Sevilla pode ser passaporte para a redenção de Ganso

Meia voltou a jogar futebol à altura de seu talento no São Paulo (Foto: Rubens Chiri/SPFC.net)

Meia voltou a jogar futebol à altura de seu talento no São Paulo (Foto: Rubens Chiri/SPFC.net)

Falar de Paulo Henrique Ganso é falar de um jogador de qualidades técnicas indiscutíveis. Visão de jogo, habilidade e elegância são marcas características do jogador que surgiu no Santos como um dos mais promissores meias do futebol mundial, mas demorou a se consolidar como uma realidade. Jogando pelo São Paulo, ele deixou para trás os problemas físicos e voltou a ser referência de uma equipe forte. Até que o desempenho consistente lhe rendeu sua grande chance de realizar o que parece ser seu maior desejo: atuar em uma equipe de ponta da Europa.

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O Sevilla é o clube que está muito próximo de acertar com Ganso, conforme revelou o presidente do São Paulo, na última terça-feira. Os atuais tricampeões europeus vivem um período de reformulação: perderam o vitorioso comandante Unai Emery e jogadores como os meias Grzegorz Krychowiak e Éver Banega, fundamentais nas conquistas recentes. Nesse cenário, o meia são-paulino desembarca na Andaluzia como uma das principais apostas do novo técnico, Jorge Sampaoli, de larga experiência no futebol sul-americano e que certamente conhece bem seu futebol.

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Prestígio com o professor
Sampaoli chega ao Sevilla como um dos treinadores mais desejados do mundo. Campeão da Copa América com a seleção chilena, o argentino se tornou sinônimo de futebol bem jogado, com conceitos modernos e muita dinâmica. Ao contrário do que enfrentou quando assumiu a Roja, ele encontrará no clube um elenco vencedor, que ainda possui jogadores de qualidade em todos os setores. Seu desafio inicial, no entanto, é repor bem as perdas no meio-campo – e, nesse sentido, a contratação de Ganso foi quase uma exigência. O que mostra o tamanho da confiança que ele tem no brasileiro.

Recebida pela presidenta Michele Bachelet, Roja de Sampaoli favoreceu meio-campistas (Foto: Wikicommons)

Recebida pela presidenta Michele Bachelet, Roja de Sampaoli favoreceu meio-campistas (Foto: Wikicommons)

Ele acredita que Ganso é capaz de ser fundamental na construção do jogo. A imprensa vem especulando que o técnico planeja colocá-lo para atuar em uma função mais recuada, próxima do que os italianos costumam chamar de regista. Não foi bem assim que o meia reencontrou seu melhor futebol jogando pelo São Paulo, e ele próprio sabe disso. Mas se um dos técnicos mais competentes do planeta crê – e está disposto a apostar suas fichas na ideia –, por que não embarcar nessa junto com ele?

Além do mais, o fato de jogar mais distante dos atacantes não significa, necessariamente, que Ganso estará longe do gol. Sampaoli construiu sua reputação por montar equipes compactas, que praticam à excelência o jogo posicional e, por isso, permitem que jogadores de meio-campo e até de defesa avancem e criem perigo ao adversário. Foi assim que a sua Universidad de Chile lançou meias de ótima chegada ao ataque, como Charles Aránguiz e Marcelo Díaz. Na Roja, algumas de suas jogadas mais letais eram as investidas de Arturo Vidal pelo corredor central. É mais ou menos isso que ele espera do brasileiro, que tem leitura de jogo acima da média para abrir espaços, mas também possui qualidade para definir as jogadas criadas pelos companheiros.

Porta de entrada

Também saído do São Paulo, Júlio Baptista fez sucesso no Sevilla e chegou ao Real Madrid (Foto: LFP)

Também saído do São Paulo, Júlio Baptista fez sucesso no Sevilla e chegou ao Real Madrid (Foto: LFP)

Renato, Júlio Baptista, Luís Fabiano, Adriano, Dani Alves… todos esses nomes – dois deles, ex-são-paulinos – tiveram papel de destaque nesse Sevilla vencedor das últimas décadas. Se até a década de 90 jogadores brasileiros eram alvo de desconfiança por parte da torcida nervionense, desde a chegada do lateral baiano essa realidade mudou drasticamente. O último exemplar dessa linhagem é o lateral Mariano, que foi um dos protagonistas do último título europeu do clube e terminou a temporada cobiçado por grandes equipes.

Aliás, essa valorização é algo comum a todos aos brasileiros que passaram pelo clube nos últimos quinze anos. O bom trabalho de prospecção de talentos somado ao ótimo desempenho nos torneios europeus fez o Sevilla lucrar muito com transferências – Dani Alves e Júlio Baptista, por exemplo, deixaram o clube por cifras milionárias, para brilhar nos gigantes Barcelona e Real Madrid. Com menos destaque, Adriano também trocou a camisa rojiblanca pela blaugrana e cansou de levantar taças. Quem não se transferiu, ficou para fazer história na Andaluzia: Renato se tornou um ídolo dos torcedores, enquanto Luís Fabiano assumiu o posto de 5º maior artilheiro da história do clube.

Renato e Luís Fabiano, brasileiros que fizeram história no Sevilla (Foto: Divulgação)

Renato e Luís Fabiano, brasileiros que fizeram história com a camisa do Sevilla (Foto: Divulgação)

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Esse fenômeno não é restrito aos brasileiros. Que o digam os centroavantes que vestiram a camisa rojiblanca nos últimos anos, como Carlos Bacca e Álvaro Negredo, ou meias como Jesús Navas, Ivan Rakitic e o já citado Krychowiak. Todos eles saíram do Sevilla pela porta da frente, após títulos importantes e deixando cifras milionárias nos cofres do clube que, por isso, passou a ser visto como um grande lançador de talentos.

Para Ganso, todo esse retrospecto recente do Sevilla indica que sua passagem pela Andaluzia pode ser apenas o início de uma trajetória muito mais gloriosa. Aos 26 anos, ele vem conseguindo se manter em grande condição física (em que pese a lesão que o tirou das semifinais da Libertadores) e tem tudo para triunfar no futebol europeu. Jogará em um clube vencedor, com a confiança plena de um técnico com amplo respaldo por parte de diretoria, torcida e imprensa. Chegou a hora do mundo conhecer o talento do camisa 10 que, há tanto tempo, os brasileiros esperam.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.