DPF entrevista Hugo Schoukens, CEO da Double Pass, a empresa que mudou o futebol alemão

  • por Yuri Casari
  • 2 Anos atrás

Müller, Klose, Kroos, Kroos, Khedira, Schürlle, Schürlle, Oscar. Assim que o apito encerrou o massacre no Mineirão naquele inesquecível 8 de julho de 2014. centenas de análises passaram a mostrar o que fizemos de errado, não apenas naquele jogo, mas em toda nossa organização no futebol. Outras centenas de reportagens mostraram o outro lado, o que fez com que a Alemanha saísse de um período de estagnação técnica para um ciclo de talentos e conquistas. E em várias delas se destacou o trabalho de uma empresa belga no processo que culminou com o título da Copa do Mundo: a Double Pass. A organização, fundada em meados de 2001, possui em seu portifólio trabalhos com diversos clubes, federações e ligas, como a Federação Belga, a Premier League, a J.League, a MLS, entre outras entidades, e tem como trabalho básico a avaliação e a padronização de processos no futebol de base e profissional. Recentemente, ainda na chamada “era Dunga”, a imprensa brasileira chegou a noticiar que a Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, havia recusado os serviços da empresa. Para entender o porquê a Double Pass chamou a atenção de tantas entidades esportivas de prestígio, o Doentes por Futebol ouviu com exclusividade o CEO da empresa, Hugo Schoukens.

Hugo Schoukens, CEO da Double Pass, com o diretor de tecnologia Robbie de Sutter e o diretor de produtos Jo Van Hoecke.

Hugo Schoukens, CEO da Double Pass, com o diretor de tecnologia Robbie de Sutter e o diretor de produtos Jo Van Hoecke.

DPF – Primeiramente, gostaríamos de entender um pouco mais do trabalho da Double Pass. O que é feito em clubes e federações por vocês?

Hugo Schoukens – É mesmo difícil entender o que fazemos. O mais importante (a se entender) é que estimulamos e apoiamos federações e clubes a instituir um sistema de desenvolvimento de talentos. Não é uma abordagem orgânica, mas uma formalização de um sistema sustentável. Isso significa que é tudo baseado em um planejamento e desenvolver esse planejamento é o primeiro passo. Criar divisões e critérios sobre o desenvolvimento de talentos, sobre a arquitetura disso. É (um trabalho) sobre filosofia de futebol, estilo de jogo, currículo, e então, tentar implantar isto nos clubes.

DPF – E quais são os passos que são realizados nesse início de trabalho?

HS – Inicialmente nós analisamos o que acontece nos clubes e federações, produzindo relatórios e recomendações, e depois vamos ao clube para alterar processos e implementar uma gestão. Então, concretamente, nós vamos ao clube, e os analisamos. Perguntamos a eles sobre o currículo dos profissionais envolvidos, sobre como eles desenvolvem talentos, sobre todos os treinadores, sobre a abordagem metodológica. Então nós analisamos essas informações e observamos sessões de treinamentos e jogos. A partir disso realizamos um relatório preliminar com recomendações, e depois ajudamos na progressão curricular, na transição dos jogadores de uma categoria pra outra, ou da base para o time principal. Ajudando a desenvolver (os atletas) e implantando isso no campo. Atualmente o futebol não é apenas baseado nos quesitos técnicos e físicos. Mas também na inteligência do jogador. E isso faz toda a diferença. A abordagem tática do jogo. A visão é realizar tudo o que você faz nas sessões de treino, retirando da realidade do jogo. Fazer todos os exercícios relacionados ao que acontece durante um jogo. Se você ver o que é feito na maioria dos lugares, é um treinamento técnico, físico e até mental. O que fazemos é integrar processos, ideias de todos os aspectos, mas o principal é o aspecto tático, o jogo. O entendimento do jogo. Toda a técnica que você aprende deve estar relacionada com o que acontece no jogo. É um trabalho de conceito. Nós analisamos, discutimos, produzimos relatórios e oferecemos a mudança na gestão e a implantação de processos.

DPF – E como vocês convencem os clubes e as federações a aceitarem o que é apresentado por vocês?

HS – O slogan da Double Pass é: “together for more better players” (juntos por melhores jogadores, em tradução livre). Nós discutimos, nós pensamos sobre a cultura, o DNA do clube, da federação, do país. Um exemplo é que nós estamos indo ao Galatasaray. Nós gastamos muito tempo para entender a cultura do clube, a cultura turca, e nós adaptamos o modelo para eles. “Juntos” é uma palavra-chave para o que fazemos. Nós não chegamos e falamos “ouçam, este é um modelo e vocês devem implantar”. Nós temos uma longa discussão para entendermos o que eles desejam, o que eles querem, e adaptamos o modelo. Então nós entramos em um consenso, e só aí nós niciamos a mudança, começamos a implantar os processos.

DPF – A imprensa brasileira noticiou em abril, antes da demissão do treinador Dunga que a CBF rejeitou os serviços da Double Pass. Isso realmente aconteceu? Como aconteceu essas conversas? 

HS – Sim, isso aconteceu. Ficou claro que as pessoas com quem falamos estavam mais interessadas no curto prazo. E o que fazemos está focado em um trabalho a longo prazo. Não é de um dia para outro que você muda estratégias. Isso leva tempo. Leva aproximadamente seis a nove anos para que as coisas mudem.

DPF – A Seleção Brasileira está com um novo treinador, o Tite, ex-Corinthians. Há ap ossibilidade de um novo contato entre a Double Pass e a CBF?

HS – Não é algo difícil entrarmos em contato de novo. Mas tudo depende das pessoas. Elas tem que entender como podemos ser úteis.

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DPF – Imagino que muitos clubes de todos os tamanhos busquem o serviço de vocês. É necessário ter alguma infra-estrutura básica para isso?

HS – Nós trabalhamos desde o futebol de base até o nível profissional. Para instalar um sistema de desenvolvimento não importa o quão grande é um clube. É claro, que se você quer um alto nível no desenvolvimento de atletas, você precisa de uma infra-estrutura básica, de profissionais e pessoas com essa visão e mentalidade.

DPF – Aqui no Brasil nós temos um problema com trabalho a longo prazo. Os clubes profissionais demitem e contratam treinadores em questão de meses. O que você acha desse tipo de gestão?

HS – No futebol, o resultado a curto prazo é forte. Ou seja, tudo é relacionado apenas aos resultados. É tudo baseado nos resultados, e nada na visão, estilo de jogo, o que você quer como objetivo neste ano, o que você quer em resultados a longo prazo, nos próximos dois anos, que seja. Nós tínhamos essa mesma situação na Bélgica há doze anos. Estimulamos as pessoas a pensar sobre isso. No trabalho de longo prazo, você consegue ter um planejamento, um sistema de desenvolvimento de talentos, de jogadores. Você não está sendo contratado ou demitido. É uma mudança de mentalidade, mas é uma mudança que parte dos líderes. Isso começa pelos líderes, tendo essa visão, promovendo essa visão e dando continuidade ao desenvolvimento de atletas no mais alto nível.

DPF – A Double Pass já está estabelecida na Europa e tem conquistado novos mercados, como o japonês e o norte-americano. E sobre a América do Sul? Somos parceiros em potencial da Double Pass, mesmo com as diferenças culturais?

HS – Eu entendo que há uma grande diferença entre os países sul-americanos e europeus. Os países da América do Sul realizam tudo baseado em uma abordagem orgânica do futebol. O desenvolvimento acontece por si só, e é isso. Mas isso não funciona mais dessa maneira. Futebol hoje é inteligência, organização, mais tático que técnico. Pegando a Eurocopa como exemplo, até países menores como a Albânia possui jogadores com boas habilidades técnicas. Mas quando você olha países com mais tradição, como Alemanha, França, há um maior entendimento do jogo nesse processo. Eu acho que é importante para o futebol sul-americano buscar esse entendimento do jogo. É claro que toda abordagem é híbrida. Isso significa que não é apenas sobre futebol, mas também sobre outros aspectos: o médico, o mental, o social, o educacional. A América do Sul é um público-alvo para nós, mas nos já vemos a maioria das pessoas buscando partir de um trabalho mais orgânico, mais informal, para fazer as coisas de uma maneira mais formal. Os líderes nesses países tem que entender isso. É preciso criar uma melhor estrutura organizacional do futebol. Desde o desenvolvimento de jogadores até o primeiro time. Nós estamos trabalhando atualmente com a Federação dos Estados Unidos, a MLS, e também no Japão. São ligas que possuem cerca de vinte anos, possuem atletas habilidosos, técnicos, com bom físico, mas o entendimento do jogo é tudo.

DPF – Após o 7 a 1, a pior derrota da história da Seleção Brasileira, muito se discute na imprensa sobre o que o Brasil precisa fazer para recuperar a auto-estima. Como você vê a situação do futebol brasileiro?

HS – Na época em que nos reunimos com a CBF, há cerca de um, dois anos atrás, era um momento em que preparavam o time olímpico. Nós analisamos alguns jogos. E nós percebemos que vocês possuem jogadores muito habilidosos, preparados fisicamente, mas como disse antes, é tudo sobre o entendimento do jogo.  E algo que percebemos no futebol sul-americano, especialmente no brasileiro, é que é preciso pensar: qual o seu estilo de jogo? Que tipo de futebol você quer jogar? Qual o princípio sobre ataque, defesa, transições durante o jogo? E você delimita isso porque é importante. E é ainda mais importante focar os treinamentos no aspecto tático do jogo.

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Respiro futebol 24 horas por dia. Jogo, assisto, torço, leio, escrevo, penso. Enfim, sou um doente por futebol.