O Brasil de Tite terá centroavante?

A troca de Dunga por Tite inicia uma sequência de novas discussões em torno da Seleção Brasileira e do processo de construção de um time para os próximos anos. Recuso-me a pensar de forma curta, visando somente o próximo adversário, apesar de que essa realidade diante do cenário que se forma parece ser a mais correta. Diferente de outras vezes, o Brasil não tem folga projetável. A transição de ciclos não foi bem pensada e dois anos de trabalho foram perdidos.

Um desses novos debates, que já não é tão novo assim, diz respeito ao camisa 9 da Seleção. Sabemos que o número, por si só, dentro do contexto atual, não significa muita coisa. Todavia, a posição segue representando bastante as ideias de jogo de um time. Sem grandes nomes de referência, resta ao Brasil seguir com centroavantes móveis.

Com Dunga, Neymar, Hulk e Gabigol jogaram com essa incumbência: ser centroavante e movimentar-se. Óbvio que Dunga preferia um 9 realmente 9, tanto que segurou-se em Ricardo Oliveira e recorreu a Jonas sempre que percebeu sua corda no pescoço apertar.

(Foto: Agência Corinthians)

(Foto: Agência Corinthians)

Tite, que enfrentava problema semelhante no Corinthians, tem como uma das suas imensas responsabilidades no novo emprego encontrar mais opções para essa zona fundamental dentro do seu modelo de jogo preferido. Sem um “9”, Tite ganhou títulos importantes na carreira, como a Libertadores. Com eles, levou dois Campeonatos Brasileiros e diversos Paulistas, além de um Mundial. A balança pesa, contudo vejo em Tite sabedoria suficiente para encontrar soluções para o dilema que se arrasta no Brasil. Ter ou não ter um centroavante definidor? Apostar em um garoto na função?

Como forma de enxergar futebol, sinceramente não acho que seja ruim jogar sem referência. Vi diversos times se darem muito bem sem os goleadores natos. Dentro de um modelo de jogo que eu entendo como prioritário e, sendo eu treinador, iria tentar achar alguém que ocupasse essa lacuna. Óbvio que não iria insistir com peças que não agregam como Dunga fez. Tite precisa de tempo e treino para moldar seu Brasil.

Nas últimas semanas, mais precisamente depois do clássico diante do Palmeiras, o treinador gaúcho encheu a bola do palmeirense Gabriel Jesus. Contra o Corinthians, naquela altura ainda de Tite, Jesus jogara como centroavante. O atacante causou enormes dificuldades para a defesa do agora técnico da Seleção. Impressionado, Tite dedicou um tempo em sua coletiva para parabenizar o talento de Gabriel, que agradeceu os elogios no dia seguinte, via rede social.


Tite rasga elogios a Gabriel Jesus por esporteinterativo

As palavras de Tite podem ser interpretadas de diversas formas. Uma das possíveis interpretações e, preparem-se, irei fazê-la, inclui Jesus – que já vinha sendo sondado por Dunga – como um dos possíveis novos candidatos ao posto de centroavante da Seleção Brasileira. Junto dele, coloco mais três nomes jovens e pouco testados:

Luan – Grêmio

Multifuncional do meio pra frente, Luan pode ser considerado uma boa opção para a reformulação do grupo da Seleção Brasileira. Sob comando de Roger, o atacante gremista fez algumas das suas melhores apresentações na carreira como referência no ataque Tricolor. Possui boa estrutura física, bom passe, agilidade e finalização. Mesmo rendendo bem mais jogando de frente para a meta adversária, Luan pode sim eventualmente jogar de costas, criando espaços e definindo jogadas.

Eduardo Sasha – Internacional

O Internacional de Argel é um dos integrantes do G4 do Campeonato Brasileiro com um ataque formado por jogadores rápidos. Mesmo tendo contratado, recentemente, o centroavante argentino Ariel – com boa passagem pelo Coritiba -, entendo que Sasha dificilmente perderá sua posição ao lado de Vitinho no ataque colorado. Assim como Luan, Sasha rende mais jogando de frente, pelos lados, com movimentação, mas sua temporada tem demonstrado ótima capacidade de finalização e um oportunismo que estivera escondido até hoje.

Gabigol – Santos

Dos citados, o que eu particularmente mais gosto. Apesar de entender que Gabriel Jesus tem mais potencial de crescimento, uma margem maior, digamos assim, vejo Gabigol como o mais pronto dentre essas novas opções de camisa 9 que Tite pode inserir no seu ciclo na Seleção. Gosto santista na função também por conta do excelente drible curto e pela velocidade no arranque. Além disso, Gabigol foi o único testado na Copa América. Apesar da pífia participação brasileira, Gabigol conseguiu ser destaque individualmente.

Se não quiser repensar a função de um camisa 9 na Seleção, Tite pode – assim como Dunga fez – recorrer aos mais experientes e especialistas. A lista de velhos nomes e bons é extensa, e conta com Ricardo Oliveira, Grafite, Jonas, Fred e Hulk. De todos os citados, apenas Hulk não é centroavante de ofício. Contudo, com tantas boas opções para o lado do campo na geração – e não param de surgir outros -, creio que será cada vez mais complicado para o atacante do Zenit recuperar espaço entre os convocáveis. Como 9, mesmo não rendendo bem, existe uma chance um pouco maior de ser parte do novo ciclo jogando como referência.

É sempre muito complicado projetar qualquer coisa no futebol, principalmente quando falamos de seleções nacionais. Tite assume o Brasil com jogo oficial e que vale muito logo na estreia. Apesar de ser um dos melhores treinadores da América do Sul, o ex-Corinthians mantém resquícios conservadores e talvez tema em “arriscar” garotos como titulares.

O que anima é a recente experiência do treinador no seu ex-clube. O atacante Luciano terminou a era do gaúcho no Corinthians como titular. Jogador de lado, o atacante passou a ser bem mais utilizado como centroavante de movimentação, mesmo tendo Tite algumas opções de jogadores especialistas no grupo.

Pelo rendimento atual e pelos recentes elogios, aposto que Gabriel Jesus desponta na frente como principal candidato a vaga de centroavante do Brasil de Tite. Acho possível que Neymar ocupe essa faixa ou até mesmo que Tite encontre outro nome além dos cotados para jogar e executar as funções dessa região do time. Contudo, nesse primeiro momento, aposto em Jesus.

E ai, Tite? Quem será o centroavante da Seleção?

Afinal, teremos um?

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Jornalista graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e observador de esportes. Apenas acompanhar futebol nunca me foi suficiente, então decidi escrever e estudar sobre o jogo. Admiro a Premier League e o Chelsea, mas eu gosto mesmo é de respirar São Paulo Futebol Clube.