A tradição, o mercado e a Juventus

  • por Elcio Mendonça
  • 2 Anos atrás

Eduardo Galeano, no mais do que recomendado Futebol ao sol e à sombra, escreveu que “o futebol é a única religião que não tem ateus”. Sendo assim, nada mais justo do que as cores, o escudo e o uniforme de um time serem sagrados. Uma santíssima trindade da bola.

Qualquer mudança em um desses três pilares gera uma enorme discussão. Mas em tempos de futebol cada vez mais comercial, acompanhando o que acontece na sociedade, o marketing deixou o fim da linha de produção, tendo que se virar para vender o produto, para se tornar parte fundamental na tomada de decisões. E nessa nova relação é comum que clubes tomem atitudes que fujam do convencional.

Traça-se aí uma cruzada entre tradição e modernidade. Os clubes, sedentos pelo crescimento das receitas, se equilibram entre o desejo de ver o torcedor consumir cada vez mais e o medo da rejeição às novidades, principalmente daqueles adeptos mais “ortodoxos”.

Foto: Juventus/Divulgação – O minimalista novo escudo da Juve

Nesse cenário, o novo escudo da Juventus gerou tamanha repercussão porque vai além de tudo o que já se viu no futebol, mesmo no tal “futebol moderno”. O símbolo, minimalista, se parece mais com alguma marca de automóveis ou a logomarca de um perfurme.

Fica claro o interesse do clube italiano em se consolidar como uma marca moderna e ultrapassar os limites da terra da bota, como se quisesse deixar claro que não é apenas um time de futebol. Pode ser que no futuro isso se torne comum e que a Juve tenha sido pioneira, mas o impacto da mudança foi extremamente negativo, sofrendo forte rejeição dos torcedores da Velha Senhora.

Mudar o escudo não é algo assim tão incomum. O Atlético de Madrid, recentemente, o modernizou. Seu grande rival, o Real, fez uma alteração mais tímida. Tirou o pequeno crucifixo que carregava na parte superior do símbolo, agradando ao patrocinador (Emirates Airline) e evitando qualquer possibilidade de rejeição em países com maioria islâmica. No Brasil também temos bons exemplos de times que modernizaram sua marca nos últimos anos, como Atlético Paranaense e Náutico, ambos muito felizes no processo.

Em poucos segmentos o conflito entre o tradicional e o novo é tão gritante como no futebol. Cabe aos clubes saber equilibrar essa relação…

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Jornalista pós graduado em Gestão Aplicada ao Esporte e um doente por futebol. Trabalha atualmente como gerente executivo de esportes na RedeTV! e já passou por Esporte Interativo, Náutico, Portuguesa e Santo André.