: Divulgação/US Soccer – Uma boa campanha do US Team na Copa América pode criar um novo “boom” no país

Com o primeiro, a ideia é fazê-lo se interessar pela MLS, aonde joga a maior parte do US Team. Já com o segundo, é torná-lo fã da seleção. O aumento da audiência nos dois casos interessa bastante à liga, que almejar um contrato melhor de transmissão.

Esse é o alvo a curto prazo. A médio, o sonho é organizar novamente uma Copa do mundo. Desejo, este, que bateu na trave com a polêmica escolha do Catar para sediar o evento em 2022. A meta se tornou receber o Mundial em 2026 e repetir o ‘boom’ que aconteceu em 1994, dessa vez para um salto ainda maior. A Bundesliga serve como exemplo para eles. E em se tratando de negócios, quem duvida da capacidade dos americanos?

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Jornalista pós graduado em Gestão Aplicada ao Esporte e um doente por futebol. Trabalha atualmente como gerente executivo de esportes na RedeTV! e já passou por Esporte Interativo, Náutico, Portuguesa e Santo André.