O Purgatório de Munique: Cristiano Ronaldo e Zinedine Zidane contra a Mitologia

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Meses atrás

Julho de 1954, Suíça. Ferenc Puskas e sua lendária seleção húngara podem explicar o início da rivalidade. Afinal de contas, haviam acabado de eliminar a grande Uruguai, campeã do mundo quatro anos antes no histórico Maracanazzo. Às suas esperas, a Alemanha, rival na qual na fase de grupos haviam goleado pelo placar de 8 a 3. O prematuro 2 a 0 a favor confirmava a diferença de qualidade entre os dois times. Porém, os germânicos conseguiram a remontada em uma das noites mais famosas e surpreendentes da história do futebol. O triunfo serviu como uma espécie de reflexão para um país deprimido, destruído, que encarava com medo e pessimismo os difíceis anos pós-segunda guerra mundial. Diz a lenda no país que a partir daquele Hungria 2-3 Alemanha foi criado o espírito de uma nação única no aspecto competitividade, vinculada a conceitos como “triunfo” ou “nula rendição” na mente de todos os seus cidadãos. O Bayern de Munique é o seu cavalo de batalha, o representante dessa cultura. Jogar bem? Muito importante. Ganhar? Essencial. Mas, no fundo, a essência do principal clube da Alemanha é um: fazer com que todos os seus rivais se apequenem diante de seu território, a temível Allianz Arena, um caldeirão embalado por uma torcida que não para durante um segundo.

Estima-se que na entrada do século XIV Danthe Alighieri compôs “A Divina Comédia”, referência da literatura italiana e uma transição entre a cultura medieval e a renascentista. O poema de viés épico e teológico é dividido em três fases e descreve uma viagem onde se sucedem diversos acontecimentos. Sua força está na riqueza das alegorias, que tornam o relato atemporal. Trata-se da travessia físico-espiritual do autor pelo Inferno, o Purgatório e o Paraíso, caminho pela que vaga junto ao falecido Virgilio, sua inspiração artística, que o torna de guia celeste neste mundo entre a morte e a vida. Virgilio viveu e escreveu poesia no Império Romano.

Cristiano Ronaldo tentou construir uma arte em Roma, na final da Liga dos Campeões de 2009, mas foi impedido por outro artista, Lionel Messi. Estamos em 2017 e o português vive sua temporada de maior autocrítica. O camisa 7 não é mais o mesmo de dez anos atrás. Perdeu vigor físico, drible e autossuficiência, embora o tempo, generoso, tenha lhe dado uma maturidade crucial para liderar técnica e mentalmente um grupo rumo a um título de Eurocopa. Na quarta-feira, Ronaldo, que tem somente dois gols na atual edição da Liga, voltará de uma “ausência” com a mesma missão do antigo poeta italiano: orientar um crente desde o Inferno até o Paraíso.

Do abismo da Allianz Arena, de onde foi o responsável, ao lado de Sergio Ramos e Carlo Ancelotti, por ressuscitar um clube que, dois anos depois do “Milagre de Berna”, conquistou sua primeira Copa da Europa e, das mãos de Alfredo Di Stefano, edificou um espírito que se perpetuaria como referência para a eternidade. Há três anos, o Real Madrid, o clube que mais datas para a história viveu na Copa da Europa, escreveu uma das páginas mais belas da sua história, impondo ao Bayern uma humilhante derrota por 4 a 0 em Munique. Desde então, o sentimento de vingança paira sob todo os torcedores bávaros. Ganhar daquela forma na Alemanha representou ao Real a ida ao Paraíso descrito por Alighieri, permitindo aos madridistas vencerem na final o Atlético de Madrid e encerrando um incômodo jejum de 12 anos sem título europeu.

Por isso o Bayern leva 62 anos lutando contra o Real Madrid: porque sabe que, na dinastia do futebol, há um clube que consegue ter uma grandeza maior ainda que a sua. E é por isso que o Real Madrid sempre temeu o Bayern: porque sabe que, numa nova ordem do futebol mundial, os alemães são os primeiros candidatos a jogar para o espaço o legado de Di Stefano, Puskas, Juanito, Raúl, Sergio Ramos e Cristiano Ronaldo. São 22 confrontos entre a dupla, um recorde entre equipes de países diferentes. 16 orelhudas levantadas no total. O Real ganhou as cinco primeiras edições (até hoje um recorde), entre 1955-56 e 1959-60; o Bayern respondeu com o tri-campeonato que começou em 1973-74 e foi até 1975-76.

Di Stefano e Puskas contra Franz Beckenbauer e Gerd Müller. Cristiano Ronaldo e Zinedine Zidane contra Carlo Ancelotti e Arjen Robben. Estamos a ponto de viver uma das melhores eliminatórias que veremos em nossas vidas. Bem-vindos e desfrutem de um novo Bayern de Munich contra Real Madrid.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa Esporte@Globo da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.

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