Zé Ricardo: cheirinho de bom trabalho

  • por Leandro Lainetti
  • 2 Anos atrás

José Ricardo Mannarino. Ou apenas Zé Ricardo. Este é o nome do técnico que mudou o Flamengo em 2016.

Zé Ricardo foi trabalhando jogo a jogo e superando a desconfiança que todo treinador interino acaba despertando.

De um time claudicante sob o comando do tarimbado Muricy Ramalho para um sério candidato ao título Brasileiro. Enfim, da água para o vinho. Isso tudo se deu muito devido ao acaso, na verdade, já que Muricy precisou se aposentar por problemas de saúde. Porém, Zé Ricardo possui certamente todos os méritos. A história de Zé se confunde com a de um jogador prata da casa. Foi técnico dos times sub-13, sub-15 e sub-20 do rubro-negro; tendo ganhado alguns títulos, com destaque para a Copa São Paulo de Futebol Junior de 2016.

Desde seu início no profissional foi mostrando bom trabalho e caiu nas graças da torcida, basta conferir nas redes sociais.  Zé Ricardo foi alçado ao cargo de interino do time profissional em maio; àquela altura, a equipe colecionava fracassos e partidas ruins sob o comando de Muricy.

A herança de seu antecessor foram as eliminações nas semifinais do Estadual e da Primeira Liga. Além de um vexame na 3ª fase da Copa do Brasil diante do Fortaleza, quando perdeu as duas partidas. Ou seja, assumiu uma bucha de canhão; missão ingrata para qualquer técnico, principalmente para quem nunca havia comandado um grande clube no âmbito profissional.

Mas, afinal, quem é o técnico Zé Ricardo?

Trajetória no Flamengo

Zé chegou ao clube em 2005 para treinar o time sub-13. Permaneceu na função até 2008, quando interrompeu sua passagem para trabalhar no Audax-RJ. Retornou ao Flamengo em 2012, dessa vez comandando a equipe sub-15. Fazendo mais um bom trabalho, em 2014 subiu para comandar a equipe sub-20, que vinha de resultados ruins e com baixo aproveitamento de jogadores no profissional.

Em 2016, conquistou o principal título da categoria, a Copa São Paulo de Futebol Junior. Isso em pleno Pacaembu, batendo o Corinthians nos pênaltis. Além do título invicto, o treinador apresentou uma equipe de futebol leve e vistoso, comandada pelas novas revelações rubro-negras.

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Léo Duarte, Lucas Paquetá e Felipe Vizeu são apenas alguns dos nomes (citando apenas os que subiram para o elenco profissional com maior destaque).

O time comandado por Zé Ricardo conquistou o título mais tradicional do futebol de base brasileiro.

O time comandado por Zé Ricardo conquistou o título mais tradicional do futebol de base brasileiro mostrando bom futebol em campo. Bom trabalho que foi recompensado.

Com o título e o bom futebol demonstrado em campo, o treinador chamou a atenção da torcida. Em paralelo, Muricy Ramalho não conseguia dar padrão de jogo ao time profissional. Muito menos comprovar a reciclagem que, segundo ele, havia feito no período em que ficou afastado do futebol. Então, o destino fez-se presente: 3 dias após a estreia no Brasileirão, na véspera da fatídica partida contra o Fortaleza, Muricy voltou a apresentar problemas no coração. Afastado, foi substituído por Jayme de Almeida.

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Jayme entra para a longa lista de bombeiros do Flamengo. Sucesso de início, e depois decepção.

Jayme treinou o time na eliminação para os nordestinos. Além de duas rodadas do Campeonato Brasileiro (Grêmio 1×0 Flamengo e Flamengo 2×2 Chapecoense). O (eterno) auxiliar não apresentou novidades e acabou por ter o mesmo destino de Andrade (título nacional seguido de futebol e campanhas decepcionantes). Jayme não contava com a simpatia da torcida, ao contrário de Zé.

Assim, no dia 26 de maio o então treinador da base era alçado ao cargo de interino da equipe principal.

Roteiro conhecido: santo de casa, no Flamengo, faz milagre

Zé Ricardo estreou três dias depois, contra a Ponte Preta, fora de casa. Se não era a estreia mais difícil, também não seria a dos sonhos, já que o Flamengo não vencia no Moisés Lucarelli desde 2005. Pois é, agora a escrita é coisa do passado.

De virada, o Fla bateu a Ponte por 2×1.

Ótimo resultado, ainda mais jogando boa parte do segundo tempo com um jogador a menos após a expulsão de Fernandinho. Nas três rodadas seguintes, resultado positivo diante do Vitória, e derrotas para Palmeiras e Figueirense. Na oitava rodada, a boa notícia: a primeira leva de reforços poderia entrar em campo. E contra o Cruzeiro, no Mineirão, a nova dupla de zaga formada por Rafael Vaz e Réver estreava. Com direito a gol da vitória marcado pelo ex-Colorado.

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Nas 18 rodadas seguintes, foram 11 vitórias, 4 empates e 3 derrotas. Algumas delas já contando com mais duas contratações: Leandro Damião e Diego, que caiu como uma luva no time e como líder do elenco.

Foto: Divulgação/Flamengo - Diego chega à Gávea como reforço de peso

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Desde o começo do trabalho, o padrão de jogo da equipe mudou, apresentando maior organização e funções mais bem definidas em campo. No entanto, a irregularidade ainda se fazia presente.

Apagão contra o Corinthians, erros individuais contra o Fluminense. Apagão no fim do jogo com o Botafogo, que lhe custou 3 pontos importantes e “certos”. Além de péssima partida contra o Sport indicam esse problema.

Grande arrancada: o trabalho de Zé Ricardo trazendo resultados

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Fonte: footstats.net

Se o Flamengo de Zé Ricardo iniciou sendo irregular, este problema parece superado. Nas últimas 15 partidas foram 10 vitórias e apenas uma derrota.

O maior destaque fica para o jogo diante do Palmeiras.

Duelo fora de casa, contra o líder, e o Flamengo acaba perdendo um jogador logo no primeiro tempo. Apesar de todo ambiente desfavorável, Zé Ricardo consegue manter a equipe na partida e até abre o placar. Mesmo com toda a pressão, do adversário e dos corneteiros – pois o técnico foi duramente criticado por ter sacado Diego para recompor a marcação no meio-campo -, o time rubro-negro saiu com um ponto do Allianz Parque e seguiu forte na caça ao líder Palmeiras.

No jogo contra o Figueirense, o primeiro tempo do Flamengo beirou à perfeição.

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Repertório de jogadas, posse de bola, intensidade e volume de jogo, um verdadeiro massacre que não se refletiu no placar. Resultado: mais de um mês sem saber o que é derrota na competição (a última foi na 20° rodada, diante do Sport). Vice-liderança no encalço do líder e um dos melhores times na competição;  principalmente no que diz respeito à organização e conjunto dentro de campo.

Organização: palavra chave no Flamengo de Zé Ricardo

Para explicar as mudanças táticas realizadas pelo novo treinador, é fundamental voltar a seu antecessor.

Muricy, com base na sua reciclagem, insistia em um 4-3-3 com pontas bem abertos e avançados, expondo o meio-campo e a defesa.

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O problema é que o sistema apresentava falhas graves. Pouca movimentação dos atacantes, recomposição lenta dos meias e, muitas vezes, alinhamento dos 3 atacantes perto da área adversária. O time se tornava presa fácil para a defesa e sofria com os contra ataques.

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Zé Ricardo flutua praticamente entre o 4-2-3-1 e o 4-1-4-1.

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Além disso, a filosofia de treinos parece dar resultados. Em campo o time faz exatamente aquilo que o treinador pede. No futebol atual, em que tanto se fala de tática, é essencial incutir na cabeça do jogador exatamente o que ele deve fazer em campo. No Flamengo de Zé os meias guardam mais posição sem abrir mão da dinâmica, e os pontas recompõem o meio.

A equipe costuma apresentar grande volume de jogo, posse de bola e intensidade nos ataques. O porém é que peca muito nas finalizações, vencendo muitas partidas por placares magros. É comum ver dois trios durante as partidas. Pará, Arão e um dos pontas pela direita (Cirino ou Gabriel), com Jorge, Diego e outro ponta pela esquerda (Éverton ou Fernandinho).  Se é um time que marca poucos gols, em compensação possui defesa sólida. E isso também passa pelas mãos do novo treinador.

Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

Além do esquema e da organização, vale ressaltar as mudanças em algumas peças na escalação. E não necessariamente falamos de reforços aqui. Dos contratados esse ano, Zé promoveu a titulares absolutos apenas 4 jogadores: Muralha, Rever, Rafael Vaz e Diego. Barrou PV, um dos líderes do elenco até então e Juan, que se machucou e não voltou mais ao time titular. Além de tirar dois queridinhos da torcida, Cuellar e Rodinei, para escalar Marcio Araujo e Pará, certamente jogadores que a torcida nem gostaria mais de ver no clube.

Concorde-se ou não, as alterações funcionaram e fizeram o esquema de Zé encaixar perfeitamente ao Flamengo.

Humano e sem vícios: a faceta fora do lugar comum

Além das alterações táticas e de algumas peças, o trabalho nos bastidores também tem dado resultados. Se antes o Flamengo era uma equipe que se abalava quando sofria gols, hoje o panorama é bem diferente. Não tem sido raro ver a equipe virando partidas ou não mudando a forma de jogar após sofrer um gol.

Certamente uma consciência e confiança que vêm transmitidas através do trabalho do treinador no dia a dia (com a valiosa e silenciosa ajuda do Gerente de Futebol, Mozer).

Outro ponto importante é como Zé recuperou o moral de alguns jogadores.

Fernandinho, sempre questionado, virou o melhor atacante de todos os tempos da última semana. Gabriel andou fazendo gols, Márcio Araújo, a despeito do ódio emanado pelos torcedores, tem se mostrado útil ao esquema da equipe. E Pará, um dos envolvidos no episódio do Bonde da Stella, se tornou o principal garçom da equipe além de um dos jogadores em melhor momento.

Mais uma situação que merece destaque é a condução do elenco. O Flamengo contratou 14 jogadores para essa temporada, tem atletas experientes e tarimbados. E um elenco que em muitas posições conta com até 3 opções, casos dos centroavantes e pontas, por exemplo. Não é fácil manter todos satisfeitos, com o mesmo espírito competitivo e na mesma sintonia.

Nas redes sociais dos jogadores fica claro o clima leve e de união no ambiente. E nas entrevistas é comum ouvir os mesmos elogiando o técnico por diversas razões.

Jogadores que foram titulares em um jogo às vezes não são relacionados para o seguinte. É o rodízio nos apresentando o lado estudioso do treinador. A relação de escalados é formada de acordo com o adversário. Assim como as substituições são pautadas pelo que o técnico pretende naquele momento do jogo (vide o caso Diego contra o Palmeiras), e não colocando os principais jogadores do time, vício comum a muitos técnicos.

Por fim, vale falar também das entrevistas. Em jogos que o Flamengo foi prejudicado pela arbitragem o técnico nunca usou esse artificio como desculpa para o resultado. E Zé Ricardo procurou sempre explicar o que viu do jogo e as razões que o levaram a optar por jogador A ou B de forma clara e objetiva. Ele não demonstra a empáfia e arrogância que caracterizam muitos dos nossos “professores”. Ao contrário de Muricy, Zé também não tem reclamado do desgaste causado pelas viagens constantes. Em vez disso, tem procurado poupar os jogadores em determinados momentos sempre com o auxilio de sua comissão técnica.

Inexperiência como fator negativo

Ainda que não tenha sido tão determinante até o momento, a inexperiência é fator que pode pesar contra Zé Ricardo. O treinador ainda tem resistência de torcedores que sugerem “falta de cancha” para dirigir um clube da magnitude do Flamengo. E bem como toma algumas decisões que chamam atenção para esse fator.

https://www.youtube.com/watch?v=8tzaZz6jRho

Os casos mais deflagrantes foram a expulsão de Marcio Araujo contra o Palmeiras, quando o treinador deveria tê-lo sacado ainda no primeiro tempo; e o time misto contra o Figueirense na primeira partida da Copa Sul Americana. Embora tenha servido para dar rodagem ao elenco, Zé modificou todo o sistema defensivo de uma única vez, o que quase complicou os rubro-negros.

A escalação de Paulo Victor, claramente para satisfazer o goleiro, custou três gols à equipe, por exemplo.

Cheirinho de Hepta: possível consagração?

Para o restante da temporada, que começa a se encaminhar para o momento crucial, as expectativas são positivas. A maioria da torcida tem confiança no treinador e começa a desistir de questioná-lo, já que o trabalho dá frutos. O futebol apresentado nas últimas partidas é um dos melhores do Brasileirão, senão o melhor, e Zé parece lidar com toda a pressão que dai advém.

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Caso ganhe o Brasileirão, com a torcida empolgada com o “Cheirinho do Hepta”, Zé será alçado ao cargo de ídolo. E precisará mostrar que pode realizar um bom trabalho desde o começo e também na montagem do elenco.

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Mas, ao contrário de Andrade e Jayme, o atual e talentoso líder parece mais preparado para dar continuidade à promissora carreira como treinador. Ganhando ou não o Brasileiro de 2016, o início de Zé Ricardo no profissional como treinador é promissor.

Tem Cheirinho de bom trabalho no ar.

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Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.