Três fantasmas entre o Brasil e o ouro olímpico

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O sonho dourado do futebol brasileiro está vivo. Depois de eliminar a Colômbia na Arena Corinthians, a Seleção chega à semifinal do torneio olímpico em uma crescente, embalada pelas vitórias convincentes sobre Dinamarca e Colômbia. Ainda sem sofrer gols na competição, o time comandado por Rogério Micale tem mais dois desafios antes de, enfim, saciar a obsessão nacional pelo ouro olímpico. E mais do que adversários complicados, o Brasil precisará enfrentar também alguns de seus fantasmas – países que já fizeram a camisa amarela passar vergonha e causam calafrios nos que não conseguem deixar de torcer pela equipe pentacampeã mundial.

A começar pelo adversário da semifinal. O torcedor mais desatento pode achar que Honduras será um rival inofensivo ante o poder de fogo de um ataque com Neymar, Gabigol, Gabriel Jesus e Luan. Pode até ser, mesmo. Mas há quinze anos, quando dar vexame ainda não era especialidade da seleção brasileira, essa camisa azul e branca provocou um grande choque: na Copa América de 2001, realizada na Colômbia, a Canarinho tinha Alex, Denílson, os Juninhos Pernambucano e Paulista, todos protegidos pelo paredão Marcos. Nenhum deles conseguiu evitar uma vergonhosa derrota por 2 a 0, que eliminou os brasileiros e virou lenda em Honduras.

A atual seleção hondurenha ainda não conseguiu mostrar nas Olimpíadas nada sequer próximo ao que apresentou aquela geração de 2001, semifinalista da Copa América. Seu grande feito foi ter eliminado a Argentina, com um empate em 1 a 1 na terceira partida do grupo D. Seus outros pontos na primeira fase foram conquistados na vitória por 3 a 2 sobre a Argélia, logo na estreia. Nas quartas de final, a equipe eliminou a Coreia do Sul, com uma vitória por 1 a 0. Sem grandes estrelas, seu maior trunfo é a organização tática promovida pelo técnico Jorge Luis Pinto, responsável pela brilhante campanha da Costa Rica na última Copa do Mundo.

Emerson era parte do time eliminado por Honduras na Copa América de 2001 (Foto: Arquivo)

Emerson era parte do time eliminado por Honduras na Copa América de 2001 (Foto: Arquivo)

Caso vençam Honduras e chegue à grande decisão olímpica, os brasileiros voltarão ao Maracanã para enfrentar mais um adversário que já aprontou para cima da Seleção – independentemente de quem sair vitorioso na outra semifinal.

Perigosos
Há exatos 20 anos, Galvão Bueno alertava sobre Nwankwo Kanu, o carrasco brasileiro nas Olimpíadas de Atlanta: “ele é perigoso!”. Vencendo a Nigéria por 3 a 1 até os 33 minutos do segundo tempo, a Seleção deixou os africanos empatarem no último minuto do tempo regulamentar. Na prorrogação, sofreu a virada, decretando o fim do sonho do ouro para uma equipe que contava com Ronaldo, Rivaldo, Bebeto, Sávio e outros grandes jogadores. Teve até um sermão daqueles do locutor global.

Nos Jogos do Rio, os nigerianos têm feito uma campanha digna. Líderes do grupo B com seis pontos, venceram Japão e Suécia e foram derrotados pela Colômbia. A grande referência da equipe é o experiente meia John Obi Mikel, do Chelsea, que comanda a equipe ao lado do goleiro Daniel Akpeyi, o mais rodado do grupo. Em tese, um time que, ao menos tecnicamente, não pode ser ladeado ao brasileiro. Mas que pode muito bem se aproveitar da pressão sobre os donos da casa – e dos traumas do passado – para fazer uma decisão nervosa.

“Lá vêm eles de novo…”

Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Foto: Rafael Ribeiro/CBF

As feridas ainda estão abertas. O 7 a 1 ainda ecoa entre os brasileiros a cada dia, a cada piada. Pouco mais de dois anos após esse vexame, a Seleção se vê novamente diante da possibilidade de enfrentar os alemães em um jogo decisivo e, mais uma vez, dentro de casa. Obviamente, as circunstâncias serão outras: estarão em campo equipes sub-23, sem qualquer atleta que tenha participado do fatídico “Mineirazo”. Mesmo assim, não surpreenderá se uma eventual final entre Brasil e Alemanha for tratada por imprensa e torcida como “revanche”, ou algo do gênero.

Se realmente vierem à tona, essas comparações com a semifinal da Copa de 2014 não podem invadir o ambiente da Seleção. A Alemanha veio ao Rio com um time com bons talentos individuais, mas sem muita experiência. Seus principais destaques são os meias Max Meyer e Serge Gnabry, que vêm fazendo uma ótima Olimpíada. A defesa, formada por Süle e Ginter e protegida pelos gêmeos Lars e Sven Bender, é sólida. Nada disso, no entanto, torna os alemães favoritos: esse Brasil tem poder de fogo de sobra para conquistar o único título que lhe falta, diante justamente do adversário que lhe traz suas piores memórias.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.