O diferencial chamado Cazares

Foto: Divulgação/Bruno Cantini/CAM

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O início de 2016 trouxe novidades para o torcedor do Atlético Mineiro. No fim do último ano, Levir Culpi deixou o comando alvinegro e quem assumiu foi Diego Aguirre. Reforços vieram e a expectativa, como nos últimos anos, fez-se alta. Juan Cazares foi provavelmente a peça que mais aguçou a curiosidade do torcedor, uma vez que foi a contratação que mais exigiu atenção da diretoria, em razão da existência de litígio entre Independiente Del Valle, seu ex-clube, e o argentino Banfield, equipe em que atuava por empréstimo.

O curioso é que mesmo após a resolução das pendências contratuais, o adepto alvinegro seguiu tendo dificuldades para verdadeiramente conhecer o meia equatoriano. Enquanto o comandante atleticano ainda era Diego Aguirre, ocorreu algum problema extracampo que deixou Cazares escanteado por um período. Muitas foram as versões especuladas como a causa da freqüente ausência de Juanito. Mesmo com dificuldades no setor de criação, o treinador uruguaio passou um período considerável sem lançar a campo seu camisa 10.

Foto: Divulgação/Bruno Cantini/CAM

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Aguirre saiu e Marcelo Oliveira chegou. Embora o Presidente alvinegro, Daniel Nepomuceno, tenha declarado que o equatoriano vinha ficando de fora por questões técnicas, não ficou convincentemente esclarecido o motivo pelo qual Cazares não vinha atuando e o meia voltou a entrar em campo. E mais: passou a encantar o torcedor e ser fundamental, decisivo.

Na estreia do Galo no Campeonato Brasileiro (ainda sob o comando do técnico uruguaio), foi dele o gol da vitória. No encontro seguinte, contra o Atlético Paranaense, converteu a penalidade que garantiu o empate para os alvinegros. Nesse meio tempo ainda balançou as redes do São Paulo na eliminação mineira da Copa Libertadores da América. Veio a Copa América.

Foto: Divulgação/Bruno Cantini/CAM

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Chamado a defender o Equador na edição centenária da competição continental americana, Cazares foi desfalque por longas e dolorosas seis rodadas. Sem Jesús Dátolo, lesionado, o time se viu totalmente sem capacidade de criação e pereceu. Foram três empates e três derrotas no interregno. Todavia, o Equador foi eliminado e, em um sábado, Cazares voltou dos Estados Unidos, país que sediou a competição. No domingo, entrou em campo contra a Ponte Preta, marcou e o Atlético venceu. Na sequência, o meia marcou no êxito contra o Corinthians e foi importante peça na vitória contra o América Mineiro. Aliás, com seu camisa 10 em campo, o time sofreu apenas dois dos 16 gols anotados em seu desfavor.

Com Cazares em campo, o Galo disputou cinco jogos: venceu quatro e empatou um. Com ele, o time atua de forma diferente, pois tem uma referência apta a receber a bola a todo momento e dar rápida e precisa destinação, sempre em progressão, em direção à meta adversária. Com o equatoriano, tabelas vêm sendo vistas e espaços exíguos enxergados. Algumas vezes, por algo que aparenta ser preciosismo, o meia até tem desperdiçado boas oportunidades, mas o fato é que com ele o time passa a ser muito mais criativo e organizado.

Nos poucos jogos em que atuou, o jogador criou 16 chances claras de gol, estatística que mostra com muita clareza seu impacto. Apenas Marcos Rocha (com 25 chances em nove partidas) tem números superiores no elenco. É também interessante observar seus mapas de calor, os quais demonstram como o atleta tem sido participativo nas partidas, dando muitas alternativas a seus companheiros e circulando por todo o setor ofensivo atleticano.

Foto: Montagem/Reprodução/Footstats.net

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Nos últimos anos, sobretudo com Ronaldinho Gaúcho e Guilherme, o torcedor atleticano se acostumou a ter meias com muita visão de jogo e Cazares tem impedido que este adepto cada vez mais exigente se queixe da falta de uma figura com esse perfil. O mais interessante é que o equatoriano tem mostrado boa visão de jogo e ao mesmo tempo muita movimentação; não é lento e é chamado a jogar a todo instante. Seu desempenho nos passes é outro dado que chama atenção: 91,5% de aproveitamento.

https://www.youtube.com/watch?v=c6HmWANYb1c

A despeito de tudo isso, talvez o que mais faça diferença quando Cazares está em campo seja a postura dos demais jogadores. Os volantes, desincumbidos de armar, passaram a marcar com maior consistência, as peças de lado de campo, tanto laterais quando meia-atacantes, ganharam uma referência com quem dialogar e como um todo o time cresceu. A individualidade do equatoriano vem ajudando no encaixe coletivo do time e sua volta da Seleção Equatoriana vem se confirmando um divisor de águas na campanha do Galo no Brasileirão.

Foto: Divulgação/Bruno Cantini/CAM

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Se antes havia curiosidade do torcedor para conhecer Cazares, hoje ele a mantém. Não pelo desconhecimento acerca da qualidade de seu camisa 10, mas pela expectativa de vê-lo propor o jogo, tabelar com seus companheiros, driblar os adversários e dar passes açucarados para seus pares.

 

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.