Martínez na Bélgica: uma aposta consciente

Foto: Twitter oficial da Seleção Belga (@BelRedDevils)

Foto: Twitter oficial da Seleção Belga (@BelRedDevils) | Martínez foi apresentado nesta quinta-feira (04)

Não é de hoje que se fala na “Geração Belga” com muitos adjetivos elogiosos: promissora, ótima, jovem, talentosa… No entanto, sob o comando de Marc Wilmots, o time de Eden Hazard, Kevin De Bruyne e companhia não alcançou o nível esperado pelos apaixonados pelo futebol. A estrela de seus grandes expoentes nunca se mostrou tão brilhante com a camisa dos Diabos Vermelhos quanto envergando o manto de suas equipes.

Após campanhas abaixo das expectativas na Copa do Mundo de 2014 e na Euro 2016 e, possivelmente, temendo o desperdício de uma geração que é realmente especial, a Federação Belga demitiu Wilmots e anunciou há pouco seu substituto: Roberto Martínez.

Foto: EvertonFC.com

Foto: EvertonFC.com | Lukaku e Mirallas reencontrarão o treinador Roberto Martínez

Ex-comandante de Kevin Mirallas e Romelu Lukaku no Everton, o espanhol tem em seu trabalho algo que faltou ao selecionado belga: identidade. É possível determinar como o treinador enxerga a melhor faceta do futebol e o que tenta com seus trabalhos. Nesse sentido, sempre mostrou apreço pelo jogo ofensivo e criativo, o que algumas vezes trouxe problemas às equipes que treinou, em razão de sua veia excessivamente ofensiva, mas também conduziu-as a bons momentos.

Além disso, nos últimos anos mostrou ser capaz de trabalhar com jogadores jovens e ajudá-los a evoluir. O significativo desenvolvimento de John Stones (a despeito de uma temporada abaixo do esperado em 15-16), Ross Barkley, Lukaku e Gerard Deulofeu – além da flagrante evolução técnica de Seamus Coleman – não deixam margem para dúvidas. Na Seleção Belga, Martínez encontrará um grande número de jogadores que, mesmo já não sendo tão jovens, ainda não alcançaram o pico máximo de suas capacidades técnicas, podendo ser explorados.

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Foto: Twitter oficial da Seleção Belga (@BelRedDevils) | Hazard nunca conseguiu ser pela seleção o que é em seus clubes

Para impor sua ideia de jogo, RM precisa ter à disposição atletas que privilegiem a qualidade técnica, o passe, a movimentação e o drible. No fim, o treinador nascido em Balaguer não nega suas origens: é filho da escola catalã de futebol. Tristemente para o comandante, esse foi um dos pontos capazes de justificar a rápida deterioração de seu prestígio em Liverpool. Muitas vezes Martínez evitou a cautela e em momentos importantes deixou pontos vitais passarem, agarrando-se a sua ideia com unhas e dentes.

Na Bélgica, entretanto, é difícil não pensar em um bom trabalho tendo esse estilo e filosofia como nortes. Há poucos “brucutus” selecionáveis. Mesmo volantes que às vezes passam do ponto e provocam entradas duras, casos por exemplo de Radja Nainggolan e Marouane Fellaini, possuem técnica. Até os zagueiros mostram desenvoltura para sair jogando; basta dizer que Vincent Kompany foi durante grande parte da carreira volante e Toby Alderweireld, Jan Vertonghen e Thomas Vermaelen laterais.

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Foto: Twitter oficial da Seleção Belga (@BelRedDevils) | Martínez terá a missão de conseguir o melhor de seus jogadores

Os jogadores que Roberto Martínez terá a seu dispor em seu selecionado estão acostumados a tratar bem a bola. É notório o gosto pela posse e boa gestão da redonda. A escolha da Federação Belga é plenamente compreensível, pois em muitas ocasiões restou demonstrado que a postura conservadora de Wilmots atrasou o desenvolvimento dos Roten Teufel. Na busca pelo alcance de um jogo coletivo sólido, o ex-treinador belga acabou limitando a individualidade de seus destaques e o futebol que se viu não foi atraente. A contratação de Roberto Martínez vem na contramão de tudo isso.

É esperado que o time belga se remodele profundamente, com jogadores inventivos podendo criar e bons passadores dominar o meio-campo e alimentar o centroavante – habitualmente Lukaku. É claro que fica no ar a dúvida quanto ao desempenho defensivo, que pode ficar exposto, como o do Everton ficou. Todavia, não há como pensar diferente na tentativa de obtenção de sucesso. Quando tentou pensar em se organizar primeiro, a Bélgica perdeu o que tinha de melhor.

Foto: Twitter oficial da Seleção Belga (@BelRedDevils) | Mais uma vez, a Bélgica muda para tentar evoluir

Foto: Twitter oficial da Seleção Belga (@BelRedDevils) | Mais uma vez, a Bélgica muda para tentar evoluir

Martínez pode até não ser a melhor escolha para a Bélgica, mas é uma opção que faz sentido e, mais que isso, mostra que não estamos diante de um quadro em que a troca de técnico é meramente nominal. Com novas ideias e filosofia de jogo, a Bélgica tentará novamente tirar do papel – e do videogame – o desempenho que tanto levou os amantes do futebol a imaginá-la adentrando o rol das melhores equipes do mundo.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.