Jorge Sampaoli e seu Sevilla mutante

  • por Israel Oliveira
  • 11 Meses atrás
Seja no 4-1-3-2, no 3-4-3, em qualquer esquema, existe uma ideia estabelecida, já completamente absorvida pelos jogadores.

Após o término da vitoriosa Era Unai Emery, o clube andaluz pensou alto. E agiu certeiramente para não só manter, mas subir seu patamar no Futebol Europeu. Assim chegou Jorge Sampaoli, profissional de currículo e conteúdo inquestionáveis, que vem motivado para construir sua história agora na Europa.

Jorge Sampaoli foi uma das mais importantes engrenagens no processo que culminou nos dois títulos de Copa América do Chile.

Jorge Sampaoli foi uma das mais importantes engrenagens no processo que culminou nos dois títulos de Copa América do Chile. Clique na imagem e saiba mais.

Além da chegada do Argentino – e sua maneira totalmente diferente de pensar em relação ao antecessor – o elenco sevilhano foi completamente reformulado. Bandeiras do jogo de Emery como Krchowyak e Coke saíram, assim como as referências Banega e Gameiro. Para começar praticamente um novo time, Sampaoli herdaria um time sem seu maestro e o artilheiro. Apesar das ausências, as reposições foram excelentes. Hoje quase todas se afirmaram e viraram realidade dentro do jogo da equipe.

Os presentes que Jorge ganhou ao chegar

Nasri, Vázquez e Ganso podem ser considerados as "cerejas" do bolo dado pelo Sevilla a Jorge Sampaoli.

Nasri, Vázquez e Ganso podem ser considerados as “cerejas” do bolo dado pelo Sevilla a Jorge Sampaoli. Mas certamente o elenco vai muito além deles.

Ramón Rodríguez Vendejo, vulgo Monchi, é reconhecido nos bastidores como um dos melhores diretores executivos do mundo; ele e Jorge Sampaoli agiram com eficácia no mercado do verão europeu. Sem alarde, montaram elenco profundo e condizente com as ideias do novo treinador.  Gabriel Mercado, Matías Kranevitter, Paulo Henrique Ganso, Joaquín Correa, Pablo Sarabia, Hiroshi Kiyotake, Franco Vázquez, Samir Nasri, Wissam Ben Yedder, Luciano Vietto. Todos têm sido úteis, num time que não atua com 11 jogadores, mas sim com 14 no decorrer dos jogos.

Começo turbulento em bola jogada, mas com resultados animadores

O calendário inicial se mostrou bem ingrato, começar pegando Real Madrid e Barcelona em finais não é nada fácil. O lado bom é que tirou o peso da busca pelo resultado, e reforçou que o Sevilla passava por mudanças. Jamais imaginaríamos ver estes gigantes espanhóis jogando de maneira a se adaptarem à sua proposta de jogo. Porém, assim o foi disposto o Real Madrid na Supercopa da Europa:

E também contra os catalães (principalmente durante o primeiro tempo no Ramón Sánchez-Pizjuán):

Apesar do plano de dominar o jogo à partir da posse de bola, dificuldades gigantescas foram encontradas para fazê-la circular. E também para iniciar a saída contra marcações mais agressivas à frente. Ao contrário do fazia na seleção chilena, Jorge Sampaoli tratou de implementar um ritmo mais lento e ordenado na construção do jogo.

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Isso seria novidade para o plantel remanescente; pois com Unai o time atuava pelos exteriores de forma sempre vertical ou horizontal, reagindo ao oponente.

No começo da temporada, o time mais dependeu dos resultados do que jogou “bom futebol”. Acabou sendo importantíssimo, garantindo tranquilidade para um time que chegará em seu ápice certamente no meio ao fim da temporada.

https://www.youtube.com/watch?v=rSHhcjSIjGw

Foram jogos “divertidos” mas um tanto irresponsáveis do time de Sampaoli, que encontrava dificuldades tremendas nas transições defensivas. Um excelente início em resultados, que podem condicionar maior tranquilidade para o aumento do nível em um futuro próximo.

Em seus primeiros 15 jogos na Liga Espanhola, Sampaoli leva vantagem sobre seu antecessor. Ótimo sinal para o futuro.

Em seus primeiros 15 jogos na Liga Espanhola, Sampaoli leva vantagem sobre seu antecessor. Ótimo sinal para o futuro.

Complemento com todas as campanhas de Unai Emery em seus primeiros 15 jogos na Liga, por temporada.

Complemento com todas as campanhas de Unai Emery em seus primeiros 15 jogos na Liga, por temporada.

Samir Nasri como ponto de partida

Se hoje o Sevilla é muito mais confiável, se deve ao nível de futebol altíssimo apresentado por Samir Nasri. Escanteado no Manchester City; principalmente por problemas extra-campo e lesões, disse a Guardiola que não queria ser banco e queria voltar a jogar. Escolheu o atual campeão da Liga Europa, numa cultura futebolística onde pensar tem valor tão alto quanto correr. Sua chegada ofereceu soluções para diversos problemas da equipe, como as supracitadas circulação de bola e saída de jogo.

A partir da criatividade de Nasri, a bola passou a circular de forma mais limpa. Samir seleciona passes com muito critério e qualidade (possui 90.9% de acerto na temporada). A capacidade de proteger e conduzir a pelota em curtas distâncias faz toda a diferença. O francês muda o ritmo do ataque de acordo como suas pernas agem e executam.

Se a saída de bola era lenta e frágil ante às pressões adversárias, Nasri chegou para qualificar esta carência. Contra adversários mais fechados geralmente busca a bola entre os defensores e inicia o jogo com inteligência.

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Contra marcações mais agressivas, seu giro é de importância vital para o Sevilla ganhar altura e ganhar metros no ataque. Não à toa seu auxílio fez com que o volante Steve N’Zonzi crescesse de forma impressionante.

Cumprindo função completamente nova, tem falado mais alto é a qualidade do jogador e seu entendimento das necessidades do conjunto.

O crescimento de jogadores já “de casa”

É fácil atribuir o sucesso da equipe a contratações do quilate de Franco Vazquez e Samir Nasri. Porém, é importante também mencionar o crescimento e o entendimento de jogadores que já pertenciam ao clube em temporadas anteriores. Sampaoli vem conseguindo aproveitar na sua proposta de jogo material humano já pertencente ao clube também.

Começando por Steven N’zonzi, que no começo parecia confuso, sobrecarregado em ser o responsável pela saída de bola. Mas a chegada de Nasri só lhe favoreceu, em todos os aspectos. O volante francês, de passadas longas, atravessa um momento técnico de muita finesse. Com Unai, tinha o papel de recuperar bolas e entregar a Banega e aos homens da frente. Hoje, atua por todo meio-campo como um grande facilitador, controlando o jogo e atacando espaços vazios quando esses surgem.

N’zonzi é praticamente outro jogador sob o comando de Sampaoli. O francês vem recebendo confiança e protagonismo na construção do jogo desde a defesa.

Apesar da postura despretensiosa, o jogo sempre recebe continuidade quando chega aos seus pés. A confiança que ganhou de seu treinador também é parte vital de seu momento.

N’zonzi sente-se à vontade para executar qualquer gesto técnico e chegar na área com propriedade.

Os laterais também cresceram e se adaptaram ao seu novo papel. Se antes tinham diversos espaços para correr e atacar, agora enfrentam defesas que negam mais espaços para suas pernas funcionarem. Nisso entra a qualidade apresentada por Escudero e Mariano nesse novo contexto. Conseguem manter trocas de passe, sempre oferecem linhas de passe “socorrendo” os meias de criação. E não deixam de aparecer no fim do campo, se associando ou cruzando bolas.

O brasileiro é um touro fisicamente, de agilidade e velocidade impressionantes. Suas características são bem exploradas em fase ofensiva. O futebol apresentado por Mariano é sólido e constante há duas temporadas. Sua convocação merece ser considerada para a seleção brasileira, nem que seja para compor elenco.

Qualidade e profundidade de elenco

Apesar da perda de seus principais destaques de campanhas anteriores, nunca o Sevilla teve tanta força em seu plantel, tanta riqueza e diversidade.

Para proteger o gol, foi trazido o bom goleiro Salvarore Sirigu para disputar vaga com Sergio Rico. O espanhol domina o confronto, cresce diante a concorrência e hoje é dono absoluto do gol sevilhano. No começo encontrava dificuldades pra sair jogando e “socorrer” uma saída de bola complicada; hoje encara essas tarefas com naturalidade.

O arqueiro consegue construir com critério e seus lançamentos geralmente atingem um alvo ou colocam a bola em disputa. Embaixo das traves é seu auge, nunca foi tão seguro e “milagreiro”.

Na zaga, Gabriel Mercado – trazido por indicação de Sampaoli – demonstra caráter e muita sobriedade, atuando como zagueiro pela direita. É um jogador sério e multifuncional, podendo ser lateral, função que exerce ataque com extrema regularidade. O Sevilla tem um mecanismo muito eficiente onde quando Mercado inicia a saída de bola como zagueiro, vira lateral a partir do meio-campo e permite Mariano avançar “uma casa” à frente.

No meio-campo/ataque, entra o grande ponto forte do elenco.  Com meio-campistas/pontas do quilate de Franco Vazquez, Pablo Sarábia, Kiyotake, Vitolo e Paulo Henrique Ganso; a certeza é sempre quando existir algum desfalque, o desempenho coletivo talvez não seja afetado de forma dura.

O grande destaque desse grupo de jogadores é “Mudo” Vázquez. O canhoto tem uma capacidade fenomenal de direcionar as jogadas horizontalmente, através de passes, dribles e conduções. Ganso destoa em jogos mais frenéticos, mas em situações favoráveis pode ser extremamente útil, sua qualidade técnica impressiona a todos.

Se o ataque não ter um atacante “fazedor de gols” inquestionável, tem a gigantesca capacidade de associação de Luciano Vietto.

É pedido de Jorge Sampaoli um atacante mais independente, mas o argentino não é de todo ruim. Consegue acompanhar a armação das jogadas e por muitas vezes serve seus companheiros. Ben-Yedder mostra-se ser opção apropriada contra times mais fechados; quando a presença de dois atacantes empurra mais a defesa adversária e garante maior recepção para finalização na área.

As maquinações de Jorge Sampaoli

Muitos treinadores demonstram muita qualidade na hora de formatar uma equipe quanto ao seu plano inicial. Porém, acabam demonstrando dificuldades em mudar o jogo; em alterar os rumos da partida com correções ou substituições. Se há um ponto em que Sampaoli realmente faça a diferença para o Sevilla é mudar os jogos a seu favor.

Ganso contra Alavés, Sarábia contra Las Palmas e Leganés, Vitolo e Ben Yedder contra Deportivo. Nem sempre os onze melhores jogadores necessitam ser titulares. No decorrer das partidas, o Sevilla mostra a qualidade do seu plantel. No exemplo mais recente, temos a entrada de Iborra no lugar do zagueiro Pareja. Jogo complicado no Balaídos, perante um Celta que neutralizou o Sevilla no primeiro tempo. A entrada – e os 3 gols do volante – corrobora a capacidade de Sampaoli em buscar soluções para suas equipes.

Com a entrada do volante, o Sevilla ganhou terreno no meio-campo e força física para finalizar. Partiram de um 0 x 0 com o oponente jogando melhor para 3 x 0. Virar partidas através de suas maquinações, de suas soluções. O fato de em tantos momentos buscar socorro no banco também mostra que muitas vezes o plano inicial está longe do desempenho ideal; mas são variantes que o jogo oferece.

O Sevilla de Sampaoli já marcou 06 gols depois dos 40 do segundo tempo com o time empatando ou perdendo. Isso mostra também como sobram pernas para um time que mantém o mesmo ritmo durante todos os jogos. Exceto em jogos “maiores”, onde o nível de concentração é de alta demanda principalmente no começo. O fato do time saber lidar com adversidades mostra um trabalho muito rico de toda a comissão (nos remete ao Real Madrid de Zinedine Zidane e seu poder de reação, por exemplo).

Sevilla de alma mutante e perigosa (a cara de Sampaoli)

Houve quem temesse uma eventual perda de identidade por parte do Sevilla; que se acostumou a ir longe nos mata-matas europeus. Quem esperava um time protagonista e “irresponsável”, ficou surpreso com as atuações ante a Juventus e Lyon, fora de casa. Em ambos os jogos o time reuniu jogadores atrás da linha de bola, apostou no jogo físico e em leves escapadas. Resultado: conseguiu bons empates fora de casa, mostrando que a equipe é capaz de exercer qualquer proposta.

Nos primeiros 60 minutos contra a Juventus, o Sevilla mostrou que será perigosíssimo na fase final da Liga dos Campeões. E que em dois jogos pode competir de igual para igual.

O controle sobre os italianos foi imenso. Futebol impressionante, mas que desmoronou na expulsão de Mudo Vazquez e no gol “achado” da velha senhora.

As exibições contra Atlético de Madrid e Barcelona reforçam que é um time pronto para grandes jogos.

https://www.youtube.com/watch?v=60Sj7kUbr-M

Propôs o jogo, recuperou a bola no campo inimigo e envolveu o adversário em excelente trocas de passe. Contra o Barcelona tal ousadia foi penalizada contra um Messi que teve grandes espaços livres para atacar.

Mas enfrentar um gênio te atacando sempre renderá alguma penalização, faz parte do jogo.

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Mesmo em jogos em que perde, finalmente o Sevilla mostra desenvolver a alma Sampaolista. Ataques bem elaborados, jogo desde trás, quantidade elevada de jogadores na zona de conclusão. Além da tensão transmitida em jogos difíceis. Embora a defesa ainda não inspire confiança, Sampaoli tem ideias e esquemas para protege-la quando julgar necessário.

Seja no 4-1-3-2, no 3-4-3, em qualquer esquema, existe uma ideia estabelecida, já completamente absorvida pelos jogadores.

Seja no 4-1-3-2, no 3-4-3, ou em qualquer esquema, existe uma ideia estabelecida, já completamente absorvida pelos jogadores.

Com pouco mais de 6 meses de trabalho de Sampaoli, a evolução do Sevilla é bastante nítida. Mesmo em momentos duvidosos, o time dá garantias de força e consegue um impressionante terceiro lugar na Liga Espanhola. Vai deixando de ser o time que soma pontos somente na sua casa e que ficava somente em quinto. E finalmente passou de fase na Liga dos Campeões, abandonando a Liga Europa para alçar vôos maiores.

Jorge Sampaoli foi o nome certo para o Sevilla subir de patamar, por todo seu conhecimento, sensibilidade e competência.

 

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