Gustavo Scarpa, o canhotinha do Fluminense

  • por Victor Mendes Xavier
  • 11 Meses atrás

Gustavo Scarpa tinha 20 anos quando estreou pelo Fluminense sem nunca ter disputado uma partida de primeira divisão de Campeonato Brasileiro. Antes disso, como a maioria dos jovens do futebol brasileiro, começou a sua carreira no futsal, caminho natural para muitos formarem e aprimorarem suas técnicas. Pelo Guarani, não tardou a se destacar e chamar a atenção de outros clubes. Foi para o Flu, onde passou a se firmar e ganhar mais notoriedade depois de ser emprestado ao Red Bull Brasil para ganhar mais experiência, no início de 2015.

Mais de um ano depois, foi peça-chave de um time inconstante coletivamente na Série A do Brasileiro. Em suma, Scarpa é a individualidade que ainda permite ao Tricolor ser competitivo.

“Ele tem muita qualidade. Tem sido premiado e abençoado pelo trabalho que tem feito. Ele treina muito, a todo momento. Chuta muito para o gol, porque faz parte dos treinamentos, e isso ele tem aperfeiçoado. Por isso colhe o resultado em campo. Eu converso muito com ele e sempre digo isso: ele não se esconde do jogo, pelo contrário. Sempre propõe, aparece e tenta muito. Naturalmente, acontecem erros, mas também muitos acertos, e isso nos ajuda bastante”.
[Gum]

Natural de Campinas, o jovem se destaca tanto em quantidade, como em qualidade. E em todos os sentidos que se queira atribuir a cada uma das expressões. Por exemplo, trata-se de um meia com faro de atacante sumariamente participativo, ativo a todo instante, que se aproxima de bater 50 intervenções por jogo. Ainda que o plano de seu (ex) treinador, Levir Culpi, nunca tenha sido definido.

Por vezes, o Fluminense variou entre um time que busque jogar a partir do erro do adversário e por outras assumiu o protagonismo da partida. A média de posse de bola foi de 47%, sétima menor do campeonato. Para quem ainda está começando no futebol, a falta de uma base e a indefinição tática tendem a ser um pesadelo. Não para Scarpa, que interpreta de maneira quase que perfeita a desorganização tricolor.

Gustavo Scarpa recebeu das mãos do presidente Peter Siemsen a camisa comemorativa pelo 100 jogos no Fluminense.

Gustavo Scarpa recebeu das mãos do presidente Peter Siemsen a camisa comemorativa pelo 100 jogos no Fluminense. Foto: Nelson Perez / Fluminense FC

Por isso, não seria exagero afirmar que Scarpa é o membro com maior presença real dentro de campo para o Flu. Assumindo uma carga que, dentre todos os jogadores do futebol carioca, talvez somente Nenê no Vasco e (agora) Diego no Flamengo fazem frente. Ao que se deve tanto peso no jogo, ao que o jogador demanda e a que o Fluminense necessita?

Ao falar de um menino tão jovem, contestar perguntas com caráter categórico parece precipitado. Mas, a princípio, valeria responder “por que o Fluminense necessita”. Dificilmente, por mais que seja sua característica, Scarpa vai tocar na bola com tanta frequência em outro time. Tem propensão a jogar pelo lado direito de um 4-2-3-1, mas tem liberdade para se deslocar por dentro, receber entre linhas e auxiliar Richarlison, Henrique Dourado ou Marcos Junior.

Pontos fortes

“Ele é uma peça muito importante para nós, porque ele controla o jogo, tem bom passe, boa visão, até na marcação, ele sempre volta e marca bem. Ele é muito importante. Está sempre decidindo os jogos, sempre dá o melhor e sempre ajuda os companheiros. Eu percebo que ele está feliz e isso deixa todos nós felizes”.
[Wellington]

Apesar de ter sido muito improvisado na lateral esquerda em 2015, suas ações são mais centradas mais por dentro do sistema do que por fora. Até porque jogar em lado contrário do seu pé naturalmente força seus dribles interiores e as diagonais buscando inverter a bola ou assistir o centroavante. Além de assumir o papel de “falso-gestor”, Scarpa também tem tempo para exibir, semanalmente, seu melhor atributo: o potente chute de fora da área. Se o adversário concede um palmo de espaço para Gustavo chutar a gol, um míssil sai de sua perna esquerda.

 

Mais: também administra com categoria as ligações-diretas, mesmo que não seja privilegiado fisicamente para tal. Tudo na maior naturalidade. Em geral, a qualidade de Gustavo Scarpa é acima da média e se sobressai a maioria de seus companheiros. Dentro do arsenal que possui, não sabemos como será seu futuro na Europa e/ou na Seleção Brasileira, mas é certamente um projeto de estrela para o Campeonato Brasileiro.

“Quando o jogador tem uma categoria técnica, pode acontecer isso, como foi no caso do Scarpa hoje. Sempre tem uma bola decisiva, não se sabe de onde ele tira. No mínimo, tem sempre uma bola para ele decidir. É um jogador iluminado, com boa técnica. Quando se pensa que não está jogando, ele vai lá e decide”.
[Levir Culpi]

Pontos Fracos

O paulista ainda desenvolve o seu drible. Às vezes, falta solução para poder sair de situações mais adversas no um contra um ou quando está cercado pela marcação. Gustavo tem o drible, mas não é um driblador puro. Falta um misto de simplicidade e, sobretudo, agilidade.

A Europa distingue dois tipos de dribladores. De um lado, estão os Marcelos, Modrics ou Phillipes Coutinhos. Do outro, os superiores, os Neymares, Douglas Costas, Robbens e Di Marías. E o que os separam é a velocidade. O primeiro grupo depende da sagacidade, imprevisibilidade, requer que o rival caia em suas armadilhas para, aí sim, mudar de direção e usar suas potências. Mas o futebol está cada vez mais compactado, a busca por bloquear os espaços é incessante, o que leva os sistemas defensivos (ingleses à parte) cada vez buscarem menos os desarmes e protegerem mais as zonas. Para eliminá-los, o drible é a principal arma. Hoje, Scarpa não tem esse truque para encarar esquemas baseados em blocos baixos (raros no Brasil, onde o jogo é mais de “ida e volta” e dá mais dimensão para o meia conduzir).

Driblará? Sim. Marcará gols em ações individuais? Sem dúvidas. Mas não será uma ação que condicione planejamentos com total regularidade, pois – repito: baseando-se no atual futebol do protagonista do texto – não poderá ocorrer em qualquer instante.

Futuro promissor

O ponto de verdade ilimitado de seu conjunto de técnicas reside na qualidade associativa.

É aí onde sua qualidade explode. Tem visão de jogo, sabe tabelar com precisão. Percebe a hora certa de infiltração de um companheiro, tem bom cruzamento e tem finura para o último toque: foi o maior assistente da Brasileirão 2016, com nove passes para gol (empatado com o palmeirense Dudu e o cruzeirense Arrascaeta). Um especialista no assunto.

E com somente 22 anos. Com paciência e dando tempo ao tempo, sua evolução virá. Trata-se de um ótimo jogador, exemplar e disposto a aprender cada vez mais. O bagunçado ano do Fluminense faz parte do processo de ascensão: quanto mais acumular derrotas, mais irá descobrir o caminho para esquivá-las. Scarpa será uma boa notícia para o futebol brasileiro. Ao menos que alguma lesão ou excessiva profundidade do elenco de um futuro time o condenem a inatividade.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa Esporte@Globo da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.