Roger Machado e as asas de cera tricolores

Naufragou mais uma nau do futebol brasileiro. Porém não falamos aqui das já fadadas, dos poços já secos, não falamos de qualquer: falamos, sem dúvida, de uma promissora. Trata-se aqui das velas de Roger Machado, voltando em cor escura do labirinto do Minotauro. De Camões jogando-se ao mar atrás dos Lusíadas. De Dédalo assistindo ao triste fim da outrora auspiciosa aventura de seu filho Ícaro.

É triste a retirada do enxadrista gaúcho, tanto aos ares do futebol brasileiro quanto às esperanças gremistas. Roger fora o vislumbre de uma luz na masmorra da garra tricolor. Explica-se: há anos cultiva orgulhosamente o torcedor gremista um inconfundível estilo (outros aqui poderiam chamar de alma). Suas raízes estão impetuosamente fincadas na longínqua década de 90, símbolo de um esquadrão tão furioso quanto eficiente.

Triturava no ataque e na defesa, sem dó, relegado aos árbitros que terminam goleadas sem acréscimos. Infelizes eram os contrários, que cabisbaixamente regressavam aos seus redutos. Muitas vezes portando não apenas o vexame da derrota, mas também alguns olhos roxos e fraturas expostas.

Se por um lado a faceirice do diabo loiro foi escanteada, as solas esmerilhadas do lenhador são louvadas. Como qualquer outro altar do gritante machismo que tão infrutiferamente acompanha o esporte bretão. Não que tal atleta não fosse dono de destreza impecável. No entanto se perpetuou a glória campal e uma que outra voadora desferida. Eventualmente, o lugar-comum tricolor passou a ser, ano a ano, uma variável do inglês KICK-N-RUN (aqui livremente traduzida por BATE E CORRE, em afronta à já estabelecida “chuta e corre” dos dicionários em descontexto com a versão gaudéria do mesmo), que não os trouxe mais do que penúrias.

E assim, presos ao seu próprio ideal do que em outros tempos fora o futebol, os gremistas aguardavam, esperançosos, alguém que os sacasse dessa masmorra. Através dos verões, aferrou-se o prisioneiro cada vez mais às algemas que outrora o alçavam ao posto-mór das dinastias do futebol brasileiro. Como uma legítima síndrome de Estocolmo, o acometido acarinhou-se, e, permitam a hipérbole, apaixonou-se pelo peso dos próprios grilhões.

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Arte: http://jameli.deviantart.com/

Insisto em lançar mão dos gregos, que já falaram tudo. Depois de construir o imbatível labirinto de Creta, Dédalo fora aprisionado na ilha. Sem condições de escape, tendo apenas consigo o seu filho, Ícaro, quem jamais havia visto qualquer coisa senão as lúgubres pedras daquela doméstica masmorra. Confiante na sua qualidade de maior inventor da Grécia antiga, Dédalo inovou e elaborou uma saída que nenhum cretense especularia. Estando água e terra bloqueadas, voaria como um pássaro. Construiu para si e para o herdeiro asas de cera, sobra de velas e penas, e, exitoso, lançou-se à fuga. Os prazeres da analogia. Mesmo com o Minotauro há anos a sete palmos do chão, ainda se orgulhava o Grêmio de suas peripécias passadas. Esquecendo que o labirinto era isso: um grandiosíssimo mausoléu repleto de nada.

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 Roger havia conseguido dar novos ares às ambições tricolores, da prisão ao voo livre. Com um intento de pós-modernismo futebolístico (visto por muitos como ATENTADO) havia esperanças. Existia algo no horizonte além da utopia, apesar de manobras errôneas aqui ou acolá.

Porém, como tudo somente termina quando o tio apita, a glória de Dédalo virou tragédia. Ícaro ignorou as recomendações paternas – estavam proibidos o voar perto ao sol ou ao mar, devido à fragilidade das asas de cera – e sucumbiu. Tal qual Dédalo, incapaz de controlar Ícaro, Roger viu seu projeto, outrora tão perto do sol, afundar nas profundezas. E ruiu tudo em apenas um mês. Mesmo com tamanho baque, deuses antigos e novos não terão propriedade para apontar os motivos da surpreendente saída. Especulo: é de se imaginar que, Roger, comendo na mesma mesa que Dédalo, seja um perfeccionista. Do vôo livre ao não atravessar de uma ponte, muito deve-se-lhe ter passado pela cabeça.


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Pisa Dédalo em terra firme, seu filho relegado ao passado. Segue Roger em frente, livre, olhos no futuro. Futuro que certamente lhe guarda as glórias que não alcançou no quintal de casa. A ele, toda a sorte. Ao Grêmio, resta a pergunta: retorna-se ao passado tão desatualizado? Volta-se à masmorra, com tensão fotofóbica, ou segue-se buscando, sem medo da luz, a terra firme?

Dir-nos-ão os próximos capítulos desta tão famigerada epopeia gremista.

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Antropólogo, fanático por relações internacionais, direitos humanos, literatura e, óbvio, Doente por Futebol. Além de colunista para o DPF, escrevo para o fã clube Borussia Dortmund Südbrasilien e no projeto latinoamericano Goltura Futebol. Jogo de segundo volante.