O último dos imperadores

  • por Giovanni Ghilardi
  • 4 Meses atrás

Uma breve homenagem a uma história eterna.

Bateram na porta. Do outro lado estava a chance das chances. Imagina só, um garoto que sonha em ser jogador de futebol receber uma proposta do Milan, um gigante internacional e dos maiores times do seu próprio país. Irrecusável, certo?

Não para Mamma Fiorella. Ela vetou a ida do garotinho, mal sabendo que tantos outros clubes imensos bateriam àquela porta e teriam a mesma resposta.

– No, no. Mi dispiace.

As batidas que realmente importavam eram as do coração de Francesco, e definitivamente, elas pulsavam um sangue com tom mais escuro que o normal, mais especificamente grená.

 

capítulo 1

Capítulo 1 – Duas vias romanas, infinitas vias pelo mundo.

Em casa. É assim que Totti se sentiu 25 anos, no aconchego da loba e vestindo a camisa de seu time de coração, a Roma. Essa paixão surgiu ainda quando a maioria da criançada da capital italiana tinha duas opções.

“Vermelho ou azul”. Roma ou Lazio.

Mas o pequeno Francesco não era todo mundo. Ele só tinha uma opção. Inspirado por seu avô Gianluca, mesmo sem ter convivido muito com ele, o menino se tornou romanista. Anos mais tarde ele mesmo definiria essa paixão em texto belíssimo: “Não era só um clube de futebol, era parte da nossa família, do nosso sangue, das nossas almas.”

Totti então passou a colocar esse amor em jogo, aos 13 anos ingressou nas categorias de base do clube, três anos depois já estreava e então, aos 21 se tornou Il Capitano di Roma. Precoce, foi descobrindo sua posição em campo – fazendo cada vez mais gols, acumulando a idolatria da torcida e sendo frequentemente convocado para a Squadra Azzurra.

Assim, é claro que as propostas iam chegando. E dentre as mais notáveis, estava aquela, galáctica. Um convite para jogar no Real Madrid de Zidane, Figo e Ronaldo pode parecer uma oportunidade incrível, mas para Francesco, nenhum sentimento era maior que honrar a camisa do seu time do coração. E como ele honrou.

 

Capítulo 2 – Vida longa ao Re di Roma

Nos anos 80, o brasileiro Falcão ganhou uma coroa na capital da Itália, se tornou o Re di Roma e levou os giallorossi ao scudetto de 1983. No entanto, a dinastia parecia ter acabado ali no volante brasileiro. Os anos iam passando e os tão desejados troféus dos campeonatos italianos não chegavam mais ao Stadio Olímpico.

Até que dezoito anos depois, o capitão foi buscar sua coroa. Na temporada 2000-2001, comandada por Totti, a Roma levou seu terceiro título da série A para casa. Sendo este, o maior título do camisa 10 pelo clube. Copas e Supercopas também viriam.

Além desse marco para a squadra romanista, o craque buscaria muitos outros recordes pessoais. Se tornando o terceiro jogador com mais jogos na primeira divisão italiana e o atleta com mais partidas pela Roma em toda história. Os gols também fizeram parte de sua carreira, sendo ele, o maior artilheiro giallorossi de todos os tempos.

Com propostas recusadas, títulos logrados e recordes quebrados; seu nome foi ecoando cada vez mais no futebol e principalmente na história daquele clube tão amado por sua família. A realeza de Totti transbordava a cidade e ganhava o mundo. Anos depois, aquela terra voltava a ter um notável imperador, obcecado por conquistas.

 

Capítulo 3 – Arrivederci, Capitano

Quase tudo tem um fim. Lendas não.

Com todo seu empenho, vontade e sentimento, Totti deixou um legado imenso. Mais que isso, deixou um verdadeiro império. Respeitado por todos adversários, ele será mais um dos eternos no jogo.

Mesmo que ao fim da temporada ele deixe o time que tanto amou defender, a torcida não o deixará. Todos românticos do futebol que se prezem, respeitarão o que parece ser o último dos que tinha amor à camisa. Conceito tão clichê, mas tão verdadeiro na vida do craque.

E assim, nesse domingo frente ao Genoa, será última atuação profissional com a maglia dieci. O futuro ainda é incerto, pode ser como dirigente da Roma ou como atleta nos EUA.

Mas de uma coisa temos certeza absoluta. Onde quer que Nonno Gianluca esteja agora, ele vibra orgulhoso com a carreira de seu neto. Se baterem na porta do céu e perguntarem, com certeza ele dirá:

– Si, si. Mi piace!

Grazie per tutto, Francesco.

Comentários

Cresceu acompanhando de perto o glorioso Bragantino e viu que em meio às vitórias e derrotas, existem muitas boas histórias pra contar. Seja nos livros, nos cinemas ou até em uma mesa de bar; o futebol sempre está presente.