A Deep Web do futebol

  • por Lucas Sartorelli
  • 3 Anos atrás
Day 3 of the SAG Lime Invitational Challenge held at the Shrewsbury Aquatic Center on 5th September 2015.

Um dos muitos lances de gol das eliminatórias da CONCACAF – Foto: fifa.com

Pense no pior elenco que você já viu do seu time. Ou na pior equipe profissional que você tenha assistido no estádio ou pela TV. Esqueça o lanterna do campeonato brasileiro, os clubes da disputada série D, nem pense em Venezuela, Bolívia, Luxemburgo, Andorra ou até San Marino.

Provavelmente todos eles jogariam por música e seriam capazes de se impor em ritmo moderado contra determinadas seleções do planeta. Combinados de países minúsculos e até desconhecidos que, muitas vezes escondidos em meio à ilhas, estão engatinhando no esporte, mas já se aventuram em eliminatórias sonhando integrar a festa maior da elite do futebol mundial: uma Copa do Mundo.

Bem como o lendário e secreto conteúdo digital que se mantém desconhecido por boa parte dos usuários de internet do mundo, trazemos histórias e informações de equipes que normalmente estão longe de alcançar os primeiros degraus da superfície midiática e vistosa do esporte, mas que representam nações, carregam histórias e vivenciam de perto alegrias e tristezas, sentindo o duro impacto do desnível econômico e estrutural do futebol.

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Tonga x Samoa pelas eliminatórias da Oceania: o sonho da Copa do Mundo atinge a todos – Foto: fifa.com

Taiti, potência ou fiasco? Depende do ponto de vista

Em 2012, o Taiti disputou de forma surpreendente a final da Copa das Nações da Oceania, bateu a favorita Nova Caledônia e comemorou o título. A conquista foi ainda mais significativa, já que a equipe ganhou com ela o direito de participar pela primeira vez da Copa das Confederações, que seria disputada em 2013 no Brasil. O feito, até então era dominado por Austrália e Nova Zelândia, as potências do continente. Assim, em 2013, em meio a muita euforia e repleto de jogadores amadores, o Taiti atravessou o planeta e chegou ao país do futebol. No entanto, sentiu rapidamente o duro choque de realidade ao enfrentar seleções tradicionais. Com uma campanha de 3 jogos, 24 gols sofridos e 1 marcado, restou aos taitianos uma despedida se agarrando ao êxito de ter balançado a rede uma vez, na derrota por 7×1 na estreia contra a Nigéria.

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Um dos muitos gols espanhóis na derrota taitiana por 10×0 – Foto: fifa.com

Mas nem só de goleadas contras vive o Taiti. Um ano antes, o animado elenco entrava em campo pela Copa das Nações da Oceania em um início mais feliz. Atropelou Samoa por 10×1, dando mostras de que queria a vaga no Brasil. Poucos dias depois, Nova Caledônia, a outra futura finalista, enfrentaria o mesmo frágil adversário e faria 9×0. Samoa, que em meio a seu vasto histórico de derrotas impactantes, na década de 2000 registra uma única goleada a favor: 4×0 contra Samoa Americana, a famosa seleção que se tornou conhecida por ter levado 31×0 da Austrália nas eliminatórias da Copa do Mundo de 2002.

Samoa Americana viria a marcar seu primeiro gol oficial na história somente em 2007, num pênalti convertido contra Ilhas Salomão. A lendária primeira vitória viria em 2011, em um 4×0 contra Tonga. Tonga, que caiu diante da Austrália por 22×0 em 2001. E que teve sua única vitória frente à Ilhas Cook, por 2×1, em 2004. Cook, país menos populoso dentre todas as seleções ranqueadas da Fifa e que perdeu por 30×0 em sua estreia no futebol, em 1971. Para o Taiti.

Palestina, que goleia Timor Leste, que goleia Mongólia, que goleia Ilhas Marianas….

Na Ásia, a realidade não é diferente e os abismos estão presentes. A Mongólia figura entre os 20 maiores países do mundo em área territorial e seu esporte mais popular é o arco e flecha. Coadjuvante no futebol, filiou-se à Fifa somente em 1998. A seleção não disputou partidas internacionais oficiais por quase 4 décadas, o que prejudicou a popularização e o desenvolvimento do esporte no país. Entretanto, pequenos incentivos surgiram nos últimos anos, fazendo o futebol entrar no currículo de todas as escolas locais. Um investimento de longo prazo, mas necessário para tentar mudar uma realidade e nivelar o rendimento dentro de campo à seleções asiáticas tradicionais como Japão, Arábia Saudita e Coréia do Sul. O que inclui êxitos e (muitos) tropeços pelo caminho.

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O futebol está sendo descoberto aos poucos na Mongólia – Foto: fifa.com

Sem nível suficiente para determinadas competições, a Mongólia atualmente reúne esforços em torneios dentro de seu continente. A Copa do Leste Asiático, realizada de 3 em 3 anos, é um exemplo. Na seletiva para a edição de 2017, a equipe teve boa participação, com uma ampla vitória sobre Ilhas Marianas do Norte (um arquipélago localizado entre a Oceania e a Ásia) por 8×0. No entanto, com um empate e uma derrota, terminou em segundo lugar, atrás de Taipei Chinês (representante de Taiwan nas competições de futebol da FIFA), e foi eliminada.

Um ano antes, os mongóis se preparavam para enfrentar o Timor Leste na primeira fase das eliminatórias asiáticas para a Copa de 2018. No jogo de ida, fora de casa, a equipe praticamente deu adeus à vaga ao ser surpreendida por 4×1. Na volta, mais uma derrota, dessa vez por 1×0. O sonho ficou pra 2022.

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Timor Leste 4×1 Mongólia: dai em diante seria só dureza para Timor – Foto: fifa.com

Timor Leste, outro país em evolução no futebol, ao eliminar a Mongólia, passou para a segunda fase de forma histórica. Porém, o choque não demoraria a vir. Sua presença no grupo A, com equipes mais fortes tornaria evidente o tamanho da diferença de nível entre determinados grupos de jogadores de futebol. Foi impiedosamente goleado pela Arábia Saudita por 7 e 10×0 (fora e dentro de casa), pelos Emirados Árabes por 8×0 e pela Palestina por 7×0. Terminou na lanterna do grupo, atrás da Malásia.

Lembram de Taipei Chinês, o líder do grupo da Mongólia na Copa do Leste? Depois de eliminar Brunei na primeira fase das eliminatórias, integrou o grupo F com Tailândia, Iraque e Vietnã e terminou na lanterna, com 6 jogos e 6 derrotas.

Enfrentando os melhores sendo o pior

Nas disputadas eliminatórias da CONCACAF para 2018, São Vicente e Granadinas viveu de alguns altos e muitos baixos. Beneficiando-se do direito de entrar a partir da segunda fase (pela colocação no ranking da Fifa – 134º lugar), o conjunto de ilhas de pouco mais de 103 mil habitantes conseguiu dois empates contra Guiana (2×2 e 4×4), com o último na casa do adversário, e avançou pela regra do gol fora. Na etapa seguinte, mais dois jogos emocionantes contra Aruba (2×0 e 1×2) e uma classificação que colocava o país na quarta e penúltima fase da competição.

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O festival de cores de São Vicente e Granadinas x Guyana – Foto: fifa.com

Eles estavam a um único passo da chance real da disputa da Copa do Mundo na Rússia. Porém, os grandes e novos problemas começavam ai. Em meio a um conjunto que foi reduzido a apenas 12 seleções, São Vicente passou por um sorteio que a deixou no grupo C, com Estados Unidos, Trinidad e Tobago e Guatemala.

Em grupos onde duas equipes avançam, era de se supor que os americanos, conduzidos pela tradição e investimento, terminassem em primeiro, deixando uma outra vaga em aberto. Uma esperança para as outras 3 seleções, mas que logo começou a se dissolver para os vicentinos quando estes se deram conta de que seu nível técnico destoava de forma brutal não apenas do grande favorito, mas de qualquer uma das equipes do grupo.

Em dois jogos contra os Estados Unidos, as duas derrotas esperadas (6×1 e 0x6).

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Goleiro vicentino desolado: contra os americanos, o buraco é um pouco mais embaixo – Foto: fifa.com

Contra Trinidad, em casa, um placar reverso, mas apertado (2×3). Fora, passeio do adversário, com mais meia dúzia de bolas na rede (6×0).

Dos encontros contra a Guatemala, se esperavam confrontos mais equilibrados, e foi exatamente do embate entre as supostas seleções mais fracas que se definiu o saco de pancadas definitivo da chave. Os guatemaltecos não pouparam esforços e atropelaram por 0x4 e 9×3.

Apesar da eliminação e da campanha de pior aproveitamento da quarta fase, São Vicente e Granadinas mantém até então o artilheiro da competição, Tevin Slater, com 5 gols.

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Paulistano, projeto de jornalista e absolutamente ligado a tudo o que envolve essa arte chamada futebol, desde a elegante final de uma Copa do Mundo às peculiaridades alternativas das divisões mais obscuras de nosso amado esporte bretão. Frequentador assíduo nas melhores (e piores) várzeas e peladas de fim de semana, sempre à disposição para atuar em qualquer posição.