Novo Henry? Não. Prazer, Martial!

No dia primeiro de setembro de 2015, o Manchester United anunciava a contratação de um jovem talento francês. Rotulado de “novo Henry”, a contratação foi impactante e roubou todos os holofotes na terra da rainha, não pelo talento do jogador, até então desconhecido pela maioria, mas na verdade, pelas cifras investidas em uma mera promessa do futebol francês.

A chegada de Anthony Martial “frustrou” o torcedor mancuniano, afinal, se esperava um centroavante “world class” que viesse preencher a lacuna deixada pelas saídas de Van Persie, Falcao e Chicharito. No final das contas , não chegou nenhum superstar, tampouco algum centroavante, visto que apesar de vestir a 9, ele não é um, conforme irei demonstrar mais adiante.

Imagem: 101 great goals: "O que é um desperdício de dinheiro"

“Que desperdício de dinheiro“. Manchete nada lisonjeira do tabloide ‘Mirror Sport’.

O jovem francês, na época com 19 anos, foi ridicularizado pela imprensa e pela torcida, que não entendiam o porquê de se apostar todas as fichas em um jogador que sequer conheciam as características. Foram 37 milhões de libras investidas na contratação de um “estranho” em solos britânicos.

O contexto sugeria que Martial estava fadado a ser um flop desastroso, porém, como sempre dizem, o tempo é a melhor resposta. O tempo provou que o olhar de Ryan Giggs e Louis van Gaal para jovens promessas é certeiro.

Não precisou de muito para o francês convencer a todos de seu talento. Bastou seu primeiro lance na primeira partida, onde em meio ao maior clássico nacional, o garoto deu um corte seco em Skrtel, deixando-o desmoralizado e marcou seu primeiro gol pelo maior campeão inglês. Foi o cartão de visitas perfeito. “Prazer, Manchester United, eu me chamo Martial!”

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Talvez nem o mais otimista dos adeptos poderia imaginar, nem mesmo o mais lunático acreditava que aquele jogador desconhecido, que caiu de paraquedas em Old Trafford custando um caminhão de libras poderia tão rapidamente se tornar referência do time. Martial não apenas convenceu a todos de seu talento, como se provou entre os grandes do futebol inglês. Foram 18 gols, 9 assistências e mais de 50 chances criadas durante toda a temporada.

Anthony é uma das poucas certezas dentre as inúmeras incertezas que permeiam o velho teatro. Confira todos os gols dele atuando pelo gigante inglês em sua primeira temporada:

https://www.youtube.com/watch?v=mOOvO2bD-Eg

Sua verdadeira posição em campo

Inicialmente escalado como centroavante, Anthony até vinha rendendo razoavelmente. No entanto, seu futebol sofreu uma evolução fantástica quando foi deslocado para a ponta esquerda, onde Memphis Depay, contratado com status de estrela, oscilava entre atuações fantásticas e horrorosas.

RENDIMENTO MARTIAL 15-16

Após ser centro avante, rodar pela esquerda, pela direita, ficou escancarado que ele pode ser tudo, menos um striker. Seria muito desperdício de talento abrir mão das arrancadas, dribles curtos e poder incisivo de Martial. Seu lugar, como ficou evidente, é a ponta esquerda.

https://www.youtube.com/watch?v=zVnrDZ7clHc

Jogando como centro avante, foram 18 aparências e apenas 03 gols. Enquanto que, como ponta esquerda, em 20 ocasiões marcou 09 gols. Em sua melhor atuação, nas semifinais da FA CUP contra o Everton, Martial foi uma verdadeira avalanche pelo lado esquerdo do ataque do United. Infernizou a defesa dos Toffees:

https://www.youtube.com/watch?v=n63TmiN2qec

mapa vs everton

Créditos: Daily Mail

Na referida partida, o francês atuou como um verdadeiro left winger, ou seja, ponta esquerda, função na qual também era responsável por recompor aquele flanco em uma eventual subida do lateral adversário. O mapa de calor demonstra o quão esforçado e aplicado fora o jogador durante toda a partida. Eventualmente, em termos ofensivos, fazia alternâncias de posição com Lingard visando fugir da marcação e evitar previsibilidade, no entanto, seu foco máximo era explorar o lado direito da defesa adversária, especialmente por conta da ausência do ótimo lateral Coleman, que lesionado desfalcou o time.

O mais incrível é relembrar que, enquanto Memphis chegava badalado e como “certeza” de que a camisa 7 voltaria a ser usada por um jogador à sua altura, Martial chegou como contestado e com status de aposta.

O francês chegou voando, em sua primeira temporada na Premier League, Martial se firmou no time titular como um dos melhores na função, conforme demonstra o gráfico de estatísticas. Foram 11 gols, 6 assistências e 37 chances criadas só no campeonato mais difícil e intenso do mundo.

EEA8F3492C9647D6B06E226431BF5FCCSeu reconhecimento em cenário europeu é tanto que além de lhe conferir o prêmio Golden boy (prêmio de melhor sub-21 da Europa, dado pela Tuttosport), também lhe rendeu vaga na seleção nacional. O jovem já é um dos negros maravilhosos da badalada da seleção francesa e sem dúvidas, é um dos grandes candidatos a “revelação da Eurocopa”.

Ontem aposta fadada ao fracasso, hoje aspirante a ídolo. Tudo isso em menos de um ano vestindo a camisa 9 Red Devil. O destino foi encarregado de escrever a belíssima história desse que tem tudo para ser um dos maiores fenômenos do futebol mundial nos próximos anos. A Euro 2016 é a oportunidade perfeita para ele se consolidar de vez entre os grandes do futebol.

Agora não mais com a alcunha “novo Henry” ou qualquer outro rótulo comparativo, mas sim com nome e identidade própria: Anthony Martial.

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Filipy é um jovem advogado do interior de Pernambuco. Católico por amor e convicção, tem 23 anos, vive e respira futebol, inclusive, já furou encontro com a própria namorada para jogar descalço nos sórdidos gramados sertanejos. É no esporte bretão que ele encontra o seu maior refúgio nas tardes negras de sábado. (Colunista - Manchester United Brasil)