O que mudou no Flamengo?

  • por Nilton Plum
  • 3 Anos atrás

Sim, é apenas a décima rodada de trinta e oito de um dificílimo e equilibrado (ainda que, às vezes, nivelado por baixo) campeonato de pontos corridos. Mas se a mudança do Flamengo 2015 para o de 2016 já era evidente, mesmo com os péssimos resultados do primeiro semestre, o time rubro-negro que começou o ano nas mãos de Muricy Ramalho já demonstra clara mudança, para melhor, sob o comando de Zé Ricardo.

E, ainda que digam que os resultados só vem acontecendo por conta da fraqueza de determinados adversários, é sempre bom lembrar que é o mesmo time que neste ano perdeu para Volta Redonda, Confiança, Vasco e Fortaleza… E que no ano passado perdeu pontos para praticamente TODOS os times da segunda página da tabela.

No brasileirão de pontos corridos, o pior mesmo é perder para adversários teoricamente mais fracos. De modo que ganhar sempre será o melhor negócio. Jogando bem ou mal.

Analisemos os fatores que estão colaborando para transformar o Flamengo. O resto é euforia da qual o torcedor possui todo o sagrado direito de desfrutar.

1) Alex Muralha

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Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

Ele gosta de Rock, possui um Opala customizado, um apelido ousado para um goleiro, um corte de cabelo de gosto duvidoso, barba, uma esposa que foi alçada ao posto de musa da torcida, humildade e é, desde a época de Figueirense, uma das melhores promessas no gol do futebol brasileiro. Muralha é uma combinação peculiar. Ao observar os times de boas campanhas nos pontos corridos, nota-se que absolutamente todos possuíam um goleiro que fazia a diferença. E, neste setor, fazer diferença significa um milagre por jogo; sem falhas. Parece cruel, mas goleiro de time que pretende ser algo na tabela OBRIGATORIAMENTE tem que ser assim: sem concessões. Muralha encarnou, desde a lesão de um discutidíssimo Paulo Vítor, este fator decisivo.

2) Uma improvável dupla de zaga: Rafael Vaz e Réver

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Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

Talvez este seja o item mais óbvio. Wallace e/ou César Martins não funcionaram no Flamengo e, por uma quantidade considerável de tempo, a despeito de profissionalismo e comprometimento de ambos, colaboraram individualmente, ou pior, em dupla, para derrotas e mais derrotas. Um caso muito específico onde o sistema de divisão coletiva de culpa do futebol não convence nem o mais compreensivo torcedor. Era algo tão explicitamente evidente que a manutenção de Wallace (que possuiu um bom momento em 2013, ao lado do correto Chicão) como titular e capitão, perpassando os “257 técnicos” que o Flamengo contratou desde a saída de Léo Moura, corre o risco de entrar para a História como um dos maiores mistérios do futebol. Assim como era evidente que o veterano Juan, em seu “canto do cisne”, não suportaria fisicamente, ainda que a qualidade continue indiscutível, a maratona de jogos e que o menino Léo Duarte não deveria ser jogado no olho do furacão que é o Flamengo em crise.

Rafael Vaz, vindo da reserva do Vasco que disputa a série B, é hoje o melhor zagueiro disponível do Flamengo. Joga como se estivesse à frente da zaga do Flamengo há 10 anos e gera um fenômeno extremamente curioso: não desperta o ódio dos vascaínos como de costume nestes casos. Conversando com alguns, é possível notar certo orgulho, ainda que tímido. Não houve estranhamento, adaptação, nervosismo ou coisa parecida. Impressionante, no mínimo.

3) O ambicioso Arão

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Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

Ambição define William Arão. Saiu jovem de um Corinthians campeão mundial. Rodou em times modestos. Por ambição trocou o Botafogo pelo Flamengo num processo tão decidido de sua parte que produziu até devolução de dinheiro depositado em conta. Arão realmente não queria ficar. Ele queria o Flamengo.

Com Muricy e sua suposta “modernização”, jogava mais livre e mais agudo. Sua crescente produção com Zé Ricardo evidencia duas coisas: que ele estava mal posicionado e que a braçadeira de capitão do Flamengo nele (devido à lesão de Juan) parece ter gerado um acréscimo de habilidades tal qual um item mágico num personagem de RPG. Arão diz em todas as entrevistas que ambiciona a seleção brasileira. Não duvide dele que já foi jogador do TiteÉ o melhor e mais regular jogador rubro-negro da temporada até aqui.

4) A troca de comando. O consagrado Muricy e o interino Zé Ricardo

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Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

O acontecimento é padronizado aos olhos do rubro-negro mais atento. Sai o técnico consagrado, assume o “prata da casa”. Os bons resultados chegam e, em alguns casos, levam a títulos. Coutinho por Capegianni, Cuca por Andrade, Mano por Jayme, além de Carlinhos… Muricy por Zé Ricardo…

Comandante do talentoso time sub 20 campeão da Copinha de 2016, Zé Ricardo se viu diante de um desafio imenso: o Flamengo, imerso na crise técnica e institucional, requisitou a sua presença frente à equipe. A seu favor, além do padrão coincidente, existem o mérito de compactar a arrumar uma equipe que estava defensivamente fragilizada e a média de bons resultados. Mesmo quando perdeu, a equipe se postou bem.

Zé Ricardo manteve os pontas do Flamengo, mas rapidamente viu que não havia futuro brilhante no 433. Seu time se reveza, ora no 4231, ora no 4141. Seu maior problema é não desfrutar de pontas de recursos. Éverton, Gabriel, Fernandinho e, sobretudo, Cirino, juntos, não dão os 2 jogadores necessários pra que o esquema flua sem sustos maiores. Seu “melhor” jogador de lado (o que vem sendo chamado de “externo”), Sheik, joga 1 jogo e desfalca 4.

Talvez seja por esta limitação de elenco que Zé Ricardo repetidamente abra mão de um jogador de ataque, normalmente seu centroavante (nos jogos sob seu comando foi o inexperiente Vizeu), colocando um volante e, num caso mais explícito de retranca despudorada, Pará como homem de meio. Será curioso ver como será seu comportamento dispondo de Guerrero; atacante com mais recursos do que o jovem Vizeu. Não chega a ser o “Muricybol”, mas é uma estratégia pragmática. Uma vez em vantagem, a retranca vem não importa o contexto.

5) “Haters gonna Hate!!” Márcio Araújo e sua titularidade.

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Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

Do gol irregular sobre o Vasco que deu o título estadual ao Flamengo em 2014 até a partida da rodada recente contra o Santa Cruz, Márcio Araújo viveu na pele uma espécie de montanha-russa. Jogador que, mesmo tendo atuado em várias partidas desde que chegou, nunca caiu nas graças da torcida e foi “ressuscitado”, aparentemente, como homem de confiança de Zé Ricardo. Para piorar a antipatia que rege a relação da torcida com o jogador, sua escalação custa caro ao Fla. Coloca 2 gringos, um deles bem caro, no banco (Cuellar e Mancuello)e afunda outro gringo (Canteros) no mais completo poço de ostracismo. Mas jogando bem ou mal, partida após partida, lá está Márcio Araújo como primeiro volante. Gostem ou não.

6) 19=1+9 =10 = Alan Patrick

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Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

Deste cálculo canhestro saiu o 10 que o Flamengo há tanto procurava. Melhorou em sua regularidade após o mal fadado episódio do “bonde”, teve seu empréstimo renovado e hoje participa de 80% do que o Flamengo cria em termos de ataque resultando em gol ou não. Junto a Muralha, Rafael Vaz (antes Juan), e Arão, começa a formar uma espinha dorsal que carece apenas de mais um elemento: Paolo Guerrero ou outro centroavante que saiba fazer gols.

Os pontos para reflexões se apresentam da seguinte forma:

Nestas 10 primeiras rodadas, o Flamengo é o melhor visitante. Como seria o seu desempenho podendo jogar no Maracanã ou “dentro” do RJ?

Deveria Zé Ricardo ser efetivado no comando?

O Flamengo pensa em reforçar o seu ataque entulhado de jogadores inofensivos?

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