Obrigado, Francesco Totti

Desde que concebo minha existência, tenho no futebol parte importantíssima dela. Como brincadeira, diversão, esporte, ou, mais recente e habitualmente, escrevendo, as quatro linhas que limitam um terreno em que não existem limites me fascinam. Por isso, incontáveis vezes, pergunto-me ou sou perguntado sobre o porquê disso. Em geral, sempre utilizei uma frase para descrever meu sentimento: “há coisas que não se explicam”. No entanto, essa é uma meia verdade. O fato de o futebol ser algo tão arraigado em minhas entranhas, elemento constitutivo do meu caráter, da minha personalidade e, enfim, do que sou, sempre tornou difícil prestar tal esclarecimento. Mas é possível o fazer. E você, Francesco Totti, provou-me.

Embora tenha sempre simpatizado com a Roma, por sua história, bela camisa e pela relação que nutre com sua cidade e torcida, receio não poder me afirmar torcedor Giallorossi. E hoje invejo todo aquele que bate no peito e brada o hino romanista a plenos pulmões. Só algo muito forte poderia ter originado o vínculo entre Totti e a Roma, algo que transcende o esporte e explica, por meio da experiência, o que as palavras dificilmente conseguem.

Neste domingo, 28 de maio de 2017, parei para acompanhar Roma e Genoa, mas não pela expectativa de um grande jogo. O motivo estava no banco de reservas, 10 às costas. No entanto, ingenuamente, não esperava ser tão arrebatado pelo que viria a seguir. Não mesmo, não esperava. Não poderia.

Foto: ASRoma.com

Seu adeus, Totti, permitiu-me ser capaz de explicar meu amor pelo futebol. Fez uma dívida minha para contigo que nunca, em tempo algum, conseguirei pagar. E, você, Capitano fez isso sendo humano. Logo você, que é lenda, ícone, referência, craque, gênio e mito. Foi sua infinita humanidade que me atordoou.

Para o torcedor da Roma, a criança, o adolescente, o adulto e o idoso, perder-te deve trazer um sentimento de gratidão que extrapola os limites do futebol. Não são seus belos gols que farão mais falta, mas o fim daquela certeza de que, na sua presença, não havia o que temer. O melhor sempre seria entregue por todos os jogadores, a começar por você, que os inspirava e o torcedor tranquilizava.

Contudo, para mim, que não tenho laços de amor e paixão pela Roma, seu comovente adeus, que me arrancou poucas, silenciosas e pesadas lágrimas, transformou em palavras o que achava só ser possível sentir, até então. Sua humanidade foi imensa. E todas as contradições que nos caracterizam estiveram presentes. Ver sua despedida inspirou dor e prazer, amor e ódio (ao tempo, por sua implacabilidade). Embasbacou-me, pasmou-me.

Foto: ASRoma.com

Tive vontade de voltar no tempo, para ver mais de seus jogos. Arrependi-me por ter tantas vezes deixado o Campeonato Italiano de lado. Todavia, também me senti extremamente grato por ter me programado para acompanhar seu último ato como jogador romanista.

Você, Totti, mostrou-me que meu amor pelo futebol vem das profundezas de mim mesmo, do meu caráter humano. Do que sou e do que quero ser. Da forma como vejo as coisas. Você me provou que o futebol é para mim um viés da vida, muito mais do que uma “coisa”. Nele cabem amor, ódio, tristeza, paixão e crença. Nossas forças e fraquezas. O futebol nos põe à flor da pele e estimula nosso pensamento, na incessante busca por o explicar.

Provavelmente, é por isso que sempre vou gostar mais de ver um futebol 100% apaixonado, dedicado e aplicado, ainda que limitado, do que um time 90% técnico e brilhante. É como concebo as coisas.

Foto: ASRoma.com

Seu caminhar resignado com a chegada do triste fim, sob os olhares emocionados de todos, fazendo chorar também narradores e comentaristas, fez-me entender de uma vez por todas que a essência do futebol é seu lado humano; sua reações e questões. Por isso, possui, para mim, tanta importância.

É, claro, Totti, que essa é a minha experiência com esse esporte. Tenho certeza de que ela é diferente entre meus pares, fervorosos amantes do futebol. Por isso, essa carta é totalmente pessoal. De mim, Wladimir, para você, Francesco. Dificilmente, terei a oportunidade de te conhecer e lhe apertar a mão. Ainda assim, não poderia deixar de te agradecer, por me ajudar a entender o que sou, como sou. Também por me mostrar que o futebol e suas grandes histórias sempre valem a pena. Grazie, Capitano.

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Advogado graduado pela PUC Minas, pós-graduando em Direito Desportivo e Negócios do Esporte, 24 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no "O Futebólogo", meu blog, e no "Bundesliga Brasil".