O futebol quer o Liverpool de volta

  • por Jean Madrid
  • 4 Meses atrás

Não, não é clubismo, sentimento, puxação de saco ou a adoração irrefutável pela magistral canção de Gerry & The Pacemakers. O futebol não quer o Liverpool de volta porque ele foi o berço de inúmeros craques e técnicos geniais. Ou pelo fato da equipe ser adorada nos quatro cantos da terra. Tampouco porque é um dos clubes mais vencedores da história do esporte bretão.

 

O futebol quer o Liverpool de volta pois a curvatura do varal quando sobreposto por um manto Red é maior do que quando qualquer outra camisa o sobrepõe. O clube do noroeste inglês é gigante demais para viver tanto tempo na sombra das grandes conquistas. E a sua importância dentro das quatro linhas é ainda maior para ter deixado de protagonizar momentos únicos como em outrora.

Atualmente, o Liverpool carrega um enorme jejum das principais conquistas do velho continente. O caneco mais recente foi erguido na temporada 2011-12. Numa final contra o modesto Cardiff, onde o time na época comandado por Kenny Dalglish suou para vencer a equipe do País de Gales nos pênaltis e levantar a taça da Copa da Liga Inglesa. Entretanto, já se passou mais de uma década do inesquecível milagre de Istambul e incontáveis 27 anos do último título inglês.

O escudo, colocado por muitos no mais alto patamar do futebol da terra da rainha, vive assombrado pelo fantasma da Premier League. O clube de Anfield, soberano entre as décadas de 70 e 80, jamais conquistou o principal título do país em sua nova era. Mas as coisas nunca foram bem assim…

Viajaremos pelos versos de You’ll Never Walk Alone para historiar e – talvez – refletir sobre o que foi e o que é, nos dias atuais, o time que revolucionou o esporte na segunda metade do século passado e que hoje vive à sombra do seu gigantismo.

“WALK ON, THROUGH THE WIND; THROUGH THE RAIN; THOUGH DREAMS BE TOSSED AND BLOWN”

Quem abre a tabela da Premier League hoje e vê o Liverpool na terceira colocação, deve imaginar que a situação não seja tão ruim. Que o cenário atual não é dos piores. Ou que, apesar do jejum, os Reds continuam brigando sempre lá na parte de cima. Pois é. Nem um, nem o outro e muito menos o terceiro. A situação é ruim, o cenário é um dos piores e brigar lá em cima está se tornando cada vez mais raro nos corredores de Anfield.

Ainda que a comparação seja covarde e extremamente desproporcional; se dividirmos o futebol inglês em duas épocas – o antigo e o novo testamento, leia-se antes da Premier League e, hoje, durante – e traçarmos um paralelo entre o Liverpool daquela época e o atual, a queda de rendimento é gritante. A curva é tão descendente que, para sermos “justos”, delimitaremos o dado “antigo testamento”, de 1974 (quando Bob Paisley assumiu o cargo de técnico) até 1992 (quando teve início a Premier League). São 18 anos, contra 24. 34 títulos, contra 12.

Tudo bem que comparar a época de ouro de um clube com uma fase ruim pode parecer inoportuno ou, até mesmo, uma tentativa desesperada de sensacionalismo. Porém, se analisarmos friamente os números, ainda que as décadas de 70 e 80 tenham sido ricas nesse aspecto, o gráfico se mostra tão em queda que nem as seis temporadas a mais do “novo testamento” são capazes de melhorá-lo.

Dados os números, o diagnóstico se mostra ainda mais desigual se colocarmos em xeque o peso dos títulos conquistados em ambas as épocas. Chega a ser assustador imaginar que Paisley, Fagan, Clemence, McDermott, Hansen, Dalglish e inúmeros outros conquistaram 4 Champions League e 10 campeonatos nacionais. Enquanto Gerrard, Torres, Suárez, Cissé, Owen e etc, atuaram pelo gigante inglês em uma época abastecida por um único título europeu e algumas quase conquistas da Premier League.

“WHEN YOU WALK THROUGH A STORM, HOLD YOUR HEAD UP HIGH, AND DON’T BE AFRAID OF THE DARK”

Ainda que longe dos holofotes e separado das notáveis conquistas, o Liverpool – sempre contemplado pela paixão ímpar de sua torcida – carrega no escudo brilhantemente lapidado com o Liver Bird e o Shankly Gates o peso de uma camisa singular, capaz de se manter no topo por anos e da qual respeito, reverência e grandiosidade emanam.

Prova disso é a UEFA Champions League da temporada 2004-05. A competição que teve como desfecho a, intitulada por muitos, melhor e mais surpreendente partida da história do torneio. Em Istambul, Gerrard, Smicer e Xabi Alonso fizeram o que parecia ser impossível e levaram a equipe de Merseyside ao quinto título europeu.

 

Naquela época, o clube já não lembrava há tempos o que foram os imortais esquadrões das décadas passadas. Em 2005, o Liverpool terminou o campeonato inglês na quinta colocação. Foi eliminado antes das oitavas de final da FA Cup. E perdeu a decisão da Copa da Liga Inglesa para o Chelsea de José Mourinho. Três fracassos que colocaram um peso ainda maior no caneco orelhudo erguido por Steven Gerrard em terras turcas.

Entre o início da Premier League, em 1992, e a chegada dos anos 2000, a sala de troféus de Anfield conheceu apenas uma taça: a Copa da Liga da temporada 1994-95. O século XXI chegou e trouxe consigo o retorno de algumas conquistas. Entre as mais importantes, destacam-se a Liga Europa e as duas copas nacionais da temporada 2000-01, a Taça da Liga em 2002-03 e a Copa da Inglaterra em 2005-06.

Nos mesmos anos, o Liverpool viu o seu rival, Manchester United, reinar soberano em terras nacionais e retornar com êxito ao cenário dos grandes títulos europeus. Foi a deixa para que os Reds tivessem o seu trono inglês ameaçado. Trono que, para muitos, já foi tomado há tempos pelos Diabos Vermelhos.

 

“AT THE END OF THE STORM THERE’S A GOLDEN SKY, AND THE SWEET SILVER SONG OF A LARK”

O trecho acima – algo como “No fim da tempestade há um céu dourado, e a doce canção prateada de uma cotovia” – retrata bem o lema recente do Liverpool. Numa época comandada por potências hiper-ricas, com amplo domínio de mercado e que atraem os grandes jogadores da atual geração, Jürgen Klopp, Philippe Coutinho e companhia tentam reerguer a equipe recolocando-a no patamar que é seu por direito.

Depois de frustradas temporadas sob o comando de Brendan Rodgers e Kenny Dalglish, o técnico alemão vem devolvendo o bom futebol a terra dos Beatles. Comandado por um jovem brasileiro de 24 anos que há algum tempo desponta para o hall dos grandes craques que passaram pela Europa, o time vem se reformulando; adquirindo novas ideias e conceitos. Reinventando seu estilo de jogar futebol e objetivando o caminho das conquistas.

Jürgen e sua filosofia

 

Klopp deu repertório, tática, vestiário, força de vontade e todos os quesitos evolutivos que um treinador que sabe lidar bem com um elenco traz. Mudou a forma de pensar e agir dos jogadores. Vem implantando e aprimorando a cada partida o seu característico gegenpressing. Redescobriu atletas – como Lucas Leiva, James Milner, Jordan Henderson e até mesmo Dejan Lovren. Além disso, jogadores como Adam Lallana, Roberto Firmino e Sadio Mané se tornaram pilares da equipe. Abastecidos e, de certa forma, liderados por um camisa 10 com liberdade para flutuar e criar as principais chances de perigo.

A capacidade que o alemão tem de transpor para seus jogadores a ideia de como quer que o jogo seja gerido é algo raro de se encontrar. Os Reds dispõem hoje de um trabalho moderno e bem raciocinado de campo e bola. O que difere o futebol brasileiro do europeu é exatamente o que a realidade do Liverpool sugere. Enquanto aqui o imediatismo reina, lá os grandes clubes dão tempo ao tempo. Esperam e confiam no ofício de um novo treinador visando o retorno a médio e longo prazo. Klopp pode não ter trazido de imediato os troféus, mas vem, calmamente, devolvendo o que não víamos em Anfield há tempos: o futebol.

É hora de caminhar com esperança no coração.

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A classe de Zidane, a sintonia de Xavi e Iniesta, a irreverência do baixo e o cabelo do Beckham.