Inglaterra aposta na competitividade

Foto: Twitter oficial da Seleção Inglesa (@England)

Foto: Twitter oficial da Seleção Inglesa (@England) | Allardyce é o novo treinador da Inglaterra

A Seleção Inglesa não fez uma boa Euro 2016. Apresentando nova geração de jovens talentos, figuras como Dele Alli, Harry Kane, Eric Dier ou Marcus Rashford, os ingleses foram à França como potencial surpresa, mas novamente decepcionaram. Como revelaram os resultados nas eliminatórias para o certame, Roy Hodgson vinha lidando bem com a ingrata missão de construir uma nova realidade no English Team, tendo perdido a maior parte dos destaques da última década, exceção feita a Wayne Rooney. Não obstante, não resistiu a mais um fracasso e foi demitido. Para seu lugar chega Sam Allardyce.

Nos últimos anos, Big Sam se especializou em uma tarefa: evitar rebaixamentos. Utilizando-se habitualmente de esquemas de jogo com poucas alternativas, porém primorosamente organizados, com forte marcação, linhas muito unidas, chutões e bolas paradas como filosofia, passou várias temporadas no West Ham e terminou a última no Sunderland, conseguindo o objetivo delimitado, a permanência dos Black Cats na Premier League.

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Foto: TheFA.com | Dele Alli é uma das grandes promessas inglesas

Embora Allardyce usualmente se defenda das críticas com relação à falta de atrativos de seu jogo, na prática tem sido difícil não apontar o estilo duro e direto aplicado pelo comandante como sua marca registrada. Em certa ocasião, José Mourinho chegou a chamar o jogo de Allardyce de “futebol do século XIX”. Não se pode dizer, no entanto, que com as peças de que dispunha pudesse tentar uma abordagem menos rígida e mais criativa.

Essa é a razão que torna complexa a interpretação da escolha dos Three Lions por Sam Allardyce. Pode até ser que toda a crítica esteja equivocada e o treinador somente tenha se utilizado do estilo pouco atrativo nas últimas temporadas em razão da necessidade. Todavia, diante da falta de dados que digam o contrário é difícil entender.

A geração de jogadores que o inglês comandará se destaca pelo bom futebol jogado no solo e não pelo ar. A renovação do English Team não trouxe jogadores com o estilo de Frank Lampard, Steven Gerrard, David Beckham ou Paul Scholes, mestres dos passes longos, mas atletas que trabalham melhor com a bola no chão, toques curtos e movimentação intensa, como Alli, Ross Barkley, Jordan Henderson, Adam Lallana ou Jack Wilshere. Tampouco há centroavantes de imposição aérea. Jamie Vardy, Kane ou Rashford não têm esse perfil – isso tudo sem falar em Wayne Rooney. Em contraponto, há algo que é inegável: é sempre difícil bater os times treinados por Big Sam.

Foto: TheFA.com | Barkley ganhou espaço nos últimos anos

Foto: TheFA.com | Barkley ganhou espaço nos últimos anos

O treinador também é conhecido por ser um bom motivador, uma característica que pode não ser determinante para o sucesso no futebol, mas tem seu valor. Nesse sentido, Allardyce pode trazer benefícios à Seleção Inglesa. Esse é um fator que tem sido visto pela imprensa local como positivo, uma vez que ao menos no país a crítica aponta a existência de um sentimento de inferioridade e persistente pessimismo internalizado no seio da seleção.

No campo, a dúvida perene é a adaptabilidade do treinador ao grupo de atletas que armará. Organizar e incutir espírito coletivo em uma equipe limitada é uma tarefa bem diferente daquela que o comandante terá. Seu grupo é talentoso. Do meio-campo até o ataque, praticamente só Eric Dier tem predicados intrinsecamente ligados à marcação. Aliás, não se deve descartar a possibilidade de o treinador deixar de chamar jogadores de boa qualidade técnica em prol de figuras com maior consciência coletiva.

Foto: TheFA.com | Dier vem sendo titular absoluto

Foto: TheFA.com | Dier vem sendo titular absoluto

Pelo que vem apresentando ao longo do tempo, é natural que Allardyce tente organizar sua seleção primeiramente em uma sólida base defensiva, entretanto, a tarefa será difícil; há poucos jogadores com essas características. Por isso tanto se questiona sua escolha. Sua ideia de jogo não parece integrável às alternativas de que disporá. Mais que isso: mantendo os princípios que caracterizam seus últimos times, seu plano pode limitar as qualidades de seus prospectos.

Contudo, parece evidente que a contratação tem como ideal a transformação da Seleção Inglesa em um time competitivo. É uma forma de trabalhar e pode dar bons resultados.

Foto: TheFA.com | Jogadores como Mark Noble podem ganhar espaço

Foto: TheFA.com | Jogadores como Mark Noble podem ganhar espaço

Entendendo que faltou organização tática e fortes atributos mentais ao time que fracassou na França, a Federação Inglesa fez sua opção: apostou suas fichas em um treinador que tem demonstrado ter nessas facetas sua maior aptidão. Como sempre, a linha entre fracasso e sucesso é tênue e um bom desempenho dependerá da adesão e adaptação dos jogadores escolhidos às ideias do treinador, justamente o fato gerador de grande parte das dúvidas com relação ao futuro dos Three Lions.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.