A espinhosa missão de Ernesto Valverde no Barcelona

  • por Raniery Medeiros
  • 6 Meses atrás

O Barcelona anunciou nesta segunda-feira o nome de seu novo treinador. Trata-se do espanhol Ernesto Valverde, ex-técnico do Athletic Bilbao. Muito se especulou a respeito de quem substituiria Luis Enrique, que já havia anunciado sua saída do clube ao término da temporada. Valverde foi anunciado pelo presidente Josep Maria Bartomeu. O novo comandante culé chega sob expectativas, mas acima de tudo, com a desconfiança sobre o que fazer mediante um time tão desajustado.

Antes de falarmos sobre esta escolha, que para muitos não foi o melhor caminho, necessita-se de uma pequena compreensão a respeito do que pensa o clube. Filosofia própria, estilo de jogo modelado às convicções de Johan Cruyff, orgulho pelo “Més que un Club”, bom trato com as categorias de base etc. Até aí tudo bem. No entanto, diante das necessidades latentes nas últimas temporadas, a essência foi sendo deixada de lado. Há, bem ou mal, uma política na escolha do novo treinador – principalmente de 2003 para cá: pouco status, alguém que conheça o estilo de jogo do clube. Vamos entender porque Valverde se enquadra nas nuances citadas.

  • 2003 – Frank Rijkaard: não jogou pelo barça, mas bebeu da fonte de Rinus Michels. A essência culé estava ali. Sem status, à época.
  • 2008 – Josep Guardiola: foi atleta do clube, treinava o time B. Foi uma aposta, conhecia como poucos a história e filosofia dos culés. Sem status.
  • 2012 – Tito Vilanova: auxiliar de Pep, ganhou prestígio e foi escolhido para dar continuidade ao trabalho. Sem status.
  • 2013 – Tata Martino: apenas conhecia a história do clube. Foi contratado porque Vilanova teve de se ausentar para tratar de um câncer. Sem status no âmbito europeu.
  • 2014 – Luis Enrique: ídolo como jogador, conhecedor de tudo o que cerca a história da entidade, bom trabalho no Celta. Não era o nome mais badalado, porém prestigiado com a direitoria. Sem status.

INFLUÊNCIAS

Voltemos a Ernesto Valverde. Apesar da breve passagem pelo clube, entre 1988 e 1990, teve o prazer de ser treinador por Johan Cruyff.

 

Após isso, foi jogar no Bilbao. Fixou muitas das ideias de Johan, mesclando-as com estilos de jogo de alguns técnicos renomados: Javier Clemente, Jupp Heynckes e Javier Irureta. Para que tenhamos entendimento de quem ele é hoje, faz-se necessário compreender de onde surgiram tantas bases técnicas e táticas.

CARREIRA COMO TREINADOR

Iniciou como assistente de Heynckes no Athletic de 2002, assumindo posteriormente o cargo principal. Entre 2003/2004 e 2004/2005 obteve o 5º e 9º lugares. Gostava do sistema equilibrado, aliando juventude e experiência. Sua próxima missão foi comandar o Espanyol. Aí sim, com um time cirúrgico e com um camisa 9 de referência (Walter Pandiani), chegou à final da Copa da UEFA, quando perdeu para o Sevilla de Dani Alves e Adriano.

 

Seu estilo, um tanto Kamikaze, rendeu bons frutos. Estudioso, não abria mão da posse de bola, marcação pressão e da superioridade numérica – algo bem semelhante ao que se joga no Barça. Time que é lembrado até hoje pela ofensividade, o Espanyol foi seu trabalho-destaque.

Após isso, idas e vindas. Olympiacos, Villarreal, Olympiacos – novamente -, e Valência. Fez história na Grécia, mas pelos times em La Liga, nada que pudesse merecer grande destaque. Eis que surge a oportunidade de voltar para casa, substituindo o polêmico e gênio Marcelo Bielsa.

 

IDENTIDADE E AGRESSIVIDADE NO BILBAO

Voltou em 2013 ainda mais preparado, tendo consciência do que poderia fazer. Valverde obteve resultados expressivos, sempre levando os bascos aos torneios europeus, tendo inclusive alcançado vaga à Champions League. Jamais deixou sua equipe abaixo do 7º lugar. Para treinar o Bilbao é preciso, e muito, ter olho clínico com as categorias de base. Afinal de contas, é a principal filosofia do clube. Além da base, potencializou alguns jovens: Kepa, Laporte, Etxeita, Ander Herrera, Muniain, Iñaki Williams, Yeray Alavarez, Sabin Merino.

Dito isto, o treinador foi modelando seu estilo e o aliou ao que seu elenco o propusera para colocar em prática. Fez de Aduriz, após os 30 anos, um atacante letal e extremamente perigoso. Alçou voos mais altos ao dar o título da Supercopa da Espanha ao Bilbao, após 31 anos de jejum. Em grande estilo, emplacou 4-0 no Barcelona que vinha da conquista do triplete.

 

PODE DAR CERTO NO BARCELONA? QUAIS OS DESAFIOS?

Para quem o acompanhou de perto, sabe que Ernesto gosta do 4-2-3-1, com marcação pressão, triangulações e superioridade numérica. No entanto, até pelas peças que teve no Bilbao, abusava das bolas alçadas à área, favorecendo Aduriz – algo totalmente impensado pelos catalães. Em contrapartida, sempre criou equipes balanceadas em todos os setores, algo que faltou ao Barça na última temporada. Mas, para quem está adaptado a Liga, não será complicado emular novas ideias com o time que terá em mãos.

A PROBLEMÁTICA PELO MEIO

O Barcelona viveu da genialidade do trio MSN, o jogo coletivo caiu, mas, acima de qualquer elemento, o meio parou de funcionar. O que fazer com Busquets, André Gomes, Denis Suárez, Iniesta, Rafinha, Rakitic e Sergi Roberto? A alma do time perdeu sua força, dinâmica e domínio. Contratações terão de ser feitas criteriosamente. Não adianta pagar 40 milhões em jogadores que não acrescentem imediatamente. É preciso restaurar o poder de fogo nos meio-campistas. Equilibrado e consciente, Valverde sabe da missão espinhosa que terá pela frente.

REFORMULAÇÃO?

Precisa-se de lateral-direito, zagueiro – Mascherano já não é mais um jovem -, meio-campistas renomados e reservas para o trio MSN. Muita coisa? Sim! Alguns atletas deixarão o clube, e Valverde precisará ser rápido na reposição. O que mais se ouviu foi: o Barça perdeu a essência do jogo coletivo.

 

Resgatar isso, que é algo cultural, não será nada fácil. Valverde chega ao Barcelona com a missão de remontar as bases do time. E não deixar o Real Madrid ser hegemônico também fará parte do processo.

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