A história contada pela comunhão de organização e coração

Foto: Twitter Oficial Federação Portuguesa de Futebol (@selecaoportugal)

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É comum pensar na Seleção de Portugal como um grupo composto por atletas com algum talento e que baseiam seu jogo na figura de seu maior craque, Cristiano Ronaldo. Diante deste quadro, o mundo se deparou com um momento de muita dúvida quando, na final da Euro 2016, o Gajo deixou o gramado do Saint-Denis precocemente, lesionado. Quem não teve muito tempo para pensar e com precisão rearmou a Seleção das Quinas foi Fernando Santos, um treinador muitas vezes criticado, mas que teve grandes méritos.

Sem sua grande referência, Nani herdou a braçadeira de capitão e o time se rearranjou, trazendo o promissor Renato Sanches ao setor que mais lhe é confortável, a meia-cancha, e abrindo o talentoso Ricardo Quaresma. Como a França já havia feito contra a Alemanha, Portugal atuou com a consciência de quem sabe que se for para o jogo franco fatalmente perderá. Assim, se organizou e começou a desempenhar com brilhantismo seu jogo. Foi dessa forma que o craque Dimitri Payet deixou de ver a cor da bola e mostrou futebol muito abaixo de sua alta média. O mesmo pôde ser dito sobre Antoine Griezmann.

Enquanto o setor defensivo português fazia partida exemplar, os franceses tentavam dominar a posse da bola, mas pouco conseguiam criar efetivamente. O bom papel de pivô que Olivier Giroud vinha fazendo também não foi visto, assim como o talento de Paul Pogba. Diante disso, o primeiro coadjuvante passou a brilhar. Pelo Bleus, Moussa Sissoko deslumbrou os espectadores com uma exibição que aliou com perfeição força e técnica. Todavia, do lado Luso a figura de Rui Patrício se impôs. O arqueiro do Sporting esteve impecável, confirmando uma tendência da própria competição.

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Enquanto a França tentava desbravar a sólida retaguarda lusitana com seu talento, os incansáveis marcadores vindos da margem esquerda da Península Ibérica (e também da África e do Brasil) seguiam entregando o melhor de si mesmos. Enquanto os corações de narradores e torcedores subiam em direção as suas gargantas, os dos jogadores desciam à ponta de suas chuteiras.

Não é que Portugal não tenha mostrado talento – muito pelo contrário – mas seu diferencial foi outro. A capacidade para se reorganizar sem sua grande referência técnica e moral, aquele que é possivelmente o maior de todos os tempos nascido no país, foi impressionante. O time que começou a disputa sendo referenciado como “CR7 + 10” transformou-se na equipe de Willian Carvalho, João Mário, Adrien Silva, Renato Sanches, Nani, Rui Patrício, Pepe e companhia. A locomotiva portuguesa provou que conseguia seguir em frente sem seu maquinista.

A despeito de tudo isso, a figura de Cristiano Ronaldo ainda foi determinante para tudo o que se seguiu. Veio daquele que nada precisa provar a ninguém no mundo da bola a maior amostra de que o futebol é muito mais que talento. De suas lágrimas e da persistência para se manter em campo veio o gás adicional que seus companheiros precisavam. Se antes já vinham jogando por um país inteiro e na busca por um feito inédito, a saída de seu maior ídolo deu a lufada extra de ar pela qual seus pulmões clamavam. O exemplo de CR7 foi seguido.

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Já pararam para pensar o que passou pela cabeça de Renato Sanches ao ver seu capitão desmanchando-se em lágrimas? Vale a lembrança de que na fatídica Euro de 2004, quando viu seu país perder a final para a surpreendente Grécia e possivelmente tinha em Cristiano um ídolo, a promessa tinha apenas seis anos.

Foi assim que tudo se seguiu: um time de coadjuvantes valentes foi indo e chegou à prorrogação. Ressalte-se, todavia, que pouco antes, Fernando Santos se recusou a não acreditar no título e ousou. Do banco saiu Éderzito António Macedo Lopes, um centroavante, mas, antes de tudo, um centroavante de qualidade contestável. A despeito de tudo isso, enquanto muitos se preocupavam em criticá-lo, seu plano de ação era posto em prática.

O time tinha um meio-campista a menos, o que, em tese, teria como reflexo uma marcação mais fraca. Não obstante, Éder entrou obstinado e começou a tornar a vida da defesa francesa um inferno. Jogando como pivô, prendeu a retaguarda dos Bleus e começou a sofrer faltas e preocupar. E foi daí que saiu o improvável, o intangível, o incrível e emocionante. Quando a bola veio da esquerda, o atacante nascido em Guiné-Bissau se livrou de seu antagonista e de longa distância chutou. No momento em que o xingamento de alguns se preparava para sair da garganta, o êxito extinguiu-o. Hugo Lloris não chegou e o inédito aconteceu.

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Campeão! Sim, Portugal se confirmou campeão. E a razão é agora fácil de explicar. O time foi conjunto, doação e paixão. A dependência de CR7 deu lugar à entrega irrepreensível. Do lado de fora, não é possível confirmar se foi Fernando Santos, Cristiano Ronaldo, uma santidade ou o imponderável que conseguiu conduzir o time a tal feito. O certo, aquilo que as imagens deixaram transparecer, é que, mais uma vez, a história do futebol nos provou que talento é fundamental, mas organização e coração também o são. Esse é um dos vários fatores que torna o futebol inexplicavelmente apaixonante.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.