Euro 2016: relato de quem viu o melhor e o pior de perto

  • por Gregor Vasconcelos
  • 3 Anos atrás

47 do segundo tempo. Uma cabeçada. Decepção. Isso deveria ser o pior momento de um belo dia em Marselha (pelo menos da perspectiva dos ingleses).

O esperado era uma comemoração jubilante dos Russos e aquela decepção familiar aos ingleses, que ocupavam 75% do estádio. Mas ao final dos 93 minutos, a torcida inglesa corria, escalava cercas, em panico, enquanto seus adversários, mascarados, atacavam sem dó. Foi o momento que a bolha estourou. Sem celular, eu passei o dia inteiro em Marselha, por acaso escapando da violência que tomava conta da cidade.

https://www.youtube.com/watch?v=3pVJdgNMGKE

Enquanto eu me encontrava com um velho amigo da faculdade e meu ex-professor de matemática para vermos a partida entre Suíça e Albânia, conversávamos sobre a importância dos torneios internacionais e o poder de união que eles podem ter. Pouco sabíamos que ao mesmo tempo, um torcedor, usando a mesma camisa que eu, era chutado na cabeça por hooligans russos enquanto inconsciente. A camisa era o que importava, só isso. É estranho ter estado tão perto de um evento que pode mudar o futebol europeu eternamente e não ter ideia do que está acontecendo ao seu redor.

Claro que eu e minha família sabíamos o que havia acontecido na cidade nos últimos dias. Mas enquanto passávamos pelo porto – foco das confusões nos três dias – nada sugeria que o clima fosse ficar tão volátil. Sim, os ingleses cantavam suas – péssimas – musicas em alusão a segunda guerra, mas os policiais faziam “photobombs” nas fotos de torcedoras russas e o dia seguia em clima de diversão.

Talvez algumas coisas deveriam ter me alertado a fragilidade da situação. A principal delas foi um torcedor inglês, sozinho, pegar uma garrafa vazia de cerveja e guarda-la no bolso. Ele continuou andando para o local onde a briga recomeçaria em alguns minutos. Num clima tão pesado quanto esse, isso era a unica coisa necessária, uma garrafa – talvez essa garrafa, nunca saberemos com certeza, apesar dos torcedores russos aparentemente terem instigado os problemas de sábado.

E foi ali, a poucos metros, e minutos, que esse homem passava por mim e minha família, almoçando tranquilamente, que o torcedor inglês teria sua cabeça chutada por rivais e passaria a noite em coma. Talvez esse torcedor, assim como muitos dos ingleses envolvidos, não fosse um anjo. Mas mesmo guerras tem a trégua do Jus In Bello; já em Marselha, misericórdia não existia. Tudo isso por conta da camisa branca que o homem usava, a cor errada na hora e no lugar errado. Eu, felizmente, escapei na hora certo, para o lugar certo.

Não haviam duvidas que a partida entre Inglaterra e Rússia seria o foco dos maiores problemas nessa fase de grupo. William Faulkner já escreveu que “o passado nunca morreu. Ele nem passou.” E isso ficou claro quando os hooligans locais resolveram se juntar aos russos e retaliar o dano causado pelos ingleses em 1998. Desde dezembro a UEFA foi avisada, mas nada foi feito.

O estádio era a unica esperança. Talvez, como aconteceu com o Stade de France em novembro, o Velodrome se tornaria uma especie de santuário. Livre de toda a dor que assombrou Marselha durante o dia. Por 90 minutos isso aconteceu, mas com o empate dos Russos, o que deveria ser uma cena de comemoração, por pouco não se tornou no novo Heysel.

A Euro 2016 prometia ser uma nova chance de unir uma França cada vez mais dividida. Mas o espirito de 1998 parece cada vez mais distante de um pais infectado por medo e a xenofobia. Irlanda do Norte foi mais uma vitima de hooligans locais, dessa vez em Nice. Com ingleses e russos possivelmente se encontrando mais uma vez em Lens/Lille na quarta feira, a confusão parece longe de acabar. A UEFA ameaçou banir as duas equipes em caso de novas brigas enquanto a França baniu o álcool nas redondezas do estadio e fanzones nas cidades sede. Mas seria difícil imaginar que esse seria o fim das brigas. Ainda mais com o pesadelo logístico em Lens/Lille.

Uma pena que um torneio que em três dias já nos deu momentos tão bonitos como : as lagrimas de Payet ao ser substituído depois do gol da vitória Francesa, a vitória histórica do Pais de Gales e o confronto dos irmãos Xhaka, pode ter como seu principal legado a violência.

O futebol é, no fim das contas, um reflexo da nossa sociedade. Então é apenas justo que um mundo tão dividido por medo, racismo, xenofobia como o que vivemos hoje – enquanto escrevo isso, meu celular toca com noticias do tiroteio em Orlando que deixou mais de 50 mortosveja isso refletido nas redondezas de campos de futebol. É difícil imaginar que esse seja o legado da Euro 2016, mas talvez precisaremos nos contentar em encontrar alegria nos pequenos momentos – como o torcedor da Croácia deslizando no gramado para comemorar o gol com sua seleção.

https://www.youtube.com/watch?v=8-4OcB0JQjw

O futebol, é capaz de reverter qualquer situação adversa, por isso é o maior esporte do mundo. Talvez, no dia 10 de Julho, nem lembraremos mais do que aconteceu no sul da França e estaremos comemorando uma vitória unificadora da seleção da casa.

Apenas não subestime o que aconteceu em Marselha, isso tem o potencial pra mudar o futebol pra sempre.

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Torcedor fanatico do Arsenal e do Flamengo, Gregor é fã de longa data da Premier League, acompanhando a liga avidamente há 10 temporadas. Formado em linguística inglesa pela universidade King's College em Londres, agora faz mestrado em linguistica e literatura na universidade de Zurich. Colunista da extinta revista "Doentes por Futebol", hoje é o editor de futebol inglês no site.